Leitura Crítica da Mídia

A coluna tem o objetivo de realizar uma análise precisa por uma mídia ética, humanizada e sem violações dos direitos humanos.

Autora: Mabel Dias é jornalista, associada ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, observadora credenciada do Observatório Paraibano de Jornalismo, mestra em Comunicação pela UFPB, doutoranda em Comunicação pela UFPE e autora do livro “A Desinformação e a Violação aos Direitos Humanos das Mulheres: um estudo de caso do programa Alerta Nacional”, da editora Arribaçã e selo Anayde Beiriz.

O uso do corpo feminino como espetáculo para atrair audiência

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‘Os policialescos usam a violência como mercadoria, uma moeda de troca para obter audiência e lucro para as empresas de comunicação’, afirma Mabel Dias | Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Parece que a TV O Norte escolheu o caminho do espetáculo e não o da comunicação cidadã que respeite os direitos humanos das mulheres

Quando pensamos que a televisão está adotando a ética jornalística nas coberturas dos casos de violência contra as mulheres e de feminicídios na Paraíba, nos deparamos com reportagens que ainda utilizam o corpo feminino periférico, de maneira espetacularizada, como recurso para atrair audiência.

Foi o que fez a TV O Norte, ressuscitada em 2025, que, para atrair audiência, tem violado os direitos humanos das mulheres e o próprio Código de Ética das/os Jornalistas Brasileiras/os. No último dia 23 de janeiro, a jovem de apenas 22 anos, mãe de duas crianças, Giselia dos Santos Cícero, foi assassinada em uma residência, no bairro Alto do Mateus, em João Pessoa. Segundo informações da Polícia Militar, ela foi assassinada na casa de um rapaz com quem  estava se relacionando. Até o momento, o suspeito ou suspeitos não foram encontrados e responsabilizados pelo crime.

Mas, não bastava apenas informar a ocorrência de mais um feminicídio na Paraíba. A equipe da TV O Norte optou por exibir imagens do corpo da moça, ensanguentado, no chão da casa, e vestida só com as roupas íntimas. O programa em questão é o Paraíba do Povo, que vai ao ar de segunda a sexta, a partir do meio-dia, e também fica disponível em plataformas digitais, como o YouTube. Mesmo as imagens embaçadas, é possível ver o corpo da jovem, seminua, estendido no chão e com marcas de sangue.

Investigar para saber quem matou Giselia, ninguém quer. Entretanto, abusar do sensacionalismo e da morbidez, usando o corpo de uma mulher periférica para atrair audiência, os programas policialescos, como o Paraíba do Povo, são craques nisso. Os policialescos usam a violência como mercadoria, uma moeda de troca para obter audiência e lucro para as empresas de comunicação. Esse tipo de prática era comum nos policialescos nos anos 1990, quando a TV brasileira viveu o boom desse tipo de produto midiático. Vendo a audiência e o lucro que esses programas geram, com um baixo investimento, os empresários da comunicação investiram nos policialescos, geralmente, contratando apresentadores e repórteres que não são jornalistas. As feministas incidiram na cobertura da mídia sobre os casos de violência contra as mulheres, mudando esse enquadramento sensacionalista. No entanto, com o ressurgimento dos policialescos na TV, nos anos 1990, esse tipo de cobertura voltou a ser utilizada.

A TV O Norte, ressuscitada ano passado na Paraíba, tem investido em programas policialescos na sua programação, na ânsia de captar audiência, mesmo que viole direitos humanos, a dignidade humana e a ética jornalística. Na cobertura da morte de Gerson de Melo, o jovem com transtornos mentais que entrou na jaula da leoa na Bica, em dezembro de 2025, sendo atacado e morto, a mesma emissora exibiu fotos dele caído no local, morto, e sem roupas. Falamos sobre esse caso em um de nossos artigos.

Em 2024, a Secretaria das Mulheres e da Diversidade Humana, o Intervozes, o Observatório Paraibano de Jornalismo e a Rede Estadual de Atenção às Mulheres e Meninas Vítimas da Violência (Reamcav) lançaram o Guia de Enfrentamento da Violência contra as Mulheres: diretrizes para uma cobertura responsável, com o objetivo de conscientizar comunicadores/as paraibanos/as para uma cobertura mais ética e responsável sobre os casos de violência contra as mulheres e o feminicídio na Paraíba. O guia traz dicas importantes para as/os comunicadoras/es sobre a divulgação de informações que envolvam feminicídio, violência contra mulheres e meninas, evitando assim a culpabilização das vítimas, exposição de seus corpos, a preservação da dignidade humana, o respeito à ética jornalística e à legislação direcionada aos meios de comunicação no Brasil, como o Regulamento dos Serviços de Radiodifusão. O guia pode ser acessado gratuitamente neste link.

Inspirado no guia, o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público da Paraíba (MPPB) e a Defensoria Pública do estado elaboraram recomendações para os meios de comunicação, orientando sobre a cobertura de casos de violência envolvendo mulheres (cis, trans e travestis), saindo da cobertura policialesca, e contextualizando estes casos para que a população compreenda o fenômeno da violência de gênero, não reproduzindo machismo e misoginia. Outra recomendação também foi editada para a Secretaria de Comunicação do governo do estado, orientando a não disponibilização de verba pública para veículos de comunicação que violem os direitos humanos das mulheres. As recomendações podem ser acessadas aqui.

No entanto, pelo o que percebemos, as recomendações não estão sendo seguidas pela TV O Norte, nem o Guia de Enfrentamento da Violência contra as Mulheres: diretrizes para uma cobertura responsável foi adotado pela empresa em sua redação. Os meios de comunicação, como afirma o Dossiê Feminicídio, do Instituto Patrícia Galvão, têm um importante papel – que deveria ser educativo, ao informar sobre os crimes contra as mulheres: conscientizar a sociedade para combatê-lo, informar os serviços onde as mulheres podem conseguir ajuda e realizar capacitações com as equipes de comunicação sobre direitos humanos, violência de gênero, legislação para as mídias, entre outros temas reportados pela mídia, diariamente, para não reproduzir estereótipos, discriminações e mais violência.

Entretanto, parece que a TV O Norte escolheu o caminho do espetáculo e não o da comunicação cidadã que respeite os direitos humanos das mulheres.

*Mabel Dias é jornalista, mestra em Comunicação pela UFPB, doutoranda em Comunicação pela UFPE, associada ao Coletivo Intervozes, observadora credenciada no Observatório Paraibano de Jornalismo e conselheira do Conselho Nacional dos Direitos Humanos. Autora do livro A Desinformação e a Violação aos Direitos Humanos das Mulheres: um estudo de caso do Alerta Nacional (editora Arribaçã).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Editado por: Carolina Ferreira

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