Gladstone Leonel Júnior

Professor do Programa de Pós-Graduação em Direito e na Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em Direito e Pós-Doutor em Direitos Humanos pela Universidade de Brasília. Realizou o estágio doutoral na Facultat de Dret, Universitat de Valencia, Espanha. Coordenador atual do NEP-CEAM/UnB (Núcleo de Estudos para Paz e Direitos Humanos).

Manter viva a memória e vencer: as lições de O Agente Secreto pós-governo Bolsonaro

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Cena do filme "O Agente Secreto"
Cena do filme “O Agente Secreto” | Crédito: Divulgação / CinemaScópio

A celebração de hoje é fruto da raiva de ontem, tanto no filme 'O Agente Secreto' quanto no filme 'Ainda Estou Aqui', também premiado.

Costumo dizer que um dos meus combustíveis para a escrita é a raiva. Ela nos retira da zona de conforto e da inércia. Garante o impulso necessário para reagir à sua causa. O texto permite que ela seja, em parte, canalizada da bile, racionalizada na reflexão e ganhe o mundo quando publicada.  

Curiosamente, a escrita do artigo, hoje, foge desse padrão e segue a linha celebratória da premiação e do reconhecimento do filme brasileiro O Agente Secreto no Globo de Ouro, bem como de Wagner Moura como melhor ator de filme de drama. 

A celebração de hoje é fruto da raiva de ontem, tanto no filme O Agente Secreto quanto no filme Ainda Estou Aqui, também premiado. A ditadura ainda é uma ferida aberta no Brasil e se renova com as tentativas de golpe. Ambos os filmes dialogam com esse cenário e com a chaga política frequente na América Latina, dominada pelo consórcio de uma classe político-econômica interna serviçal, que odeia o povo e se alia aos interesses de potências externas.

Possivelmente, o grande legado desses filmes — inclusive de O Agente Secreto — é o trabalho com a memória, para que as violências do passado não sejam encobertas e não se repitam no futuro. A memória se fortalece com incentivo e política pública, política restaurada, em alguma medida, no governo do presidente Lula. 

Seguindo essa lição, não se pode perder da memória o que ocorreu entre os anos de 2019 a 2022. O governo de Jair Bolsonaro, reconhecendo a cultura brasileira como potência, atacou-a frontalmente. Quatro pontos permitem reavivar a nossa memória:

  1. O Ministério da Cultura foi extinto. A cultura se rebaixou a status de secretaria, com pouca autonomia e recursos. Com o desmonte, houve a descontinuidade de programas e projetos culturais.
  1. O governo autorizou o bloqueio de verbas e cortes significativos em vários órgãos, como a Fundação Nacional de Artes (Funarte) e o Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), além da ameaça de extinção da Agência Nacional do Cinema (Ancine). O principal mecanismo de incentivo à cultura brasileira, a Lei Rouanet, foi duramente atacado, como se fosse algo ruim, ou quase pecaminoso, dificultando a viabilização das produções culturais brasileiras.
  1. A nova edição da Lei Aldir Blanc, criada para apoiar artistas e espaços culturais durante a pandemia, foi vetada integralmente pelo presidente Bolsonaro, apesar de ter sido aprovada pelo Congresso na sequência.
  1. A pior situação foi a tentativa de amedrontar o setor cultural por meio da censura e de ataques à diversidade cultural e artística, com hostilizações frequentes às produções que abordavam temas relacionados à crítica política, gênero ou raça. O discurso ideológico de “guerra cultural’ aprofundava o desmonte na cultura, a ponto de um dos secretários da pasta, Roberto Alvim, sentir-se à vontade para parafrasear um discurso nazista em um vídeo institucional. 

Para não permitir uma lacuna na memória, cabe destacar, com menção desonrosa, que, após o golpe de 2016, o presidente Temer extinguiu o Ministério da Cultura e, anos depois, por pressão política, o recriou com menor status.

Não se pode negar a complexidade humana nem deixar de compreender que o pano de fundo desta raiva canalizada, seja nos meus artigos para esta coluna, seja nos filmes brasileiros aqui trazidos, é o profundo sentimento de amor ao povo e à sua cultura. É acreditar na potência de uma gente que merece o melhor do que produz, uma sociedade e um Estado em que esse povo seja protagonista da construção de um projeto de vida solidário e revigorante. 

Nada causa mais pavor na extrema direita do que a celebração da cultura nacional, nordestina e pernambucana, da vibrante escola baiana de artistas. Pois bem, continuaremos a canalizar a nossa raiva para enfrentar o que está por vir, porque nosso povo precisa ter a possibilidade de sorrir. Como nos ensinaram essas duas produções vitoriosas do nosso cinema: Sorriam e não esqueçam!

Editado por: Maria Teresa Cruz

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