Por Jenifer Alexandre*
Durante séculos, quase toda cidade brasileira conheceu ao menos uma mulher capaz de unir fé, cuidado e conhecimento ancestral. Eram elas, as rezadeiras e benzedeiras: referências de cuidado, espiritualidade e solidariedade. Hoje, porém, a presença dessas mulheres se torna cada vez mais rara.
Muitas envelheceram sem conseguir transmitir seus saberes às novas gerações. Outras foram silenciadas pelo preconceito religioso, pela urbanização acelerada e pela ideia de que apenas o conhecimento científico possui valor. Aos poucos, aquilo que antes fazia parte do cotidiano popular corre o risco de sobreviver apenas na memória dos mais velhos.
Falar sobre rezadeiras e benzedeiras é também falar sobre etnociência: o reconhecimento dos conhecimentos produzidos pelos povos por meio da experiência, da oralidade e da convivência com a natureza, conforme o estudo Identidades étnicas e etnociências nas práticas de rezadeiras, de Graciela Souza Almeida e Natalino Perovano Filho.
Mesmo com as particularidades que distinguem o saber acadêmico e o saber popular, é impossível negar a riqueza existente nesses conhecimentos tradicionais, pois, durante muito tempo, diferentes pessoas e comunidades guardaram práticas de cuidado desenvolvidas a partir da observação das plantas medicinais, das crenças espirituais e coletividade.
No entanto, reconhecer a importância delas não significa negar a ciência ou substituir tratamentos médicos. Pelo contrário, significa compreender que diferentes formas de conhecimento podem coexistir e dialogar. A medicina popular e os saberes tradicionais fazem parte da formação histórica e cultural do Brasil. Ignorar isso é apagar parte da identidade do próprio povo brasileiro. Embora essas práticas sejam frequentemente associadas às mulheres, também existem homens que exercem esse ofício e participam da preservação desses saberes tradicionais.
Contudo, destaca-se a atuação feminina devido à sua expressiva presença histórica e cultural nesse contexto. Essas mulheres representam muito mais do que práticas religiosas. Elas preservam uma memória coletiva construída por meio da oralidade. Cada reza aprendida com a mãe ou com a avó, cada planta colhida no quintal, cada orientação dada a quem chega em sofrimento faz parte de um patrimônio imaterial que resiste há séculos, de acordo com as autoras Danielle Gomes do Nascimento e Maria Ignez Novais Ayala.
Desse modo, o desaparecimento gradual dessas pessoas revela também uma transformação profunda nas relações sociais. Muitos jovens já não aprendem as rezas, não conhecem as ervas medicinais e sequer conhecem mulheres que exerçam esse papel.
Esse processo de esquecimento não está relacionado apenas às transformações religiosas ou ao avanço da ciência, mas também à desvalorização de práticas culturais que, durante séculos, constituíram importantes formas de cuidado, acolhimento e transmissão de saberes. Soma-se a isso o desconhecimento sobre a importância histórica dessas práticas e, por vezes, a falta de reconhecimento das mulheres que dedicaram suas vidas ao cuidado da comunidade. Ou seja, mais do que o desaparecimento de um ofício, observa-se o enfraquecimento de um patrimônio cultural construído ao longo do tempo, cuja preservação depende do respeito à memória, à diversidade de saberes e às experiências compartilhadas pelos diferentes grupos sociais.
Ademais, embora muitas vezes tratadas como se fossem a mesma coisa, rezadeiras e benzedeiras possuem diferenças sutis. Conforme a pesquisada Alaíze dos Santos Conceição, no seu artigo Notas sobre religiosidades populares no Recôncavo, as rezadeiras estão mais ligadas às orações e pedidos de proteção espiritual. Já as benzedeiras, além das rezas, costumam utilizar ervas, ramos, gestos e sinais da cruz em seus rituais de cura. Em comum, ambas carregam um conhecimento transmitido entre gerações, resultado da mistura entre tradições indígenas, africanas e portuguesas que ajudaram a formar a cultura brasileira.
Mulheres que se apoiam na fé: na própria fé e no poder do acolhimento. Recebem em suas casas, sem cobrar nada, aqueles que chegam carregando dores, medos e esperanças como as guardiãs da fé de todos. Para elas, cada pessoa atendida é acolhida com carinho e respeito, como alguém da própria família. Suas mãos, acompanhadas por orações sussurradas, buscam sempre o bem-estar de quem as procura. Dona Maria e Dona Maria Matias são exemplos dessas mulheres, cujo acolhimento se revela não apenas em suas palavras e gestos, mas também na serenidade de seus olhares.

No entanto, muitas das práticas que fazem parte desse ofício ainda passam despercebidas e raramente são reconhecidas como patrimônio cultural ou como formas legítimas de conhecimento ancestral. Entre elas estão o acolhimento de pessoas em momentos de sofrimento físico e emocional, a escuta atenta, os conselhos oferecidos a partir da experiência, as visitas a vizinhos, familiares e enfermos e, sobretudo, o cultivo e o conhecimento das plantas medicinais mantidos nos quintais e transmitidos entre gerações.
Como afirmam as pesquisadoras Nascimento e Ayala, caminhar pelos caminhos da cultura popular significa reconhecer a riqueza de conhecimentos preservados pelas pessoas mais velhas ao longo das gerações. Em acordo com as autoras, as rezadeiras e benzedeiras carregam muito mais do que orações e rituais: guardam memórias, experiências e formas de cuidado construídas ao longo de gerações. São mulheres que mantêm viva uma relação profunda com a escuta, com a fé, com a natureza e com o acolhimento comunitário.
Na perda de uma delas, perde-se mais do que uma prática tradicional. Perde-se uma parte da memória cultural brasileira e uma fonte viva de conhecimentos ancestrais. Portanto, preservar esses saberes é preservar a memória popular brasileira. É reconhecer que a cura também pode nascer da fé, da escuta, do cuidado e da ancestralidade.
Para saber mais
ALMEIDA, Graciela Souza; PEROVANO FILHO, Natalino. Identidades étnicas e etnociências nas práticas de rezadeiras. ODEERE: Revista Internacional de Relações Étnicas, v. 6, n. 2, 2021. DOI: https://doi.org/10.22481/odeere.v6i2.9750
CONCEIÇÃO, A. S. Notas sobre religiosidades populares no Recôncavo. Revista Discente Ofícios de Clio, v. 2, n. 2, p. 99, 11 jun. 2018. DOI: https://doi.org/10.15210/clio.v2i2.12918
DO NASCIMENTO, Danielle Gomes; AYALA, Maria Ignez Novais. As práticas orais das rezadeiras: um patrimônio imaterial presente na vida dos itabaianenses. Nau Literária, v. 9, n. 2, 2013. DOI: https://doi.org/10.22456/1981-4526.43698
*Jenifer Alexandre é mestre em Biodiversidade e formada em bacharelado e licenciatura em ciências biológicas pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
**A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

