História Pública & Narrativas Afro-Atlânticas

Coluna escrita por integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro-Brasileiros e Indígenas da Universidade Federal da Paraíba (Neabi-UFPB) e por colaboradores externos que lecionam e pesquisam sobre educação antirracista, relações raciais, classe e gênero.

As guardiãs da fé de todos

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– Dona Maria, 80 anos, benzedeira da cidade de Acari, Rio Grande do Norte
Dona Maria, 80 anos, benzedeira da cidade de Acari, Rio Grande do Norte | Crédito: Marina Layssi

A medicina popular e os saberes tradicionais fazem parte da formação histórica e cultural do Brasil

Por Jenifer Alexandre*

Durante séculos, quase toda cidade brasileira conheceu ao menos uma mulher capaz de unir fé, cuidado e conhecimento ancestral. Eram elas, as rezadeiras e benzedeiras: referências de cuidado, espiritualidade e solidariedade. Hoje, porém, a presença dessas mulheres se torna cada vez mais rara. 

Muitas envelheceram sem conseguir transmitir seus saberes às novas gerações. Outras foram silenciadas pelo preconceito religioso, pela urbanização acelerada e pela ideia de que apenas o conhecimento científico possui valor. Aos poucos, aquilo que antes fazia parte do cotidiano popular corre o risco de sobreviver apenas na memória dos mais velhos.

Falar sobre rezadeiras e benzedeiras é também falar sobre etnociência: o reconhecimento dos conhecimentos produzidos pelos povos por meio da experiência, da oralidade e da convivência com a natureza, conforme o estudo Identidades étnicas e etnociências nas práticas de rezadeiras, de Graciela Souza Almeida e Natalino Perovano Filho.

Mesmo com as particularidades que distinguem o saber acadêmico e o saber popular, é impossível negar a riqueza existente nesses conhecimentos tradicionais, pois, durante muito tempo, diferentes pessoas e comunidades guardaram práticas de cuidado desenvolvidas a partir da observação das plantas medicinais, das crenças espirituais e coletividade.

No entanto, reconhecer a importância delas não significa negar a ciência ou substituir tratamentos médicos. Pelo contrário, significa compreender que diferentes formas de conhecimento podem coexistir e dialogar. A medicina popular e os saberes tradicionais fazem parte da formação histórica e cultural do Brasil. Ignorar isso é apagar parte da identidade do próprio povo brasileiro. Embora essas práticas sejam frequentemente associadas às mulheres, também existem homens que exercem esse ofício e participam da preservação desses saberes tradicionais.

Contudo, destaca-se a atuação feminina devido à sua expressiva presença histórica e cultural nesse contexto. Essas mulheres representam muito mais do que práticas religiosas. Elas preservam uma memória coletiva construída por meio da oralidade. Cada reza aprendida com a mãe ou com a avó, cada planta colhida no quintal, cada orientação dada a quem chega em sofrimento faz parte de um patrimônio imaterial que resiste há séculos, de acordo com as autoras Danielle Gomes do Nascimento e Maria Ignez Novais Ayala.

Desse modo, o desaparecimento gradual dessas pessoas revela também uma transformação profunda nas relações sociais. Muitos jovens já não aprendem as rezas, não conhecem as ervas medicinais e sequer conhecem mulheres que exerçam esse papel.

Esse processo de esquecimento não está relacionado apenas às transformações religiosas ou ao avanço da ciência, mas também à desvalorização de práticas culturais que, durante séculos, constituíram importantes formas de cuidado, acolhimento e transmissão de saberes. Soma-se a isso o desconhecimento sobre a importância histórica dessas práticas e, por vezes, a falta de reconhecimento das mulheres que dedicaram suas vidas ao cuidado da comunidade. Ou seja, mais do que o desaparecimento de um ofício, observa-se o enfraquecimento de um patrimônio cultural construído ao longo do tempo, cuja preservação depende do respeito à memória, à diversidade de saberes e às experiências compartilhadas pelos diferentes grupos sociais.

Ademais, embora muitas vezes tratadas como se fossem a mesma coisa, rezadeiras e benzedeiras possuem diferenças sutis. Conforme a pesquisada Alaíze dos Santos Conceição, no seu artigo Notas sobre religiosidades populares no Recôncavo, as rezadeiras estão mais ligadas às orações e pedidos de proteção espiritual. Já as benzedeiras, além das rezas, costumam utilizar ervas, ramos, gestos e sinais da cruz em seus rituais de cura. Em comum, ambas carregam um conhecimento transmitido entre gerações, resultado da mistura entre tradições indígenas, africanas e portuguesas que ajudaram a formar a cultura brasileira.

Mulheres que se apoiam na fé: na própria fé e no poder do acolhimento. Recebem em suas casas, sem cobrar nada, aqueles que chegam carregando dores, medos e esperanças como as guardiãs da fé de todos. Para elas, cada pessoa atendida é acolhida com carinho e respeito, como alguém da própria família. Suas mãos, acompanhadas por orações sussurradas, buscam sempre o bem-estar de quem as procura. Dona Maria e Dona Maria Matias são exemplos dessas mulheres, cujo acolhimento se revela não apenas em suas palavras e gestos, mas também na serenidade de seus olhares.

Dona Maria Matias, 82 anos, benzedeira do bairro Monte Castelo, em Parnamirim (RN)
Dona Maria Matias, 82 anos, benzedeira do bairro Monte Castelo, em Parnamirim (RN) | Crédito: Rafaela Maria

No entanto, muitas das práticas que fazem parte desse ofício ainda passam despercebidas e raramente são reconhecidas como patrimônio cultural ou como formas legítimas de conhecimento ancestral. Entre elas estão o acolhimento de pessoas em momentos de sofrimento físico e emocional, a escuta atenta, os conselhos oferecidos a partir da experiência, as visitas a vizinhos, familiares e enfermos e, sobretudo, o cultivo e o conhecimento das plantas medicinais mantidos nos quintais e transmitidos entre gerações.

Como afirmam as pesquisadoras Nascimento e Ayala, caminhar pelos caminhos da cultura popular significa reconhecer a riqueza de conhecimentos preservados pelas pessoas mais velhas ao longo das gerações. Em acordo com as autoras, as rezadeiras e benzedeiras carregam muito mais do que orações e rituais: guardam memórias, experiências e formas de cuidado construídas ao longo de gerações. São mulheres que mantêm viva uma relação profunda com a escuta, com a fé, com a natureza e com o acolhimento comunitário.

Na perda de uma delas, perde-se mais do que uma prática tradicional. Perde-se uma parte da memória cultural brasileira e uma fonte viva de conhecimentos ancestrais. Portanto, preservar esses saberes é preservar a memória popular brasileira. É reconhecer que a cura também pode nascer da fé, da escuta, do cuidado e da ancestralidade.

Para saber mais

ALMEIDA, Graciela Souza; PEROVANO FILHO, Natalino. Identidades étnicas e etnociências nas práticas de rezadeiras. ODEERE: Revista Internacional de Relações Étnicas, v. 6, n. 2, 2021. DOI: https://doi.org/10.22481/odeere.v6i2.9750

CONCEIÇÃO, A. S. Notas sobre religiosidades populares no Recôncavo. Revista Discente Ofícios de Clio, v. 2, n. 2, p. 99, 11 jun. 2018. DOI: https://doi.org/10.15210/clio.v2i2.12918

DO NASCIMENTO, Danielle Gomes; AYALA, Maria Ignez Novais. As práticas orais das rezadeiras: um patrimônio imaterial presente na vida dos itabaianenses. Nau Literária, v. 9, n. 2, 2013. DOI: https://doi.org/10.22456/1981-4526.43698

*Jenifer Alexandre é mestre em Biodiversidade e formada em bacharelado e licenciatura em ciências biológicas pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

**A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Carolina Ferreira

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