mariam pessah

ARTivista feminiSta, escritora, poeta e tradutora. Autora dA saliva que umedece, poemariam – um tratado sobre línguas, 2025; Meu último poema 2023; Em breve tudo se desacomodará, 2022; entre outros. Organizadora do Sarau das minas/Porto Alegre, desde 2017, e coordenadora da Oficina de escrita e escuta feminiSta. Curadora da FestiPoa literária.

Sobre beijar a vida, na boca

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Livro Batida só 
“Batida só me parece ser um grito desesperado por ter fé. Por lembrar, a nós e a todxs, que a vida é finita. E diz : não senta para ver e esperar, faz acontecer!” | Crédito: Arquivo pessoal

Quantas vidas cabem em 5 dias? E quantas em um romance? Quantos sonhos?

Comecei a ler Batida só — livro de Giovana Madalosso, 2025, editora Todavia — e tive que parar porque o corre dos dias me impunha outras leituras. Eu leio muito devagar — muito mesmo —, acredito que seja uma das consequências da minha dislexia, as letras gostam de dançar, obrigando-me a fazer pausas muito seguidas, o que pede muita organização e concentração.

Passado um tempo, meses talvez, de ter começado o livro, prefiro voltar à primeira página, vendo as marcas de lápis que fui deixando pelo caminho, conversando com alguns possíveis comentários, surpreendendo-me com linhas que juraria que não estavam aí quando passei pela primeira vez.

Quando sou fisgada por algo, fico nessa emoção e não guardo o que continuo lendo. Se estou no cinema, no teatro ou em uma conversa, perco tudo que vem na sequência, pois meu tempo fica detido naquele momento-lugar. Por isso, quando eu era fotógrafa e estava na ativa, embora amasse o cinema, dizia que gostava de ter meus tempos próprios. A imagem fixa, assim como a escrita, nos permite isso, congelar momentos e poder voltar a eles mais tarde.

Mas por que comecei escrevendo sobre este livro? Por que domingo passado, em um encontro com amigas, várias vezes me referi a Batida só?

Eu dou muita importância à mudança de ano. De fato, às vezes, como aconteceu semana passada, fujo três dias para a praia e lá, faço uma das coisas que mais amo: caminhar na areia, me conectar com o mar, a natureza e pensar como vai ser meu próximo ano. Enquanto sinto a brisa e o sol e os morros e o som das águas, penso no novo ciclo que está chegando. E me preparo e me abro.

Uma frase escapou do livro batendo fortemente em mim : “agarrar a existência pelas orelhas”.

Batida só trata de uma jovem que descobre uma doença cardíaca, também de uma pessoinha de 10 anos que tem um linfoma e de uma mãe “que sempre dá um jeito de resolver tudo”. Será que nesse tudo cabem também a saúde e a vida de Nico?

Aqui não se trata de resultados. Este é um livro do trânsito. Giovana Madalosso que neste ano esteve duas vezes em Porto Alegre falando sobre seu novo livro, confessou-se ateia. Ela disse que não consegue acreditar em Deus. Ou deuses. Isso aparece na narrativa, quando Maria João tenta tudo para acreditar em outras possibilidades menos visíveis. Batida só me parece ser um grito desesperado por ter fé. Por lembrar, a nós e a todxs, que a vida é finita. E diz : não senta para ver e esperar, faz acontecer!

Nós não somos uma coisa só. (Uma batida só?) Igual à personagem narradora. Ao mesmo tempo que ela afirma não acreditar, firma seus dedos no broche da sua vó. Tornando este um ato repetitivo em determinadas circunstâncias.

Não existe o binarismo. Acreditar ou não acreditar. Às vezes algumas partes do nosso corpo se autonomizam do nosso cérebro. Do nosso controle.

Tem um trecho muito particular no que a narradora, que trabalha como jornalista, conta que durante dois anos esteve na sessão de obituários do jornal onde trabalha : “Me irritavam os falecidos (…) cujas trajetórias não preenchiam os setecentos caracteres necessários para fechar a diagramação”. Para depois se perguntar se sua trajetória daria setecentos caracteres. Mais adiante vai falar que não tem a ver com ser uma pessoa bem-sucedida, “mas com ter agarrado a existência pelas orelhas. Ter beijado a existência na boca, chupado a sua saliva”.

(Comecei a escrever a coluna num papel de rascunho, como faço sempre, e ao virar a página, acabei de ver que estava lá um dos primeiros esboços do meu livro A saliva que umedece e tem um verso no que diz “chupar sua saliva”, só que no meu livro, refere-se à língua. Amo estas coincidências!)

Quero me despedir de 2025 desejando que todxs vocês todaes nós beijemos muito na boca da vida.

E que haja muitas batidas enfrentando as injustiças, como toc toc toc é a polícia federal, lembram?, quando um mês atrás prendia Bolsonaro.

Bora fazer da vida e das vidas um canto e uma dança coletiva, com muita rebeldia.

Estes são meus desejos para todas, todes, todis, todos e todus; um mundo no que caibam tantos mais mundos…

* Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato

Editado por: Marcelo Ferreira

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