Na semana passada, a feminiSta e jornalista Milly Lacombe voltou a Porto Alegre. No mês de novembro tinha estado, participando na Feira do Livro. Quando ela vem, se produz algo muito bonito entre amigas que vamos assisti-la.
(Aqui minha coluna do ano passado quando falei em feminiSmos e também escrevi sobre Milly.)
Eu queria entender o que é esse “muito bonito” que nos une ao redor dela, além de ser uma feminiSta ótima e ter uma energia pra cima, o que é vital nos dias que vivemos.
Durante a Feira do Livro, estava em Porto Alegre, uma amiga e companheira feminiSta de muitos anos e muitas lutas. Eu lhe disse Tu tens que conhecer a Milly! Ela ia ir ver o nosso pôr do sol e acabou trocando o espetáculo da natureza pela palestra feminiSta. Ao terminar, eu olhei para ela toda empolgadax e ela … não. Essa devolução me deixou pensando. O que a Milly está aportando para nós, além de informações feminiStas?
Concordo em certa forma com minha amiga, para nós não há muito de diferente no que ela traz, mas assim e tudo eu não perco suas falas. E isso não acontece com todo mundo.
Fiquei pensando em qual o ponto de sucesso nos encontros com Milly. Conversando com algumas amigas concordamos em que ela não apresenta coisas muito novas para nós, contudo, ela fala desde as bases do feminiSmo e organiza muito bem suas ideias, entrelaçando-as com outras lutas. Isto convida as pessoas que estão chegando a se somar. Ela é uma boa comunicadora e sua fala é sempre empolgante.
Uma das conclusões às quais cheguei é que nós fomos/somos separatistas, quer dizer, nos juntamos/juntávamos só entre mulheridades e falamos/falávamos para nós e entre nós. O que foi fundamental e continuo, em certa medida, a defender. Porém, Milly abre e fala e dialoga também com e para os homens. Algo que em outra época eu teria achado um absurdo e hoje, vendo o aumento de feminicídios, concordo. Precisamos de outras estratégias.
Fiquei pensando nisso e lembrei de nós, no passado. Com o grupo Mulheres Rebeldes fazíamos encontros para falar sobre a luta e ler textos, mas não era fácil encontrar um material que fosse didático e explicativo. Isto é muito importante, porque dá um piso e acolhe às recém-chegadas, tomando-as da mão e avançando todas juntaxs.
Eu me reconheço feminiSta desde que me conheço por gente. Desde muito antes de saber que essa rebeldia era uma luta já nomeada por outras. Desde a observação eu via coisas que me incomodavam. Se em casa, tanto minha mãe quanto meu progenitor trabalhavam, por que ele chegava, sentava na poltrona, cruzava as pernas e ficava lendo até a comida estar servida na mesa? Enquanto a mãe continuava com a segunda jornada: cozinhando, vendo se havia papel higiênico no banheiro e se havia papel para repor. Entenda-se, se as compras tinham sido feitas é porque ela as tinha organizado.
Ele não fazia (ideia de) nada.
Uma vez que sentávamos na mesa, com a janta que a mãe tinha preparado, o homem dizia : Cadê os guardanapos? E os olhos se dirigiam a mim ou a minha irmã. Eu respondia Ele que levante e pegue.
Então, gritos absurdos me mandavam ao meu quarto sem comer. Como eu ousava contrariar o patriarca? Nunca deixei de contrariar. Até me afastar de vez.
Esta atitude justa, que a sociedade chama de rebeldia, é também uma luta. Só que isolada. Quando se encontram, transformam-se em elos e aí que está a grande força do feminiSmo. Aí que está isso bonito que Milly produz em nós : um encontro.
Ao findar sua fala, o microfone foi aberto não só para perguntas, mas também para comentários. Uma mulher contou as peripécias pelas quais teve que passar para poder estar aí, nesse horário conosco, pois ela deixaria seus/suas filhxs com o marido, como já tinha sido combinado, mas agora, ele dizia que tinha que trabalhar e não seria possível. Como ela resolveu essa situação e esteve presente na conversa, foi uma faísca feminiSta. Quando umas ouvimos às outras e podemos nos reconhecer, nos incendiamos por dentro. Isto é fundamental e muito motivador.
Milly Lacombe possibilita que tuas causas justas se encontrem com as minhas, as delax/s, e juntas formem as de todaxs. Aí está o papel bonito que ela nos proporciona, um encontro de faíscas.
E os poucos homens que ali estavam presentes puderam ver esse fogo. Tomara que assumam a responsabilidade de levar ele, qual tocha, para os seus espaços. Eles não precisam vir e falar no microfone contando como eles são bons feministos, mas precisam nos ouvir e ocupar o seu lugar de fala no bar, com seus amigos, no trabalho, não sendo parte de piadas, mas cortando esses momentos. Assim eles podem ajudar a acabar com as violências.
Deixo também aqui, a poeta Nanda Barreto recitando um poema e mandando muito bem o verbo.
Quero finalizar dizendo que o feminiSmo não é só uma luta para acabar com as violências, mas é um encontro que nos deixa em chamas e esperançando. Esperançando e dançando.
*Na grafia, assim como com meu/minha/x corpa/x opto por não ter marcas rígidas de gênero, por isso utilizo ax. O a, visibiliza às mulheridades, mas também a luta de nossas ancestrais feminiStas que vieram antes e tanto lutaram pela visibilidade, e o x representa a pluralidade das dissidências, assim como a não binariedade e meu lugar de pessoa não CIS no mundo. Também a incógnita de porquê a sociedade deve estar separada entre sexos e gêneros. Desta forma, cada palavra terá a força de estarmos juntaxs.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

