Leitura Crítica da Mídia

A coluna tem o objetivo de realizar uma análise precisa por uma mídia ética, humanizada e sem violações dos direitos humanos.

Autora: Mabel Dias é jornalista, associada ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, observadora credenciada do Observatório Paraibano de Jornalismo, mestra em Comunicação pela UFPB, doutoranda em Comunicação pela UFPE e autora do livro “A Desinformação e a Violação aos Direitos Humanos das Mulheres: um estudo de caso do programa Alerta Nacional”, da editora Arribaçã e selo Anayde Beiriz.

Da Antiguidade Clássica aos dias atuais: a luta das mulheres pelo direito à fala e à existência

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Imagem ilustrativa. Foto de ato no Rio de Janeiro, no Dia Internacional da Mulher em 2024
‘Apesar dos silenciamentos que são impostos às mulheres pelo patriarcado, seguimos, caminhando resistentes’, salienta Mabel Dias | Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil

O livro 'A Fala Feminina' é uma leitura fundamental para podermos entender como o machismo, a misoginia e o sexismo agem para calar e deslegitimar as mulheres

Por Mabel Dias*

A história da humanidade revela que as vozes das mulheres sempre foram silenciadas. Mesmo que na atualidade, nós consigamos votar, ser eleitas para cargos de poder, falar em espaços públicos, ocupar universidades ou sindicatos, por exemplo, e ter uma profissão, o silenciamento da voz feminina persiste. E isso também pode ser considerado violência contra as mulheres.

Neste 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, seguimos denunciando e chamando a atenção da sociedade paraibana e brasileira para os diversos tipos de violência que, nós mulheres, ainda somos alvo, como a violência simbólica, que pode ser representada pelo “cala boca!” masculino cotidiano, com o objetivo de silenciar nossas vozes e ações.

Para mostrar como o machismo e a misoginia agem, deslegitimando, menosprezando e interditando a fala das mulheres, desde e Antiguidade Clássica até os dias atuais, a professora Amanda Braga, do Departamento de Linguística e de Língua Portuguesa da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e o professor Carlos Piovezani, pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), publicaram o livro A Fala Feminina: silenciamentos e resistências, da editora Jandaíra, traçando um panorama histórico sobre como a fala das mulheres tem sido atacada e silenciada.

Capa do livro ‘A Fala Femina: silenciamentos e resistências’ | Crédito: Reprodução/Editora Jandaíra

Por meio de uma pesquisa minuciosa sobre o modo que as mulheres eram vistas e tratadas em diversas épocas, como a Idade Média e a Era Moderna, os professores buscam mostrar como as tentativas de interdição e de menosprezo com o que as mulheres dizem, passando por violências físicas, psicológicas e simbólicas, até os feminicídios, são usados para silenciá-las.

E, como afirmam Amanda Braga e Carlos Piovezani, uma das primeiras estratégias para silenciar a fala das mulheres é sua exclusão do espaço público. “Se elas conseguem acessá-lo, eles buscam impedir suas manifestações. Se, mesmo assim, elas conseguem falar, eles tentam perturbar a escuta do que foi dito. Mas, se elas conseguem se fazer ouvir, suas falas são desprezadas e deslegitimadas. Para tanto, se formou uma antiga percepção sexista da fala pública, cujo destino será longo. Essa percepção opõe, por um lado, as virtudes masculinas da coragem e da prudência, da franqueza e do interesse coletivo, e, por outro, os vícios femininos da bajulação e da discórdia, da conveniência e da tagarelice. É por essa razão que as lutas pela palavra sempre foram batalhas decisivas para as mulheres e para os movimentos feministas”, diz um dos trechos da sinopse do livro.

Uma das falas femininas calada brutalmente no Brasil em 2018, e que está presente no livro A Fala Feminina foi a da vereadora carioca Marielle Franco, do Psol. Ela foi a quinta vereadora mais votada da capital carioca nas eleições de 2016, e por sua atuação corajosa na Câmara de Vereadoras/es, foi assassinada, após sair de uma palestra na Casa das Pretas. No dia seguinte ao assassinato de Marielle, conteúdos desinformativos circulavam na internet e nas plataformas digitais para tentar justificar a sua morte, atacando a sua dignidade e sua honra. A desinformação de gênero agiu como um segundo assassinato de Marielle. Sobre esse conceito, já falei dele nesta  coluna.

Apesar de terem matado Marielle, a semente dela germinou e sua história continua sendo contada e seus projetos continuam sendo realizados por meio do Instituto Marielle Franco, fundado por sua família, e abraçado por outras mulheres e homens que se identificam com as lutas que ela realizou enquanto ativista e parlamentar.

Na Paraíba, em 1983, outra mulher corajosa, liderança camponesa em Alagoa Grande, também foi silenciada brutalmente. Margarida Maria Alves foi assassinada com tiros de espingarda no rosto, na porta de casa, por defender os direitos das trabalhadoras e trabalhadores rurais da cidade. Assim como Marielle, a voz de Margarida continua ecoando até os dias atuais entre as agricultoras familiares da Paraíba e do Brasil, sendo referência na luta e na organização dessa categoria. Uma das mais importantes e significativas homenagens feitas à líder sindical camponesa é a Marcha das Margaridas, um movimento que reúne agricultoras familiares de todo o Brasil na capital federal, de quatro em quatro anos, para reivindicar seus direitos, mostrando que quando as mulheres se juntam e se organizam, elas movem estruturas patriarcais, promovendo mudanças sociais e políticas.

Chegando aos tempos atuais, no último capítulo do livro, a professora Amanda Braga e o professor Carlos Piovezani analisam os silenciamentos impostos também à ex-presidenta Dilma Rousseff, a Manuela D’Ávila, e à deputada federal Sâmia Bomfim, alvos de violência política de gênero e de desinformação. Outras duas deputadas federais, também constantemente atacadas e silenciadas no parlamento e nas redes sociais, são Érika Hilton, mulher trans e negra, e Talíria Petrone, também mulher negra e ativista do campo da esquerda brasileira. Érika Hilton faz a apresentação do livro A Fala Feminina e Talíria Petrone escreve o texto da contracapa. O prefácio foi escrito por Marlène Coulomb-Gully.

O livro A Fala Feminina: silenciamentos e resistências é uma leitura fundamental para podermos entender como o machismo, a misoginia e o sexismo agem para calar e deslegitimar as mulheres, e que, como disse no início deste texto, segue de maneira incessante na atualidade, mesmo diante das conquistas que temos alcançado. O capítulo quinto do livro mostra a persistência da misoginia na sociedade, por meio de discursos que atribuem às mulheres comportamentos como “fofoqueiras e demoníacas”, sendo responsabilizadas pelos males que atingem os homens, evidenciando assim o machismo estrutural presente na sociedade brasileira. No entanto, também encontramos neste capítulo do livro, a brava resistência feminista, com suas lutas pela palavra, no Brasil e fora dele, em defesa das mulheres.

E assim, apesar dos silenciamentos que são impostos às mulheres pelo patriarcado, seguimos caminhando resistentes, denunciando e lutando contra as violências que violam nossos corpos e nossas vidas cotidianamente, balançando as estruturas da misoginia, defendendo nossos direitos. E como cantava a inesquecível Gal Gosta: “É preciso estar atenta e forte!”

*Mabel Dias é jornalista, associada ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, observadora credenciada do Observatório Paraibano de Jornalismo, mestra em Comunicação pela UFPB e doutoranda em Comunicação pela UFPE. Autora do livro A Desinformação e a Violação aos Direitos Humanos das Mulheres: um estudo de caso do programa Alerta Nacional (editora Arribaçã).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Editado por: Carolina Ferreira

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