Leonardo Melgarejo

Engenheiro Agronômo, MsC em Economia Rural, Dr. em Engenharia de Produção. Extensionista rural aposentado, fotógrafo.

Medos, crises civilizatórias e tragédias ambientais

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Porto Alegre (RS), 19/06/2024 – Rua alagada na Vila da Paz após chuvas e novos alagamentos | Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

Aí está a realidade que precisamos ver e que precisamos mudar nestas eleições

Em continuidade ao tema das responsabilidades comuns, da importância do envolvimento individual com causas transformadoras, e da onipresença dos ciclos/loops/feed-backs retroalimentadores dos medos, das crises civilizatórias e das tragédias ambientais, que de alguma forma pautaram essa coluna ao longo das últimas semanas, trago a seguir novas informações que reforçam os argumentos de Thomas Crowther, resumidos na coluna do dia 19 de junho.

Em seu livro Ecos da Natureza aquele autor sustentava que todas nossas ações reverberam no tempo, e que isso sempre leva à ampliação das qualidades envolvidas em cada uma das nossas atitudes. 

Desta maneira, até os menores atos estimulariam ciclos de retroalimentação que dariam força (e impulso renovador) a suas motivações originais. E isto seria potencialmente capaz de levar a alterações em paisagens e a transformações no planeta. 

Haveria nisto uma espécie de lei natural que explicaria as razões por que o medo estimula ações desencadeadoras de pânico e, opostamente, porque o otimismo faz emergir uma espécie de confiança coletiva, que gera entusiasmos transformadores da realidade. 

Em outras palavras, é como naquela parábola indígena dos dois lobos, os impulsos que vierem a ser alimentados se tornarão dominantes e se propagarão.

Pois bem, esta semana li alguns textos que ilustram a importância deste tipo de retroalimentação entre os mecanismos econômicos vigentes e a degradação ambiental. 

O primeiro foi um estudo  que sustenta o seguinte: aqueles países “pobres”, que detém o remanescente da biodiversidade responsável pela homeostase planetaria tendem a se inviabilizar economicamente. Mantidos os comportamentos atualmente estimulados pela economia global, isto tende a acelerar a crise planetária. 

Os motivos se associam à lógica do capital: os países pobres dependem de empréstimos para adquirir tecnologias que garantam ganhos de produtividade… As taxas de juros (cobradas sobre todos empréstimos) se associam ao medo de perdas e crescem em função do risco. Assim, aqueles países que dependem de ativos ambientais em declínio estariam ameaçados de restrições ao acesso a novos créditos internacionais, com impactos diretos sobre sua capacidade produtiva, governabilidade e estabilidade social.

Aquele artigo discute o impacto da incorporação dos riscos associados à biodiversidade, em avaliações de créditos essenciais para 23 países, onde habitam 5,5 bilhões de pessoas. Os autores concluíram que os pagamentos adicionais, anuais, de juros, considerando um cenário de colapso parcial do ecossistema, podem alcançar US$ 162 bilhões. 

Isto corresponde a 81% da meta (US$ 200 bilhões por ano) estabelecida pelo Marco Global de Proteção à Biodiversidade.

 E este nem é o pior motivo para revisão das operações internacionais de crédito e para alteração na linha de investimentos hoje estimulados com base nos pressupostos do capitalismo. Um outro artigo sustenta que o sistema bancário europeu está ameaçado pelo aprofundamento das associações entre suas operações, as mudanças climáticas e a degradação dos ecossistemas. Isto sugere que os países ricos não estão mais seguros que os pobres, havendo dúvidas a respeito dos locais por onde o fim do que conhecemos entrará em cena.

 E há também em outra publicação, a informação de que a economia chinesa tem concentrado seus projetos dispersos pelo mundo (estradas, portos, infraestrutura produtiva,…) em habitats ecologicamente críticos, áreas protegidas ou terras indígenas, onde se encontram cerca de 24% das aves, mamíferos, répteis e anfíbios ameaçados. Portanto, a alternativa do capitalismo de estado, chinês, também se soma aos vetores que alimentam este ciclo destrutivo da biosfera e do metabolismo de Gaia. 

Os pontos de risco socioecológicos mais relevantes,  norte da África, sudeste da Ásia e partes da América do Sul,      se concentrariam exatamente naquelas regiões dependentes de serviços socioambientais relacionados à florestas (madeiras) tropicais, pesca marinha e polinização selvagem. O artigo que trata disso considera que a degradação daqueles serviços impactará sobre as classificações de crédito, com a elevação no custo de empréstimos e o agravamento de outras pressões em direção ao colapso. 

Aquele texto, somado aos outros, dá a entender que todas as instituições e agências financeiras internacionais tenderão a operar atribuindo pesos crescentes aos riscos relacionados à degradação ambiental, de maneira similar ao que já fazem com aqueles riscos de instabilidade política geograficamente localizados.

Portanto se faz necessário que tanto as nações como as empresas e os manipuladores de investimentos estratégicos, tratem de inverter aquela tendência, passando a investir na recuperação da natureza. 

Se trata de projetar os benefícios relacionados aos retornos de longo prazo (para a economia e para a natureza) como argumentos para a antecipação de despesas que -sem isso- fatalmente ocorrerão no futuro próximo (com riscos maiores pela explosão adicional de perigos).

E aqui, relembrando a importância dos ciclos que se retroalimentam, cumpre destacar a existência e a importância de sistemas que dependem (e prosperam -contra as lógicas de mercantilização de tudo, em favor…) de convivências amistosas, entre aquilo que suas atividades econômicas que priorizam e a preservação ambiental.

E aqui entra a busca de outros tipos de ciclos. 

São abundantes os exemplos reiteradamente associados aos avanços da agroecologia e às propostas de integração entre ecologias urbanas e rurais, como a reforma agrária popular e outras alternativas consistentes, neste rumo. 

Entretanto, neste ponto quero chamar atenção para as dimensões que a economia e a ciência tradicional ainda se recusam a valorizar. Me refiro à importância dos conhecimentos indígenas, para a proteção dos ecossistemas terrestres (e por conseguinte das civilizações humanas que deles dependem).

Esta interpretação vem ganhando força com base em amplo estudo realizado em seis continentes, cujos resultados salientam que a sobrevivência cultural é fundamental para a proteção da natureza e de seus serviços ecossistêmicos. Seus autores sugerem que – no interesse da humanidade- se faz necessária ampla articulação global em apoio à luta dos povos tradicionais, para proteção de seus territórios e modos de vida.

De um lado, porque eles desenvolvem lógicas de governança ajustadas a cosmovisões histórica e geograficamente determinadas. De outro lado, porque aquela forma de existir incorpora sentido a tradições que, enquanto preservarem idiomas, rituais, identidades e compromissos plurigeracionais, também estarão protegendo a terra, as águas, a vida silvestre e suas redes de conexões, objetivas ou imateriais.

Ademais, sob o ponto de vista quantitativo sabemos que aquelas realidades “armazenam mais de um terço do “carbono irrecuperável”do planeta, aquele que, se liberado na atmosfera, não poderia ser recuperado a tempo de evitar o colapso climático.” Ainda assim, se levarmos em conta que os direitos dos povos indígenas são reconhecidos em apenas 19% dos territórios que defendem, resulta evidente que eles, sozinhos, não conseguirão resistir às pressões que – como revelam aqueles estudos- alimentam as principais fontes de nossos medos.

Ou bem este problema real passa a ser encarado como um desafio a ser enfrentado por todos e todas. Ou bem nos comprometemos com o estabelecimento de ciclos positivos, baseados na solidariedade ecosocialista internacional, ou em poucos anos veremos o inferno eclodir em nossas grandes cidades.

E porque trago aqui estes assuntos? 

Bom, sou aposentado. Tenho aquele tempo para ler textos que sei que, boa parte das pessoas que conheço, não teriam. Gosto de fazer resumos. E no caso dos estudos aqui comentados, salta aos olhos a relação entre seus conteúdos e o nosso futuro e por isso acredito que eles têm tudo a ver com as eleições de outubro. 

Aí estão, em todas as mídias, disfarçados de pessoas de bem, aqueles velhos e matreiros candidatos bombachudos do agro, manejando por trás de seus novos vaqueiros de imagem repaginada e operando de todas as formas em favor da miséria, da injustiça, da iniquidade.

Aí estão aqueles banqueiros corruptos com seus governadores, deputados, senadores, milicianos e ex-presidentes amigos. Aí estão, rosnando e babando, o muito que não sabemos e o tanto que não queremos ver. 

Aí está a realidade que precisamos ver e que precisamos mudar nestas eleições.  

Todos aqueles representantes da sociedade, que ocupam espaços nos poderes da república. Todos aqueles negacionistas de quatro costados, que operam contra a vida, que bloqueiam avanços como o fim da jornada 6X1, o transporte urbano gratuito, os avanços da agroecologia, da reforma agrária popular e das titulações, todos aqueles que contribuem para a aprovação de leis tão abjetas como o pacote do veneno e o marco temporal, que lucram com a destruição do ambiente, com a entrega de riquezas nacionais aos estrangeiros, que estão comprometidos com o extermínio cultural (e quando possível, físico) dos povos indígenas e comunidades tradicionais, são inimigos do futuro de nossos filhos. Eles precisam ser desmascarados, enfrentados, destronados e alijados de seus espaços de poder.

E o combate contra essa gente, em paz, se fará com a arma da consciência, pelo voto e pela ação política em favor da eleição de brasileiros com outro tipo de perfil, rastro e histórias de vida. Brasileiros que ajudem Lula a construir aqui um país melhor, um país mais decente, um país independente e soberano.

Não vou recomendar uma música, ao fim deste texto. Mas cito aqui, porque esta é a função dos textos, dos estudos, da formação, para que não seja esquecido: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

Artigos citados

Agarwala, M., Burke, M., Klusak, P. et al. Biodiversity loss will decrease the future creditworthiness of nations. Nat Ecol Evol (2026). Disponível em https://doi.org/10.1038/s41559-026-03081-7https://www.nature.com/articles/s41559-026-03081-7

Yang, H., Simmons, B.A., Ray, R. et al. Risks to global biodiversity and Indigenous lands from China’s overseas development finance. Nat Ecol Evol 5, 1520–1529 (2021). https://doi.org/10.1038/s41559-021-01541-w

Ceglar, A., Marques, A., Boldrini, S. et al. European banks face significant vulnerability to ecosystem degradation and climate changeCommun Earth Environ 6, 750 (2025). https://doi.org/10.1038/s43247-025-02543-3

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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