As muitas viagens espaciais — seis tripuladas para a Lua, e outras que saíram até de nosso sistema solar e percorrem o espaço ilimitado do universo — não criaram, no geral da humanidade e muito menos nos dirigentes dos povos, a nova consciência planetária que daí se deriva. Vivemos ainda no regime dos estados-nações, cada um com seus limites, definidos pelo Tratado de Westfália de 1648. A covid-19 não respeitou os limites das nações. Afetou a todos. Disso ainda não se tiraram as devidas consequências. O modo de vida predador e consumista voltou com ainda mais furor. Não se ouviu as lições que a Mãe Terra nos deu.
Acresce ainda o fato de que termos guerras por territórios , nos nossos dias, (Ucrânia, Faixa de Gaza, Groelândia e outros). Vista da perspectiva dos astronautas, como um dos quatro da nave espacial Artemis 2 bem observou: ”daqui de cima somos um só povo”. Essa afirmação torna estas disputas ridículas. São sustentadas pelos cruéis e genocidas como Netanyahu e Trump que ainda não descobriram que somos uma só espécie humana e a Terra, nossa única Casa Comum na qual cabem judeus e palestinos e outros.
Inesquecíveis são as palavras de Neil Amstrong, o primeiro a pisar na Lua em 20 de julho de 1969: “É um pequeno passo para um homem, um grande salto para a Humanidade”. E continuava:” De repente notei que aquela pequena e bela ervilha azul era a Terra… Com meu dedão cobri totalmente a Terra”.
Demos mais alguns testemunhos de astronautas, reunidos no livro de Frank White, The Overview Effect — tenho um exemplar autografado por ele. Do astronauta Russel Scheweickhart: “A Terra vista a partir de fora, você percebe que tudo o que lhe é significativo, toda a história, a arte, o nascimento, a morte, o amor, a alegria e as lágrimas, tudo isso está naquele pequeno ponto azul e branco que você pode cobrir com seu polegar. E a partir daquela perspectiva se entende que tudo em nós mudou, que começa a existir algo novo, que a relação não é mais a mesma como fora antes.”
Do astronauta Gene Cernan: “Eu fui o último homem a pisar na Lua em dezembro de 1972. Da superfície lunar olhava com temor reverencial para a Terra num transfundo de azul muito escuro. O que eu via era demasiadamente belo para ser compreendido, demasiadamente lógico, cheio de propósito para ser fruto de um mero acidente cósmico. A gente se sentia, interiormente, obrigado a louvar a Deus. Deus deve existir por ter criado aquilo que eu tinha o privilégio de contemplar.”
Sigmund Jähn:“Já são ultrapassadas as fronteiras políticas. Ultrapassadas também as fronteiras das nações. Somos um único povo e cada um é responsável pela manutenção do frágil equilíbrio da Terra. Somos seus guardiães e devemos cuidar do futuro comum.”
Essas visões que parecem evidentes nunca foram tomadas a sério pela geopolítica e pelos chefes de Estado. Mesmo sem ter visto a Terra de fora da Terra (nunca saiu de sua cidade Königsberg), Immanuel Kant (1724-1804) em sua última obra A Paz Perpétua enfatizou que a Terra pertence à inteira Humanidade e constitui um bem comum de todos. Então não há porquê lutarmos por terras, se tudo é nosso. Podemos viver numa paz perpétua.
Mas quem, no nosso tempo, se deu conta da mudança de consciência a partir do fato de vermos a Terra de fora da Terra, foi o prolífico escritor russo, autor de centenas de livros de teor científico mas populares, Isaac Asimov. Por ocasião dos 25 anos da primeira viagem espacial pelo Sputnik em 4 de outubro de 1957, inaugurando a Era Espacial, foi convidado pela Revista New York Times para escrever um artigo sobre o legado destes 25 anos. Escreveu um pequeno artigo com o título O legado do Sputnik: o Globalismo.
Sigo alguns tópicos, pois são atuais,embora desconsiderados.
“A primeira palavra a dizer é globalismo. Mesmo contra a vontade”, afirma Asimov, “há de se considerar a Terra e a Humanidade como uma única entidade (single Entity)”.”Os satélites”, continua ele,”mostram esse ser único (unit), quer o aceitemos ou não. Pela primeira vez na história podemos identificar os furacões, os distúrbios climáticos, do começo a fim”. Os meios de comunicação nos ligam globalmente uns aos outros, comprovando o globalismo (nós diríamos globalização). Esse é o lado material.
Mas há o lado psicológico: ”a visão da Terra como um todo, a esfera planetária, nos obriga a senti-la como pequena e frágil. É arbitrária a divisão de sua superfície em porções (nações), consideradas sagradas, preservá-las a todo custo mesmo que implique a destruição do planeta”. Importa ver o todo, o Planeta.
Por fim há o lado das potencialidades. A Era Espacial abriu o espaço para novas viagens e a descoberta de como são compostos os planetas e como funcionam. “Tudo isso será impossível sem uma cooperação global. O desenvolvimento do espaço é o projeto da humanidade como um todo e nisso se mostrará o valor do globalismo”.
No entanto, devemos fazer uma escolha entre o local e o global. “O localismo (as nações tomadas em si) pode acelerar nossa deriva para uma eventual destruição inclusive da humanidade. O globalismo nos oferece a esperança de uma civilização maior, mais vasta e melhor, com mais versatilidade e flexibilidade, libertando-nos do aprisionamento do local”. Se considerarmos as alternativas — localismo como morte versus globalismo — como vida, seguramente vamos escolher a vida. Esse é o legado da Era do Espaço”.
Hoje estamos vivendo o contrário de tudo o que se expressou acima. Predomina a afirmação da nação (nacionalismo) opondo-se a outra nação, com a ideologia do fascismo, geralmente acompanhando esse movimento, a nível nacional e mundial. Ao invés de aprofundarmos a globalização (para além de sua redução ao econômico) como um nova fase da Terra e da Humanidade (todos estamos voltando da grande dispersão) e encontrando-nos num mesmo lugar, no planeta Terra, regredimos a um passado de divisões, oposições e guerras no afã de conquistar territórios.
Mas creio que o que é verdadeiro tem força e acaba se impondo. Ele superará a regressão nacionalista/fascista e reforçará o novo rumo da Terra e da Humanidade como uma única e grande complexa realidade, nossa Casa Comum.
*Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor e escreve para a revista LIBERTA; A nova visão do universo: de onde viemos? Animus-Anima, Petrópolis 2025;
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

