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É membro do Grupo Diálogos de Extensão e Pesquisas Interdisciplinares (UECE/UNILAB), Observatório das Metrópoles – Fortaleza, e integra a Comissão de Articulação da Rede Dlis. Mestranda em Sociologia (UECE), graduanda em Sociologia (UNILAB) e Bacharela em Humanidades (UNILAB). Coordenadora estadual de Mulheres do MNU Ceará. Direção Estadual da CMP Ceará. Fez parte da delegação dos movimentos sociais brasileiros que acompanharam as eleições municipais e a consulta popular da juventude no dia 27 de julho de 2025 em Caracas – Venezuela.

Taxar os super-ricos é discutir o Brasil que queremos

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Em um protesto, uma pessoa segura um cartaz com o texto "pela taxação das grandes fortunas"
Relatório aponta a necessidade de taxar grandes fortunas. | Crédito: Levante Popular da Juventude

A justiça tributária começa no topo e passa pela universidade, pelos movimentos sociais e pela capacidade de transformar conhecimento em mobilização.

Este artigo nasce da transcrição e reelaboração da palestra realizada por mim no Instituto Federal de Rondônia, campus Zona Norte, no dia 27 de agosto de 2026, durante a Caravana da campanha Taxar Super-Ricos – A Justiça Tributária Começa no Topo na cidade de Porto Velho. O encontro reuniu estudantes, professores e representantes de movimentos sociais em uma roda de conversa sobre desigualdade, sistema tributário e o papel da universidade pública na construção de uma sociedade mais justa. A proposta apresentada foi direta: tirar a discussão sobre impostos do campo exclusivamente técnico e colocá-la no centro do debate sobre democracia e direitos sociais.

Falar sobre taxação dos super-ricos é, antes de tudo, falar sobre desigualdade. E falar sobre desigualdade no Brasil significa reconhecer que não partimos das mesmas condições, que a riqueza está fortemente concentrada e que o sistema tributário pode aprofundar ou ajudar a enfrentar essa realidade.

O problema é que ainda prevalece, muitas vezes, a ideia de que discutir impostos é apenas discutir economia. Não é. É discutir quem paga a conta do Estado, quem se beneficia de sua estrutura e quais políticas públicas terão condições de existir.

A discussão apresentada em Porto Velho (RO) parte de uma constatação fundamental: o sistema tributário brasileiro é regressivo. Na prática, isso significa que a população de menor renda acaba comprometendo uma parcela proporcionalmente maior de seus recursos com tributos, enquanto os segmentos mais ricos possuem mecanismos que permitem reduzir o peso relativo dessa tributação.

E esse não é um detalhe técnico. Quando os mais pobres pagam proporcionalmente mais e os mais ricos pagam proporcionalmente menos, o sistema tributário deixa de ser apenas uma ferramenta de arrecadação e passa a reproduzir desigualdades.

Os números apresentados durante a palestra ajudam a compreender a dimensão desse problema. Segundo a pesquisa da Oxfam A raiz da desigualdade está no topo, a participação do 1% mais rico na renda nacional teria passado de cerca de 20,5%, em 2017, para 24,4% entre 2022 e 2023. Dentro desse grupo já extremamente privilegiado, a concentração é ainda maior: mais da metade dessa renda ficaria concentrada no 0,1% mais rico. O 0,01% mais rico, por sua vez, concentra sozinho 6,3% da renda nacional.

Não estamos, portanto, falando de uma diferença pequena entre quem ganha mais e quem ganha menos. Estamos diante de uma concentração extrema de riqueza e poder econômico.

Há ainda outro dado revelador: entre 2017 e 2023, a distribuição de lucros e dividendos teria crescido 72%, alcançando R$ 990 bilhões, enquanto as rendas provenientes do trabalho e de benefícios sociais cresceram apenas 9,3% no mesmo período, segundo os dados apresentados.

A pergunta que emerge é inevitável: por que o trabalho é tão fortemente tributado enquanto formas de renda associadas ao patrimônio e ao capital conseguem permanecer menos oneradas?

É justamente nesse ponto que a campanha Taxar Super-Ricos provoca uma reflexão importante. Taxar grandes fortunas não significa atingir indistintamente qualquer pessoa que possua um patrimônio ou tenha uma renda acima da média. O debate apresentado chamei atenção para o extremo da pirâmide econômica, para aqueles que acumulam grandes fortunas e cuja renda está profundamente vinculada ao patrimônio e ao capital.

Essa diferença precisa ser compreendida pela sociedade. Possuir uma casa, um carro ou receber um salário de classe média não coloca uma pessoa no mesmo patamar econômico de quem acumula milhões ou bilhões de reais. Confundir essas realidades interessa pouco à construção de um debate honesto.

Também não é possível discutir concentração de riqueza ignorando raça e gênero. Os dados apresentados da pesquisa A raiz da desigualdade está no topo mostram que a parcela dos super-ricos tem um perfil demográfico bastante definido, com predominância de homens e pessoas brancas.

Na outra ponta da desigualdade estão, de maneira desproporcional, as mulheres negras. Elas estão entre aquelas que mais sentem os efeitos concretos da precarização econômica e, ao mesmo tempo, entre as que historicamente assumem papel decisivo na organização comunitária e na luta por direitos.

Por isso, justiça fiscal também é uma agenda de enfrentamento das desigualdades raciais e de gênero. Não basta perguntar quanto dinheiro existe. É preciso perguntar quem acumulou riqueza, quem teve acesso às oportunidades e quem historicamente ficou do lado de fora delas.

Nesse cenário, a universidade pública tem uma responsabilidade que ultrapassa seus muros. Destaquei três papéis fundamentais da universidade: produzir evidências, desconstruir narrativas dominantes e difundir conhecimento.

A universidade pode investigar os impactos de uma política tributária mais progressiva, produzir dados e qualificar o debate. Mas precisa também fazer com que esse conhecimento chegue à sociedade.

Isso é especialmente importante num momento em que as redes sociais vendem diariamente uma imagem de sucesso baseada no consumo e na riqueza individual. Casas luxuosas, carros de alto padrão e estilos de vida inacessíveis aparecem como se fossem apenas resultado de esforço pessoal e não parte de uma estrutura econômica profundamente desigual.

É papel da universidade ajudar a formular outra pergunta: por que alguns concentram tanto enquanto milhões ainda enfrentam dificuldades para garantir o básico?

Mas conhecimento, sozinho, não transforma a realidade. É aí que entram os movimentos sociais. A história brasileira mostra que direitos não foram entregues espontaneamente. A expansão das universidades, as políticas de cotas, as conquistas trabalhistas e tantas outras mudanças foram resultado de organização, pressão e luta coletiva. A mudança do sistema tributário também dependerá dessa mobilização.

A articulação entre universidade e movimentos sociais é, portanto, estratégica. De um lado, a produção de conhecimento e evidências. Do outro, a capacidade de transformar essas informações em organização política e pressão social. Como foi defendido na palestra, é necessário fazer com que a pesquisa crítica dialogue com a sociedade e seja capaz de produzir ação.

Isso significa discutir de onde virá o dinheiro para financiar políticas públicas. Mais recursos no orçamento podem significar maior capacidade de investimento em educação, habitação, saúde, infraestrutura e serviços públicos.

Em última instância, taxar os super-ricos é discutir o próprio futuro do Estado brasileiro. É por isso que essa pauta não deve ser tratada como uma disputa entre “ricos” e “pobres”, muito menos como uma guerra contra quem conseguiu construir algum patrimônio. A questão central é outra: quanto maior a capacidade econômica, maior deve ser a responsabilidade tributária.

Uma sociedade democrática não pode exigir sacrifícios maiores justamente de quem tem menos capacidade de contribuir.

O Brasil precisa encarar de frente sua concentração de riqueza e rever as estruturas que permitem que o patrimônio se reproduza por gerações enquanto a maioria continua pagando uma parcela significativa de sua renda em impostos sobre consumo e trabalho.

A justiça fiscal começa no topo porque é no topo que está uma parcela decisiva da riqueza concentrada. Mas ela não será construída apenas por uma mudança legislativa. Será construída também pelo conhecimento produzido nas universidades, pela mobilização dos movimentos sociais e pela disposição da sociedade de questionar privilégios que durante muito tempo foram apresentados como naturais.

Taxar os super-ricos é, portanto, mais do que uma proposta tributária. É uma escolha de projeto de país. É decidir se queremos continuar reproduzindo uma sociedade em que poucos acumulam cada vez mais ou se estamos dispostos a construir um sistema em que a riqueza também cumpra uma função social.

No fim das contas, a pergunta talvez seja simples: que Brasil queremos financiar com os nossos impostos? A resposta passa necessariamente pela justiça tributária.

*Geyse Anne da Silva é membro do Grupo Diálogos de Extensão e Pesquisas Interdisciplinares (UECE/UNILAB), Observatório das Metrópoles – Fortaleza, e integra a Comissão de Articulação da Rede Dlis. Mestranda em Sociologia (UECE), graduanda em Sociologia (UNILAB) e Bacharela em Humanidades (UNILAB). Coordenadora estadual de Mulheres do MNU Ceará. Direção Estadual da CMP Ceará. Fez parte da delegação dos movimentos sociais brasileiros que acompanharam as eleições municipais e a consulta popular da juventude no dia 27 de julho de 2025 em Caracas – Venezuela.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Lívio Pereira

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