Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo, MsC em Economia Rural, Dr. em Engenharia de Produção. Extensionista rural aposentado, fotógrafo.

A complexidade das crises atuais se faz maior pela ocultação do óbvio: é o capitalismo

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1ª Conferência Internacional Antifascista - Pela Soberania dos Povos
1ª Conferência Internacional Antifascista – Pela Soberania dos Povos | Crédito: Leonardo Melgarejo

As mudanças exigem o avanço da conscientização de que estamos diante de um novo fenômeno psicopolítico

Tanta coisa a comentar, sobre a 1ª Conferência Internacional Antifascista – Pela Soberania dos Povos, que não sei por onde começar.

Talvez destacando pontos da carta de Porto Alegre onde se pede unidade contra o fascismo e pela soberania dos povos?

Ou quem sabe, examinando algum dos temas ali apontados como orientações aos e às antifascistas para que trabalhemos juntos pela recuperação da humanidade e preservação da vida, no que ainda resta do paraíso terrestre?

Difícil escolher, sem ser simplista com o que está em jogo.

E de fato, como apontado na Conferência, a complexidade das crises atuais se faz maior pela ocultação do óbvio: o capitalismo (ou o capitaloceno, para trabalhar a ideia de nova era geológica onde menos de 1% da humanidade controla as forças destrutivas que ameaçam o todo), precisa ser contido em todas suas expressões. Ele envolve o patriarcado, o racismo, a homofobia, o machismo, o escravismo e todas as formas de discriminação e diferenciações construídas para garantir exclusões que se expandem, rompendo articulações essenciais ao equilíbrio da biosfera.

A superação deste momento histórico não será alcançada pela deposição dos poderosos, com armas de guerra. Eles são mais bem armados, contam com o apoio de recursos privilegiados da tecnociência, da mídia digital, e da servidão acrítica de multidões capturadas pelo ilusionismo e a atratividade de migalhas.

As mudanças exigem o avanço da conscientização de que estamos diante de um novo fenômeno psicopolítico. Neste, a subjetividade das novas gerações está sendo capturada a tal ponto que suas frustrações e necessidades insatisfeitas se fazem transformadas em ressentimentos e ódios dirigidos contra aqueles/as que lutam pelos interesses de todos. A apropriação pela extrema-direita de palavras como liberdade, justiça, segurança e soberania, não apenas serve para isolar, perseguir e criminalizar aqueles/as que lutam por direitos humanos e justiça social, como também já se prestam a justificar a queda de misseis sobre hospitais e escolas para meninas.

A superação desta condição abjeta exige a construção de compromissos de solidariedade, em abordagens territoriais que permitam evidenciar nexos entre os problemas locais e as ações do império em regiões distantes, de maneira a articular demandas gritadas na ocupação das ruas, por milhões, em todos os países.

Precisamos, para além de lidar com nossas dificuldades especificas, evidenciar ao povo norte-americano que entendemos o que se passa por lá, e que o planeta está com eles, no enfrentamento das lideranças destrutivas e dos governos não confiáveis e intransigentes que estão ameaçando o mundo.

Compreendendo que o neofascismo desencadeou uma estratégia desesperada para estender no tempo privilégios indevidos que, às custas da exclusão de tantos e do sacrifício de todos, uma minoria alcançou acumular e já não pode manter.

Isto explica a fúria com que os autoproclamados donos do planeta estão fazendo para estender tudo que podem seus domínios imperiais, açambarcando tudo que existe em territórios alheios. Aí estão, a desfaçatez das mentiras e o uso descarado da força bruta, para roubar riquezas que o governo norte americano entende serem suas, independentemente de estarem naturalmente distribuídas em diferentes regiões do planeta.

Por isso, o problema é global e só será contido pela reação conjunta, internacionalizada, de todos os povos atualmente achatados sob a condição de sacrifício imediato ou sob ameaça, pelo medo do futuro.

Observando o que está acontecendo dentro dos EUA conseguimos compreender que, inclusive ali, as pessoas classificadas como inimigos internos (descartáveis no interesse do fascismo) recebem tratamento proporcional ao inicialmente  concedido àqueles que o império decidiu catalogar no rol de seus inimigos externos. Uma vez iniciado em algum local, este processo se ampliará aos vizinhos, desconsiderando as leis, os acordos,  a ONU,  a OMC, e a OIT, e com o apoio daqueles dispostos a se omitir enquanto não chegar a sua vez.

Aí estão as nações que não se posicionam em relação ao que acontece em Gaza, na Palestina, no Irã, na Venezuela, em Cuba, a mostrar para onde a realidade as encaminha. Não perdem por esperar os sul americanos que fazem pouco caso às ameaças do Escudo das Américas  para o Cone Sul , diante da subserviência de lideranças regionais ansiosas por ocupar espaços de subserviência obscena e rebaixada ao nível de Milei, que pediu desculpas a Trump por suas bajulações em espanhol e não em inglês.   Aí estão os filhos de Bolsonaro representando a ganancia ignorante daqueles que pretendem implantar entre nós, com apoio de uma operação Condor renovada, aquela degradação civilizatória que Bolsonaro-pai tentou iniciar.

O negacionismo em relação ao fato de que o fascismo avança apoiando-se em mecanismos de discriminação e cooptação que dependem da ignorância dos povos a respeito das razões que estimulam esta nova onda de colonização, se coloca como um problema de educação.  

Em outras palavras, a educação “de mercado”, que favorece o patriarcado, o racismo, o fascismo, o capitalismo e todas as formas de discriminação está na raiz da degradação humana e precisa ser superada. Ao treinar as pessoas para competirem entre si, para se desconectaram da natureza comum, a educação alienante obscurece o fato de que todos os reclamos identitários, dos marginalizados por questões de gênero, cor, identidade, opção religiosa, idade, peso ou que seja, compõem um único mosaico de desrespeitos a serem corrigidos pela expansão da consciência.

E isso não se fará sem lutas, sem sacrifícios. Afinal, se trata de forçar correções históricas. Trata-se da construção de mecanismos que viabilizem a ocupação de espaços de liderança (de gestão das instancias de poder republicano) por representações dos grupos até aqui subalternizados e excluídos. Isto significa alteração radical na correlação de forças que hoje escolhe os gestores que operam (e que resistirão a mudar isso) em defesa das vantagens que usufruem como serviçais do capital.

Não será fácil até porque exigirá recursos diversos, como para expansão de cotas de acesso aos espaços de formação básica, técnica e universitária, em um governo que não consegue sequer reduzir a taxa de juros que transfere recursos da sociedade para a minoria rentista. Além disso, todos sabemos que aquelas mudanças levariam ao cancelamento no desvio de recursos do orçamento, que por meio das emendas parlamentares impositivas, hoje favorecem a corrupção e o clientelismo político.

Enfim, estamos diante da necessidade de uma revolução de consciência, que passando pela reforma do sistema educacional instigará a revogação de leis que roubaram direitos universais a pessoas consideradas, pelos detentores do poder, como menos merecedoras do acesso à condição humana. Isso também nos encaminharia para o fim das privatizações, a retomada de patrimônios da nação entregues ao capital especulativo e à reconstrução de formas de gestão respeitosas em relação aos direitos, à questão ambiental e bens comuns, estimulando medidas pedagogicamente punitivistas em relação às pessoas e grupos que cometem, estimulam ou apoiam crimes contra as bases da vida.

Estas são algumas das recomendações que coletei durante a Conferência. Elas que, sem dúvida, apontam para uma revolução na educação para formatação da consciência dos povos. Processo lento, difícil, a um só tempo produto final e instrumento resultante de lutas emancipatórias contra o fascismo em todas suas expressões.

Algo possível? Sem dúvida.

Vejamos o exemplo da vitória dos povos indígenas da Amazônia (durante a COP30). Após 30 dias de ocupação da Cargill que além de ser a segunda maior empresa de capital fechado do mundo contava com apoio do Governo Brasileiro, a revogação do decreto 12.600. que autorizava a concessão e privatização de hidrovias na Amazônia Legal, foi alcançada. Resultado de ações efetivas, de base espiritual e conectadas a lutas ancestrais de povos determinados a qualquer esforço pela construção de um novo modelo de alianças e relacionamento com a sociedade local e internacional.

Embora evidente que aquele sucesso contou com o apoio do presidente Lula, não é menos verdadeiro que o governo foi derrotado em sua posição inicial e empurrado pela ação da sociedade organizada, cuja potência resultou da unificação de lutas coerentes com uma noção básica de solidariedade: “quando se ameaça um território, se ameaça a todos”.

Isso ilustra que com coragem e determinação podemos mudar a realidade e, juntos, nos desvencilhar pouco a pouco, por partes daquilo que o capitalismo tenta nos enfiar goela abaixo.

Crédio: Leonardo Melgarejo

Na conferencia antifascista, Auricélia Arapiuns descreveu o esforço de seu povo, nesta guerra contra a privatização do Rio Tapajós, que seria transformado a um só tempo em corredor logístico a serviço do capital, canal de escoamento de comodities e vetor para expansão da destruição acelerada da Amazônia, pelo agronegócio, com uma expressão direta e singela:  “Somente a luta unificada é capaz de mudar os rumos da nossa própria história”.

A dimensão internacional desta perspectiva também pode ser ilustrada com o que se passa em Cuba. Afinal, poucos se mobilizam contra isso, mas não há quem ignore que o império norte-americano tenta asfixiar o povo cubano pela posição altiva digna e comprometida com a solidariedade internacional ali praticada. Também deve haver certa vergonha em função daquele “mau exemplo” de dignidade, florescendo tão perto com seus compromissos de garantia de acesso integral à condições superiores de educação, saúde e alimentação, da melhor qualidade possível comparativamente ao resto do mundo e, levando em conta as pressões do império, desmoralizando o que o modelo norte americano oferece a seu próprio povo. Ou alguém acreditaria, como referiu o cônsul Benigno Pérez Fernandes  que as pressões e o bloqueio à Cuba acontecem porque  a ilha “ameaça a segurança nacional dos Estados Unidos da América?”

Finalizo este informe aproveitando conceituação de Glauber Braga, que durante a sessão de abertura da conferência lembrou que os desafios que se colocam na luta contra o fascismo não nos pedem posicionamentos otimistas ou pessimistas. Se trata apenas de sermos determinados, na certeza de que assim chegará o momento em que venceremos.

Crédito: Leonardo Melgarejo

Reproduzo aqui um texto muito lindo, possivelmente musicado com o uso da inteligência artificial, que amplia a mensagem da foto: a solidariedade em geral e particularmente em defesa de Cuba são do interesse de todos os povos e correspondem à defesa da dignidade, da poesia, da beleza, da paz e do futuro.

A IA também pode ser usada por nós.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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