Nesta semana vamos a mais um comentário relacionando a insensatez de Trump e daqueles que o apoiam, à crise global que aqueles conluios tornaram inevitável. Afinal, as implicações desta guerra sobre a vida e a espiritualidade desta e das próximas gerações, já não podem ser evitadas e jamais deverão ser perdoadas.
Por isso, é necessário que encaremos com seriedade o que está por vir, identificando e destronando de postos chaves aqueles cúmplices locais dos males que teremos que enfrentar. Não se trata de punitivismo, mas sim de educação coletiva para minimização dos espaços ocupados por oportunistas vendilhões da pátria, nas conciliações que precisaremos construir entre nós, povos e governos, a partir de agora.
No fundo, tudo se resume àquela noção de respeito que sabemos ser essencial para sustentação de todo tipo de acordo. Na família, como nas nações, o deboche, a repetição das mentiras e o descaramento da quebra de confiança, em algum momento acabam extrapolando os limites do que poderia ser aceitável. Quanto mais cedo identificarmos a fonte daquelas atitudes e isolarmos os doentes que as utilizam em benefício próprio, contra o coletivo, melhor para todos.
E isso sempre acaba impondo revisões, tanto para nosso quadro de valores como para o que entendemos como possibilidades de negociação. Simples assim: quando não resta oportunidade de recuo e todos avançam, o jogo acaba e todos perdem.
Na vida, quando nos ofendem de forma repetida, e aquelas atitudes revelam que ali existe um método, um padrão, a raiva que brota em nós anula as perspectivas de diálogo, não é mesmo? Conhecemos bem isso, desde criança. Existem limites a partir dos quais as possibilidades de paz deixam de existir.
É o caso das negociações pretendidas por Trump, com apoio da Otan, em relação às reações do Irã ao que ele e Benjamin Netanyahu já fizeram. Eles impuseram uma condição de desespero tal aos iranianos que, na forma daquele ditado gaúcho, pessoas que antes teriam dado um boi para não entrar na guerra agora, entregarão a boiada e a vida, para não sair dela.
Nesta perspectiva, depois de Trump jogar mísseis sobre o Irã, durante as negociações de paz, por três vezes, resta crer que o mundo vivenciará as consequências daquilo que a Casa Branca insiste em chamar de intransigência iraniana.
Particularmente, entendo que o novo aiatolá, depois de experimentar a morte do pai, da esposa, da filha bebê, e diante da extensão daquela dor a todo seu povo, faça de tudo para estender o que sente, em relação a Israel e aos norte-americanos, para todos os povos do mundo.
Disso resultarão as greves de caminhoneiros, a carestia, a fome, as ondas de saque, as quedas de governos e o empoderamento de milícias e grupos mafiosos que acabarão estabelecendo uma nova realidade, para todos. Nos países onde houve alguma ação preventiva, com ampliação nos estoques de petróleo e aceleração nos processos de conversão das matrizes energéticas (caso da China), ou onde a sorte garantiu reservas “naturais” (caso da Rússia), os choques serão menos dramáticos e mais retardados. Mas em países como o Brasil, que se desfizeram da capacidade de controle dos danos pela imprevidência criminosa de governos ao estilo Temer e Bolsonaro, ou em países com azar de disporem de estoques, mas sem força para impedir o saque, como a Venezuela, ou mesmo em países sem capacidade de manter as máquinas operando, como a maioria, veremos acontecer o pior.
E o pior já está desenhado. Ele virá mesmo que agora Trump seja deposto e os EUA se retirem daquela guerra. A destruição de refinarias no Oriente Médio, ainda que os petroleiros voltem a circular pelo estreito de Ormuz, já são suficientes para determinar que faltará combustível ao longo dos próximos dez anos. No último choque do petróleo, quando a disponibilidade de combustível caiu 7%, os preços se multiplicaram por dez. Caminhões, aviões, tratores, barcos de pesca, tudo que se faz indispensável para a produção e circulação de alimentos, remédios e pessoas, foi e será novamente afetado. E desta vez a queda na oferta de petróleo está sendo da ordem de 20 a 30%. E isso, mesmo que a guerra acabe, tende a se manter em algum nível até que aquelas refinarias possam ser reconstruídas, e voltem a operar. Até lá, o mundo vai reviver tudo aquilo que assusta, na insegurança da escuridão noturna.
No oriente será ainda pior, se o Irã destruir (coisa que ainda não se propôs a fazer) aquelas usinas de dessalinização da água do mar, que hoje garantem água potável para os grandes centros urbanos de todos aqueles países.
E para piorar, alguns comentaristas afirmam que o fim desta guerra já exige o uso de armas nucleares. Isso porque com a chuva de mísseis e drones se estendendo no tempo será inevitável a insolvência de nações e o caos, com agravamento de todos os dramas que se associam ao aquecimento global.
E parece que o uso de armas nucleares, por parte de Israel ou do governo norte-americano (que na pior das hipóteses pode levar ao risco de uma guerra global com extermínio da vida) tende a acontecer. E isso, mesmo na melhor das hipóteses, garante perspectivas assustadoras para boa parte do planeta.
Analistas dizem que a poeira radioativa de bombas nucleares jogadas sobre o Irã contaminará a Índia, e que partículas tóxicas poderão circular o planeta. Aqueles poemas sobre a areia do Saara, que cobre os telhados e os automóveis de Roma, e que também alcança as árvores da floresta amazônica, bem como o que sabemos sobre a importância dos rios aéreos vindos de lá que irrigam o sul da América Latina, ilustram isso.
Como negociar com os EUA, diante de lideranças que se apressam a dobrar os joelhos anunciando seu desejo de vassalagem em relação àquele país? Este é o segundo aspecto de nossa preparação para o futuro.
Ainda na leitura do que aquele grupo, em seu todo e sob liderança do modelo trumpista está definindo para nós, vale lembrar mais uma dimensão. O domínio dos valores do ocidente, com seus hábitos, crenças, normas legais e religiões tende a ser substituído por algo que ainda não sabemos o que poderá vir a ser. No mínimo os parâmetros do “mundo branco” se reduzirão a valores compartilhados por seitas minoritárias, em um mundo onde aquela globalização pautada pelas regras da OMC deixarão de existir e a sociedade do consumo será modificada de cima até a base. Quem vive de dividendos, de salário ou até mesmo da coleta de peixes, será afetado.
Portanto, ao que parece o futuro que se desenha exigirá a recuperação de práticas e saberes de aplicação local, envolvendo famílias, grupos e associações regionais que abandonamos com o avanço da transformação de tudo em mercadorias.
E parece que quanto mais cedo nos conscientizarmos disso, mais rapidamente nos prepararemos para os novos tempos. A confiança é um cálculo, não uma emoção. Ela exige que entendamos que o mal feito a alguns abre caminho para que se estenda a todos. Por exemplo, precisamos ver e entender o que se passa em Gaza, no Líbano e em Cuba, e reagir a isso, antes que seja tarde
É evidente que não há o que possamos fazer, em relação à guerra. Mas haverá muito sob nossa responsabilidade e capacidade de ação, no futuro próximo, seja qual for o desfecho da aventura trumpista.
De um lado, precisaremos evitar o crescimento de espaços ocupados por líderes e políticos desqualificados como estes que nos colocaram na atual situação. Votar contra eles, e ajudar no voto dos desinformados. Uma opção de trabalho, neste rumo, seria a multiplicação de cartazes e folhetos desmascarando os candidatos aos governos e a postos no senado, na câmara federal e nas assembleias legislativas. Mostrar ao povo o nome, o rosto e a posição dos golpistas e seus partidos políticos, em relação à entrega de bens patrimoniais brasileiros, em favor do fatiamento da Petrobras, das privatizações em geral e contra medidas e leis de interesse popular. Como se relacionam com o Banco Master, como votaram em leis que destruíram a proteção ambiental, em favor do avanço do uso de agrotóxicos, da cloroquina e da ocupação do Brasil pelos aventureiros ligados à aventura trumpista.
De outro lado, há o que podemos aprender com quem estuda e pratica as possibilidades de um mundo diferente, que com certeza virá.
Nesta dimensão, existem oportunidades para entender caminhos para lidar com a terra, com a alimentação, com as relações e os acordos que podemos estabelecer, entre os nossos, diretamente, e entre os que nos representam, nas futuras relações internacionais.
Para quem mora em Porto Alegre, tenho três sugestões que com certeza terão seus paralelos para as pessoas que vivem em outros locais. Aqui, as recomendações são:
1 – Dia 20 de março, participe da 23ª Festa da colheita do Arroz Agroecológico. Em Nova Santa Rita, dia inteiro. Com a guerra faltarão fertilizantes e agrotóxicos. Isto ampliará o custo das lavouras tradicionais, a especulação e a inflação no preço dos alimentos. Para enfrentar o que virá, precisamos estimular formas alternativas, amistosas em relação à natureza e compatíveis com a necessidade de desenvolvimento e soberania alimentar. A agroecologia é a solução.
2 – A produção familiar de alimentos de qualidade superior exige o fortalecimento de canais de escoamento que liguem os agricultores a consumidores, em acordos de reciprocidade positiva. A história da Feira de Agricultores Ecologistas de Porto Alegre (FAE), contada através do Mãos à Terra, poderá ser assistida neste sábado (21 de março) , a partir das 18:30 horas, na Cinemateca Capitólio, em parceria com a AAMICCA – Associação de Amigos da Cinemateca Capitólio (R. Demétrio Ribeiro, 1085 – Porto Alegre – Entrada gratuita)
3 – A questão de fundo, que envolve as ameaças à vida no planeta e que exige um novo horizonte para os processos de desenvolvimento humano será discutida na 1ª Conferência Internacional Antifascista. Comentamos isso rapidamente na coluna da semana anterior, lembrando que no subtema do clima teremos uma atividade autogestionada, com o tema Biodiversidade e ciência cidadã: combatendo o negacionismo ambiental e climático. Informe-se, participe. Acesse aqui o programa maior, com os de conteúdos mais relevantes da 1ª Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, que ocorrerá em Porto Alegre, dias 26 a 29 de março de 2026.
Uma música? Guerra, de Clarissa Ferreira e Neuro Júnior.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

