Como na vida, a Copa está mostrando que o coletivo é o que importa. Por isso, não há lugar para gente como o Neymar. O Harry Kane é o exemplo da estrela que trabalha como um igual aos seus parceiros.
Por isso, até aqui estou apostando na Inglaterra.
E meu comentário de hoje tem a ver com isso: há uma crise de confiança no coletivo.
E ela se agrava com os anúncios do super El Niño … que se somam às evidências de agravamento das tragédias relacionadas ao aquecimento global.
Coisas que entre nós se somam com as ameaças do Donald Trump, que criou o Escudo das Américas para fazer valer os interesses dos EUA na América Latina, e nos colocou na mira anunciando a presença de grupos terroristas no Brasil.
E ainda temos o empoderamento dos negacionistas e o assanhamento dos fascistas, dos golpistas e dos corruptos…. gente do mal que controla o que mais circula nas mídias digitais e pretende com isso eleger algum deles, na presidência da República.
Com tudo isso se entende o avanço da alienação e o agravamento do medo e das violências, no inconsciente dos brasileiros.
A desconfiança em relação aos outros impede a construção de ações coletivas.
Funciona assim: aquilo que nos assusta, aquelas ameaças com que acreditamos não poder lidar, dificultam o raciocínio lógico.
Elas nos embrutecem ao ponto de estimular a negação da realidade. Com isso a busca de autonomia e de parcerias para enfrentamento de problemas, tendem a ser deixadas de lado. E pior, isso acaba tornando atraente a busca desesperada por algum tipo proteção.
Lá no fundo, isso gera um clima que empurra as pessoas na direção das soluções mágicas relacionadas à loteria ou intervenções divinas, ou estimula as pessoas a buscarem soluções práticas, na linha de adesão submissa aos poderosos.
Isso reforça o lado do mal, empodera os criminosos.
E ao mesmo tempo, faz com que se consolide uma sensação de que as reações conscientes são tolas, são ilusórias e sem perspectiva de sucesso naqueles contextos onde a maioria repete coisas como “não vai dar certo”, “não vale a pena, não adianta nem tentar”.
E é exatamente aí que reside o problema: o medo e aquele sentimento de que não adianta tentar estabelecem laços de retroalimentação que reforçam o medo e bloqueiam reações, alimentando o avanço de todas as crises.
Se trata de algo que podemos observar na natureza: os ciclos de retroalimentação, aqueles acontecimentos que levam a consequências que dão rebote sobre a fonte dos próprios acontecimentos originais, definem tendências que mudam a realidade. Estes ciclos formam laços que reforçam e multiplicam o acontecimento inicial. Eles alteram as paisagens, moldam o clima, redefinem os biomas e os ecossistemas. Eles explicam a formação das galáxias, a expansão da vida e, na história humana, ajudam a entender tanto aquelas pequenas crises sociais como o sucesso e o fracasso das civilizações.
E o livro Ecos da Natureza, de Thomas Crowther, discute isso desde uma perspectiva interessante e inovadora.
Ele alerta que podemos aproveitar as regularidades que existem nestes ciclos para enfrentar qualquer tipo de crise.
Essencialmente ele afirma que, entendendo aqueles ciclos que definem tendencias negativas, poderemos resolver boa parte dos grandes dramas que nos ameaçam.
Se trata de estimular ciclos positivos, confiando no fato de que alterações pequenas, quando praticadas em coletivo, se auto reforçam e geram laços de retroalimentação, que se expandem induzindo o estabelecimento de novos padrões de realidade.
Vale também para o negativo. Ciclos degenerativos como aqueles estabelecidos em processos que se retroalimentam como nas relações entre a injustiça e a violência, crescem por si.
No fundo, se trata de entendermos que os ciclos negativos, aqueles que se ampliam na medida em que expandem a alienação das pessoas, dependem de estímulos que podem ser freados por reações que estimulem tendências no sentido oposto.
Pois bem, o livro de de Thomas Crowther oferece bases científicas que não apenas sustentam uma espécie de otimismo socioambiental, como também oferecem argumentos de grande utilidade para superação de questões de natureza política.
Ele mostra que as aquelas injustiças e desigualdades que estimulam competições e nos colocam todos contra todos se apoiam numa ilusão básica.
A de que existe uma separação entre a humanidade e a natureza.
Ele ilustra isso com evidências de regularidades nos ciclos que retroalimentam todas as crises. Ali existiriam padrões que podem ser utilizados para enfrentá-las.
A lógica disso estaria na onipresença de uma espécie de regra estimuladora de mudanças: a receptividade do ambiente, em relação a determinada influência, por pequena que ela pareça ser, determinará seu poder de transformação sobre o todo daquele ambiente.
Como ilustração considere o feed-back que um adulto possa oferecer a uma criança, em função de algum tipo de comportamento daquela criança. A atitude do adulto será percebida como fator de estímulo ou de inibição àquele comportamento. E em se repetindo, levará à consolidação de convicções que poderão repercutir sobre outras crianças no presente e quem sabe, no futuro, sobre outros adultos.
A compreensão desta regra, em face da crise ecológica e social onde estamos metidos, nos ajuda a entender que não existem atitudes inócuas nem testemunhas passivas. Os pequenos gestos individuais compõem parte de movimentos que definem o comportamento global.
Em outras palavras, nossas escolhas alimentam ciclos, e todos somos protagonistas do que ocorre com o metabolismo do planeta inteiro.
Opções conscientes em defesa da sociabilidade e da natureza correspondem a avanços em termos de autonomia pessoal, e podem fazer que tendências positivas se instalem e se expandam. Ações em defesa da biodiversidade reduzirão o aquecimento global e a violência das enchentes.
Simples assim: nosso comportamento define se as gentilezas e as violências se expandirão ou serão abafadas.
Quando a sociedade valoriza algo como “melhor” ou “mais adequado” do que o padrão vigente, este fato dá início a ciclos de retroalimentação que tenderão a avançar por si, impulsionados pela adoção daquela interpretação.
E o fato é que a valorização social depende da percepção coletiva, e ela está sendo disputada em verdadeira guerra por influências cognitivas.
Basta lembrar das campanhas de marketing e das ações das bancadas ruralistas sustentando o agropop e suas chuvas de veneno, acelerando o aquecimento global e bloqueando avanços da agroecologia e da soberania alimentar, para entender a dimensão deste problema.
Daí a importância das recomendações daquele livro: podemos fazer a diferença e salvar tanto aos nossos amores como o planeta inteiro, dando atenção e valorizando aqueles espaços e aqueles atores que estão contribuindo para que aconteçam mudanças positivas. Ajudando na consolidação e na retroalimentação dos ciclos em que eles estão envolvidos.
Afinal, são exatamente aqueles processos que carregam o potencial de virada capaz de reavivar o protagonismo social de que precisamos para superar o medo e conter os dramas que nos ameaçam.
E isso precisa começar na cabeça e na casa de cada um/uma.
E não bastará escrever ou dizer “eu não acredito em mitos”, ou “eu acredito em fadas”.
Será necessário agir de acordo com a consciência de quem é capaz de reafirmar no dia a dia: “eu sei quem sou”, “eu sei o que eu não quero”, e “eu sei porque eu quero isso, e não quero aquilo”.
E aprender com o exemplo do time do Cabo Verde, que segurou a Espanha. Juntos, contra todas as previsões, cada um fazendo a sua parte, conquistaram a solidariedade e admiração do mundo do futebol. No final, acredito que até boa parte dos espanhóis, estavam com eles. Vejo nisso uma lição e um exemplo, que não devem ser esquecidos.
Uma música que trate dessas coisas de retroalimentação positiva e dos enfrentamentos necessários? Do Gonzaguinha: Recado.

