Inteligência Coletiva do Sul

A Coluna Inteligência Coletiva do Sul sistematiza reflexões e experiências que movimentos populares, governos socialistas e intelectuais orgânicos do Sul Global desenvolvem em torno de novas qualidades das forças produtivas na dimensão digital, em perspectiva soberana e emancipatória. Coluna editada por Tica Moreno.

As infraestruturas da inteligência artificial: poder corporativo e polarização global

No audio source provided.
A expansão acelerada da Inteligência Artificial no mundo do trabalho
A expansão acelerada da Inteligência Artificial no mundo do trabalho | Crédito: Freepik/Imagem ilustrativa

Os cabos de fibra óptica são a evidência mais tangível da materialidade da internet e da IA.

Por Cristobal Reyes

Quando interagimos com um sistema de inteligência artificial (IA), costumamos imaginar processos etéreos que ocorrem na “nuvem”. No entanto, como argumentam os estudos críticos sobre a IA, esse tipo de metáfora é desorientador, pois contribui para ocultar que a IA é uma infraestrutura material de escala planetária. Seu desenvolvimento e implementação dependem de vastas infraestruturas implantadas em todo o mundo, cuja propriedade e controle estão cada vez mais concentrados no grande capital transnacional.

Este artigo argumenta que, nas condições atuais de controle corporativo sobre as infraestruturas, a IA reproduz e aprofunda as desigualdades globais. Através da análise de duas infraestruturas físicas fundamentais para o seu funcionamento — os cabos submarinos de fibra ótica e os centros de dados na “nuvem” — mostra-se como a topologia material da IA replica padrões históricos de dominação, amplia as assimetrias e gera novas formas de dependência tecnológica

Os cabos submarinos de fibra óptica

Para seu funcionamento adequado, os sistemas de IA exigem que a circulação de dados seja muito acelerada. Quando uma pessoa interage com um sistema de IA — por exemplo, quando solicita à Amazon Alexa que acenda a luz de um cômodo —, a informação deve ser transmitida do dispositivo para um centro de dados a centenas ou milhares de quilômetros de distância, processada com algoritmos especializados e devolvida ao dispositivo onde o comando é executado. A necessidade de reduzir o tempo de circulação dos dados é ainda mais crítica em outras aplicações de IA, como veículos autônomos ou maquinário industrial. 

Atualmente, a maioria das pessoas usa a internet por meio de conexões Wi-Fi e dados móveis. Isso pode gerar a ideia de que os dados circulam principalmente pelo ar. No entanto, a realidade é muito diferente: quando usamos um celular, as informações são transmitidas apenas de forma sem fio do dispositivo para a torre de celular mais próxima. A partir daí, os dados circulam por cabos de fibra óptica, que transportam as informações entre países e continentes por terra e pelas profundezas do oceano. A seguir, nos referiremos aos cabos submarinos de fibra óptica. 

Os cabos de fibra óptica são a evidência mais tangível da materialidade da internet e da IA. Esses cabos são como uma gigantesca rede que envolve o planeta. No final de 2025, havia mais de 600 cabos submarinos ativos e planejados. Os cabos em serviço atingiam uma extensão de 1,48 milhões de quilômetros — ou seja, poderiam dar a volta na circunferência equatorial da Terra aproximadamente 37 vezes. 

Rede global de cabos submarinos de fibra óptica

Fonte: Mapa de cabos submarinos (https://www.submarinecablemap.com/). Reproduzido sob licença Creative Commons Atribuição-CompartilhamentoIgual 4.0 Internacional (CC BY-SA 4.0). 

Esses cabos — cuja espessura varia entre uma mangueira de jardim e um antebraço — funcionam como as artérias da internet, por onde circula a maior parte dos dados. Sua importância é enorme: 99% do tráfego intercontinental da internet circula por esses cabos submarinos. Embora nas últimas décadas tenham sido inventadas novas tecnologias de comunicação via satélite, os cabos continuam sendo a forma mais rápida, barata e confiável de transmitir informações a longas distâncias.

Sua estrutura é extremamente complexa. Em seu núcleo, há feixes de fibra óptica — feitos de fios de vidro mais finos que um fio de cabelo humano —, revestidos por várias camadas de materiais de isolamento e proteção para garantir seu funcionamento ininterrupto, mesmo nas condições inóspitas do fundo do mar. 

Os cabos transmitem informações codificadas como pulsos de luz infravermelha que viajam através das fibras de vidro a velocidades próximas à da luz no vácuo. Essa infraestrutura permite que os dados percorram milhares de quilômetros em milissegundos: nos cabos mais novos, os dados podem viajar de Nova York a Londres em 33 milissegundos. Para colocar essa velocidade em perspectiva, um piscar de olhos humano dura aproximadamente 150 milissegundos, o que significa que, enquanto uma pessoa pisca uma vez, um pacote de dados pode cruzar o Oceano Atlântico entre quatro e cinco vezes. Essa velocidade é fundamental para o funcionamento adequado dos sistemas de IA. 

Os cabos submarinos de fibra óptica que transportam os dados da internet são herdeiros dos cabos telegráficos do século 19, originalmente instalados para comunicar os grandes centros econômicos transatlânticos e permitir que os impérios europeus controlassem suas colônias. Além disso, esses novos cabos costumam seguir as mesmas rotas que historicamente foram controladas pelas potências imperiais para a extração de riquezas e o exercício do poder sobre regiões subordinadas, reproduzindo os padrões coloniais e imperialistas de dominação. 

Nos primeiros anos da internet, os cabos submarinos foram instalados e operados principalmente por empresas nacionais de telecomunicações. A distribuição dessa rede era muito concentrada em termos geográficos: quase todos os cabos convergiam para alguns pontos de ancoragem localizados principalmente nos Estados Unidos e no Reino Unido. No entanto, sua propriedade era relativamente diversificada entre vários operadores. 

Essa configuração da rede começou a mudar em meados da década de 2010, quando os gigantes da tecnologia ampliaram seu controle sobre essas infraestruturas. Atualmente, empresas como Alphabet, Meta, Amazon e Microsoft realizam grandes investimentos para instalar e operar seus próprios cabos submarinos, que conectam seus centros de dados em diferentes países. Desde 2018, essas corporações já possuíam ou alugavam mais da metade da largura de banda dos cabos submarinos em todo o mundo. Em novembro de 2025, a Alphabet — empresa controladora do Google — era proprietária ou investidora de 34 cabos submarinos; a Meta — controladora do Facebook e do Instagram —, de 20; a Amazon, de 8; e a Microsoft, de 8. 

Essa mudança na topologia da rede de cabos de fibra óptica representa um paradoxo interessante: enquanto a distribuição espacial dos cabos se torna mais dispersa e mais áreas do planeta podem se conectar à internet, sua propriedade se concentra cada vez mais em algumas poucas corporações gigantes. Esse movimento faz parte de uma estratégia mais ampla das empresas de tecnologia para controlar as infraestruturas críticas da digitalização na era da IA e evidencia uma tendência marcante para a centralização do poder infraestrutural nas mãos do grande capital tecnológico. 

Os centros de dados 

Os centros de dados constituem a infraestrutura fundamental da economia digital e, particularmente, da IA contemporânea. Ao contrário do que sugere a metáfora etérea da “nuvem”, trata-se de enormes edifícios — equivalentes em tamanho a vários estádios de futebol — com centenas de milhares de computadores interconectados, nos quais são armazenados e processados volumes massivos de dados. Para treinar e implantar sistemas de IA em grande escala, os centros de dados devem contar com milhares de chips especializados interconectados, capazes de processar informações em paralelo. Os mais usados desses chips especializados são as unidades de processamento gráfico (GPUs), projetadas pela empresa americana Nvidia. Seguindo a metáfora de Andrew Ng, diretor do laboratório de IA em Stanford, se a IA é a “nova eletricidade”, os centros de dados seriam as usinas elétricas onde essa energia é gerada.

Os centros de dados implicam uma centralização sem precedentes das capacidades computacionais: em vez de as empresas ou os governos realizarem o processamento e o armazenamento nos seus dispositivos locais, subcontratam esses serviços às empresas que controlam os centros de dados. Esta concentração permite aos gigantes tecnológicos oferecer a IA como um serviço padronizado, tornando o controle sobre esta infraestrutura um elemento-chave de poder na economia digital.

Em dois estudos recentes, Lehdonvirta, Wú e Hawkins (2024 e 2025) documentaram a distribuição desigual das infraestruturas de computação em nuvem a nível global. Em 2023, apenas 39 países contavam com pelo menos uma região de centros de dados em nuvem e, desses, apenas 30 têm regiões com centros de dados equipados com GPUs capazes de processar IA. Na maioria dos países do mundo, não há nenhuma região de centros de dados em nuvem. 

Mesmo nas infraestruturas localizadas nesses 30 países, existe uma polarização funcional acentuada. Os modelos de GPU mais avançados (A100 e H100 da Nvidia), necessários para treinar novos sistemas de IA, estão presentes apenas em 15 países, além dos Estados Unidos e da China. Outros 13 países contam com GPUs menos potentes (como o modelo V100), adequadas para implementar sistemas de IA existentes, mas insuficientes para desenvolver novos modelos. Essa distribuição desigual revela uma hierarquia mundial na capacidade de computação, na qual há três estratos claramente distinguíveis (em cuja caracterização os autores citados retomam a metáfora sobre o Norte e o Sul globais): 

  • O “Norte computacional”: países com infraestruturas adequadas tanto para implementar como para desenvolver novos sistemas de IA.
  • O “Sul computacional”: países com capacidade para implantar os sistemas de IA existentes, mas sem infraestruturas adequadas para desenvolver novos modelos.
  • O “deserto computacional”: a maioria dos países, sem nenhuma região de computação em nuvem equipada com GPUs.

Se a distribuição geográfica dos centros de dados é extremamente desigual, a concentração é ainda mais extrema em termos de propriedade. O mercado mundial de computação em nuvem está concentrado em um punhado de corporações: Amazon Web Services, Microsoft Azure, Google Cloud, Alibaba Cloud, Oracle, Salesforce, IBM, Huawei e Tencent Cloud. Dessas nove empresas, seis têm sede nos Estados Unidos e três na China. As três maiores empresas americanas — Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud — concentram mais de 60% do mercado mundial, enquanto as empresas chinesas – Alibaba Cloud, Tencent Cloud e Huawei — controlam aproximadamente um terço do mercado. 

No caso dos centros de dados, a topologia da internet é ainda mais concentrada do que nos cabos submarinos de fibra óptica. Sua configuração evidencia que a produção de IA se concentra em duas grandes potências rivais — Estados Unidos e China —, cujas corporações disputam o controle da infraestrutura crítica para seu desenvolvimento e implementação. Além disso, mostra uma concentração extraordinária do poder de computação em um punhado de corporações tecnológicas, principalmente americanas. 

Considerações finais 

Ao contrário do sonho tecnolibertário da década de 1990, a internet não é uma rede rizomática e distribuída de servidores auto-organizados, mas uma infraestrutura hipercentralizada e hierárquica cujos nós críticos são propriedade das maiores corporações da história. 

As implicações dessa configuração da rede são numerosas e merecem uma ampla discussão — algo que, infelizmente, não podemos fazer aqui. Uma questão relevante é que, na era da IA, as infraestruturas se tornaram cada vez mais fontes de poder econômico e político. Os sujeitos que as controlam — as corporações transnacionais e os Estados onde estão sediadas — podem utilizá-las como armas e ferramentas de negociação geopolítica. 

As implicações para os países do chamado Sul Global também são relevantes. Ao contrário do que afirmam instituições como a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), nas condições atuais, a IA não levará à superação das “armadilhas do desenvolvimento”. Dada a configuração polarizada e hierárquica das infraestruturas necessárias para o seu funcionamento, a sua adoção subordinada por parte dos países periféricos tenderá a reproduzir os padrões históricos de desigualdade global que caracterizaram o capitalismo. Mais ainda, trará consigo novas formas de dependência e subordinação mediadas pelas infraestruturas controladas pelo grande capital transnacional, aprofundando as assimetrias no sistema mundial.

*Cristobal Reyes é  economista e latino-americanista. Professor nas Faculdades de Filosofia e Letras (FFyL) e de Ciências Políticas e Sociais (FCPyS) da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). 

Esse artigo foi originalmente publicado em América Latina em Movimento, número 559, disponível em: https://www.alai.info/america-latina-em-movimento-numero-559/

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Luís Indriunas

|

Newsletter