Cada livro chega quando é a sua hora. Confirmo isso uma e outra vez. Tentar ler uma história e não conseguir avançar até que algo (me) acontece, e, depois, não poder me afastar até a última página.
Muitos anos atrás, eu queria muito ler “A paixão segundo GH”, de Clarice. Não podia, não conseguia avançar, não me concentrava, até o dia do arrebatamento. (Por que esse dia e não antes, faz parte dos mistérios da literatura.) Então, só pensava nele, falava dele e o levava junto na mochila a todas partes, porque a qualquer momento eu poderia ter uns minutos para sentar com Lispector.
Também me aconteceu com Conceição Evaristo. Anos atrás eu já amava muito ela quando abri pela primeira vez “Histórias de leves enganos e parecenças”. Eu me desconcentrava, algo não fluía. Até ouvir uma voz: “Para ler Conceição Evaristo, você primeiro tem que tirar os sapatos”. E foi esse o momento do arrebatamento. Anos depois, a vi em um Encontro Nacional do Mulherio das Letras e contei sobre esse momento mágico. Ela me olhava e ouvia muito atenta, enquanto segurava minha mão.
Faz tempo que queria sentar para ler Carolina Panta. Mas seus livros ainda não se abriam a mim. Na minha coluna de duas semanas atrás (que não gosto de chamar de última), escrevi sobre “Quando não couber mais, transborde”, livro de Camila Correia. Acho tão interessante quando enxergo elos invisíveis, presentes, piscando o olho para mim, dizendo que o caminho continua por aqui. Vejam que interessante a primeira frase do livro de Carolina: “Quando o que é de dentro transborda, …”
E foi então que aconteceu. Eu fui transbordada de uma forma absurda, como tinha certeza que aconteceria com o romance de Carolina, pelas histórias narradas por uma escritora jovem em idade, mas com uma escrita que chega com uma maturidade avassalante.
“Falso Lago” é um livro que mexe muito conosco, pessoas que somos e ou moramos em Porto Alegre. A autora aqui fala das águas e também as atravessa para nos levar às ilhas. Sim. Nossa cidade tem ilhas. Mas será que fazem parte, mesmo da cidade?
“Mas aqui é Porto Alegre” é uma frase que se repete ao longo das 172 páginas do livro. As ilhas alagam muito. “Falso Lago” foi escrito antes das enchentes, em 2023, mas já chega falando do volume das águas. Eu leio neste momento em que o medo de El Niño está muito presente, assim como nossos medos de que tudo se repita.
“A chuva de dentro quando vem bate na cara e leva o corpo ao chão. A gente deságua, desalma, desaba.”
É um livro de prosa poética, é um livro poético, psicológico, porto-alegrense. É uma leitura tão gostosa que muita gente descreveria como li em uma sentada, embora isto não aconteça comigo. Eu leio devagar e gosto de ir entrando aos poucos. Me dar o tempo de conhecer a Luciana, sua relação com o guri, como a maior parte do livro chama o filho que teve aos 20 anos. A proximidade com seu pai: “O velho sempre meio sem carinho, sem abraço, mas com uns cala-bocas acolhedores. Também me pegava no colo enquanto quem chorava era meu filho”. E as histórias que ele contava sobre Lucia, a mulher que tanto amou e mãe de Luciana, uma pessoa que não teve tempo “para essas coisas de tristeza”. Abrindo a porta do lar, já aparece a relação que tem com Claudia, uma mulher em situação de rua que passa as noites com sua cadela.
– Só uma moedinha, tia. Não é pra droga, é pra cachaça, por Aquele que nos amou.
Nas ilhas vamos conhecer a dona Lelé, que, já do início deixa claro que: “A gente sabe que lá na política tem mais ratazana que aqui nas ilhas”.
Também a Almerinda, que quando “apareceu em sorriso de bochechas murchas pela ausência de estrutura dentária”. Ela “vivia encastelada em seu monte de tudo sem que ninguém, vizinho ou enchente, chegasse às fronteiras de sua fortaleza de lixo a uma distância segura do rio”.
Está também Gisela, “uma mulher baixa e atarracada”, mais conhecida por dona barata/baratinha e todo derivado que descreva esse inseto nojento, acorde com sua personalidade, ações e pensamentos.
O livro de Carolina Panta poderia ser lido como uma premonição, ou como algo óbvio a acontecer com tantos governos que, não só ignoram a população das ilhas, mas que enriquecem às custas de quem menos tem.
A autora menciona um dos arroios importantes da cidade que levam o estranho nome de Dilúvio. “E com a tempestade quase caída logo ali, a perspectiva de um derramamento bíblico a castigar a humanidade de Porto Alegre era já fato consumado.”
“Falso Lago” ganhou o prêmio Açorianos, um dos mais importantes daqui. E Carolina Panta, traz as ilhas para perto de nós leitoras/es/xs.
Os livros são sábios e sabem quando chegar a nós. Em que momento se está pronta para recebê-los e, junto, atravessar as grandes águas.
Convite : para quem esteja na FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, terei a alegria de dividir uma mesa com Carolina. Pela primeira vez a Feira do Livro de Porto Alegre terá uma Casa parceira. A mesa leva o nome de Cartografias feministas : a escrita grande do sul e estaremos conversando eu, mariam pessah, junto com Carolina Panta e teremos a mediação de Ilana Lhen. Sexta-feira, 24, às 15h30.
*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

