Querida gente leitora do Brasil de Fato, o “Relatório da Democracia 2026: a era democrática está se desfazendo?”, do Instituto V-Dem, informa que, ao fim de 2025, 44 países atravessavam processos de autocratização. Neles vivia 41% da população mundial.
Vale a comparação com a primeira metade do século 20, marcada por duas guerras mundiais e pela ascensão dos fascismos — se não pela escala da ameaça, mas pela repetição das formas. Golpes de estado persistem, mas governos eleitos também concentram poderes e atacam controles institucionais, imprensa, universidades e liberdades civis sem precisar abolir imediatamente o rito eleitoral. Nos Estados Unidos, o V-Dem descreve o segundo mandato de Donald Trump, iniciado em janeiro de 2025, como “uma rápida concentração de poderes presidenciais”.
Trump não produz sozinho essa corrente global. No Brasil, entre 2019 e 2024, cinco edições brasileiras da Conferência de Ação Política Conservadora (Cpac), promovidas pelo Instituto Conservador-Liberal e ligadas à atuação internacional de Eduardo Bolsonaro, articularam lideranças brasileiras e estrangeiras da direita radical e da extrema direita. Essa corrente encontrou terreno na tradição da tutelar militar, no neoliberalismo, na crise de hegemonia e na arquitetura bolsonarista. A tentativa de golpe culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023, e os oito integrantes núcleo duro do golpe foram condenados pelo STF.
Sua dimensão religiosa foi decisiva. Joanildo Burity mostra como uma elite evangélico-pentecostal passou do reconhecimento público à pretensão de dirigir moral e politicamente a sociedade, articulando “cidadãos de bem”, “maioria cristã”, neoliberalismo e hostilidade à esquerda. O “Manifesto à Nação: o Brasil para os brasileiros”, lançado pela Frente Parlamentar Evangélica poucos dias antes do 2º turno da eleição presidencial de 2018, que daria vitória a Jair Bolsonaro, associou diretamente “valores cristãos” e “defesa da família” a enxugamento do Estado, terceirização, desregulamentação e “Escola sem Partido”.
A ameaça autoritária, portanto, não se sustenta apenas num líder. Ela precisa de aparelhos econômicos, militares, religiosos, parlamentares, midiáticos e digitais que capturem esperanças frustradas, sacralizem poderes finitos e convertam medo em obediência e ódio. Por isso, o 37º Concílio da Diocese Anglicana do Recife incluiu em sua programação a mesa “O testemunho da Igreja em contextos de ameaça autoritária”.
O Concílio começou em 30 de abril de 2026 e seguiu até 3 de maio, em Camaragibe. Naquele mesmo dia, o Congresso derrubou parte do veto presidencial de Lula ao PL da Dosimetria; o texto remanescente foi promulgado em 8 de maio como Lei nº 15.402/2026, criando mecanismos capazes de reduzir penas por crimes contra o Estado Democrático de Direito. Na mesa, ao lado da bispa Marinez Bassotto e da reverenda Bianca Daébs, procurei responder: que espécie de poder reconhecemos, como Igreja, quando o medo pede um salvador?
Retomei o caminho de Emaús (Lucas 24, 13-35) porque ele começa onde o autoritarismo recruta adesões: na derrota, na frustração e na perda do futuro. Depois da execução de Jesus, Cléopas e outra pessoa deixam Jerusalém. Sob o peso do fracasso, resumem a desilusão: “nós esperávamos” que ele libertasse Israel. Quando a esperança se quebra, a promessa de um chefe forte pode ocupar o lugar da elaboração coletiva da derrota.
As duas pessoas não reconhecem quem se aproxima. O estranho pergunta, escuta, relê os acontecimentos e aceita sua hospitalidade. À mesa, toma, abençoa e reparte o pão. Seus olhos se abrem e reconhecem o Ressuscitado. Então fazem o caminho inverso, da fuga ao retorno e voltam à comunidade para anunciar que o Crucificado está vivo.
O Cristo de Emaús não oferece um programa político pronto. Sua aproximação às duas pessoas discípulas apresenta-nos uma gramática da resistência esperançada: escutar o luto, interpretar a história, reconhecer a vida na partilha e retornar, em comunidade, ao lugar do conflito para enfrentá-lo de outra posição.
A narrativa bíblica não é politicamente neutra. Jesus é torturado, condenado sob Pôncio Pilatos e executado na cruz (Lucas 23, 1-49). No mundo romano, a crucificação punia sobretudo pessoas escravizadas, subalternizadas e rebeldes. Corpos eram expostos para humilhar e sustentar a ordem imperial.
Filipenses (2, 5-11) interpreta esse caminho como kénosis, autoesvaziamento: Cristo não se agarra à condição divina, assume a forma de servo e atravessa a morte de cruz. Chamo kenótica, portanto, toda autoridade que não transforma posição em privilégio nem poder em domínio. A autoridade kenótica não manda mulheres, migrantes, pessoas LGBTQIAPN+ ou empobrecidas aceitarem abusos; ela constitui um juízo teológico sobre soberanias que só crescem diminuindo outras pessoas e comunidades.
No capítulo “Com que autoridade?”, de “O Novo Ser”, Paul Tillich afirma toda autoridade histórica como preliminar, temporária, porque a autoridade do Cristo crucificado não consagrou no céu a imagem do ditador terreno. Ao contrário, ele consagra o esvaziamento de qualquer pretensão de domínio. Por isso, em “Amor, Poder e Justiça”, Tillich distingue autoridade e compulsão: o poder degenera quando rompe participação e transforma pessoas em objetos. O amor não elimina o poder, mas impede que ele destrua quem deveria preservar.
A contradição do uso da religião cristã para legitimar projetos autoritários torna-se, então, flagrante. Em abril de 2025, Silas Malafaia e outras lideranças convocaram um vergonhoso ato pela anistia das relacionadas ao 8 de Janeiro. Nele, o Salmo 89 foi mobilizado como legitimação religiosa do ato e a Escritura deixou de julgar o poder para protegê-lo da responsabilização.
O campo sociodemográfico não se confunde com a direita evangélica; persistem, entre evangélicas, posições de esquerda, moderadas e críticas ao bolsonarismo. Mas há uma captura política da voz evangélica por lideranças que reivindicaram representar o conjunto.
Distinguir população, igrejas e elite político-pastoral é, portanto, condição para uma crítica justa; mas também para que possamos enfrentar devidamente uma objeção séria: pergunta, escuta, pão e kénosis não bastam, por si mesmos, diante de quartéis, redes financiadas, maiorias parlamentares ou ataques físicos. A democracia precisa de instituições capazes de decidir, sancionar e, quando necessário, empregar força legítima. Emaús não substitui Estado, organização e nem conflito político. A questão é outra: que forma de poder essa narrativa autoriza?
Ora, a kénosis não renuncia à ação, embora esvazie o poder da pretensão de ser absoluto e de converter pessoas em objetos de obediência. Em Emaús, o Ressuscitado interrompe a dispersão, escuta a derrota, disputa sua interpretação, reparte o pão e provoca o retorno. Exerce autoridade sem monopolizar a ação: depois do reconhecimento, desaparece; e as pessoas recuperam palavra, decisão e caminho. A autoridade kenótica não fabrica dependentes, mas antes, forma sujeitos e devolve poder à comunidade.
Paulo Freire sustenta — com uma mão dada ao Cristo e a outra a Marx, como costumava afirmar — que a ação dialógica exige liderança, disciplina, decisão, objetivos, tarefas e prestação de contas; o que ela recusa é a manipulação que converte o povo em objeto. Autoridade e liberdade precisam se afirmar dialeticamente, sem autoritarismo nem licenciosidade.
A passagem da escuta à organização não ocorre por espontaneísmo. Em Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire sustenta — “com Marx na mundanidade à procura de Cristo na transcendentalidade” — que a ação dialógica exige liderança, disciplina, decisão, objetivos, tarefas e prestação de contas. O que ela recusa é, kenoticamente, a manipulação que converte o povo em objeto: autoridade e liberdade precisam afirmar-se dialeticamente, sem autoritarismo nem licenciosidade.
Essa é a medida do poder democrático: forte diante da violência autoritária, mas autolimitado pela lei, fiscalização, direitos, participação e prestação de contas.
Responsabilizar golpistas, regular plataformas, proteger comunidades ameaçadas e impedir coerção eleitoral religiosa são exercícios legítimos quando ampliam a capacidade coletiva de agir. A força democrática se trai ao virar vingança ou dominação, mas renunciar ao poder é entregá-lo a quem domina. Democratizá-lo é organizá-lo, segundo o critério revelado em Emaús, para que ninguém possa tornar-se absoluto.
Em julho de 2026, também em Camaragibe, o Tapiri Ecumênico e Inter-religioso do Nordeste reuniu lideranças indígenas e quilombolas, povos de terreiro, pescadoras artesanais, movimentos feministas e organizações cristãs ecumênicas. Sua Carta-Denúncia reivindicou laicidade, combate ao racismo religioso, proteção dos territórios e consulta prévia às comunidades.
A alternativa ao poder autoritário já tem sujeitos e práticas: redes de proteção, educação laica, leitura crítica das mídias, comunicação popular, transparência do financiamento político-religioso e regulação das plataformas. A esperança precisa de infraestrutura.
Escrevo como cristão episcopal-anglicano. Para mim, o pão partido revela o Crucificado vivo; e o retorno a Jerusalém confessa a ressurreição. Esse testemunho não transforma outras religiões em cristianismo incompleto e nem exige que quem professa outra fé, ou nenhuma, adote minha linguagem.
Disso extraio, porém, um critério público advindo do princípio kenótico: nenhum púlpito, governo, partido, mercado ou plataforma é absoluto e, portanto, todo poder deve responder por seus efeitos nos corpos vulnerabilizados e nas condições materiais da vida comum.
O caminho muda de sentido quando o luto encontra escuta, memória, pão e companhia. Hoje, voltar a Jerusalém pode começar por interromper o vídeo que fabrica um inimigo, perguntar quem o produziu, financiou e impulsionou e transformar o medo em prática comunitária de checagem, proteção e ação.
O autoritarismo precisa do medo solitário. A democracia, em contrapartida, começa quando a gente retorna junto. Não para esperar outro salvador, mas para organizar a esperança.

