Por Camila da Conceição Magalhães*
Usar a palavra “apresentando” é quase uma audácia de minha parte se tratando da personalidade já tão posta no mundo que é Mestra Rita Pavone, a zabumbeira da cidade de Mataraca, litoral norte da Paraíba.
Tive a honra de conhecê-la no ano de 2023, durante a primeira edição do Festival Garapirá – Encontro de Coco de Roda e Ciranda dos Indígenas Potiguara da Paraíba. Na ocasião, Rita participou da roda de conversa com anciães e anciões e nos contou um pouco sobre sua relação com o coco de roda.
“Eu quase nasci numa roda de coco, porque minha mãe era coquista velha. Entendeu? Agora eu não conheci os mestres da minha mãe. Então minha mãe comprou um zabumba pra mim, eu tinha seis anos de idade, comecei a tocar […]”, conta Mestra Rita Pavone, no documentário Garapirá, que foi filmado durante o primeiro festival e lançado em 2024.
Coquista é quem puxa o canto do coco de roda. Nessa parte, existe a pergunta vinda de quem puxa a toada e a resposta vinda do coro de brincantes ou dos tocadores.
“[…] Minha mãe morreu tinha 106 anos. Antes dela adoecer, ela ainda dançava um coco de roda que era uma beleza do mundo. Então, foi o livro que minha mãe me deu, foi isso que eu aprendi e continuo. E eu acho que vou morrer numa roda de coco, viu? Porque onde eu vejo um zabumba bater, eu corro as léguas atrás, só pra tocar o meu zabumba…”, disse Mestra Rita Pavone, no documentário Garapirá.
Filha de Dona Maria Francisca, Rita com a herança deixada por sua mãe trilhou seus primeiros passos no litoral norte paraibano. Nascida na Aldeia São Francisco, Baía da Traição (PB), carrega a identidade e a forma de tocar o “bombo” ou “zabumba”, característica do povo Potiguara, além de ser compositora.
Residente da cidade de Mataraca, logo ali na Barra de Camaratuba, integra o Coco de Roda Resgate a Cultura, coordenado e puxado por Dona Senhorinha, mais uma mestra coquista da região do litoral norte. No Coco da Barra de Camaratuba, Mestra Rita toca seu zabumba e também puxa toadas de coco.

Sempre é um momento ímpar encontrar com a Mestra Rita, tivemos um encontro na brincadeira de coco na cidade de Lucena (PB), em maio deste ano. Poucos dias depois desse encontro, ela me contou que fora convidada para mostrar sua forma de tocar zabumba no estado de Sergipe, na Ilha Grande.

É sabido do grande prestígio que Mestra Rita traz consigo, sendo convidada frequentemente para brincadeiras de coco de roda dentro e fora do estado da Paraíba, este ano foi homenageada no Carnaval de João Pessoa, no bloco As Calungas.

No Festival Garapirá, desde a primeira edição, o sucesso de Mestra Rita Pavone tornou-se indiscutível. Trazendo o abrilhantamento da brincadeira, majoritariamente dominada por homens.

Neste momento, os olhos se voltam para o protagonismo feminino das Mulheres Zabumbeiras, desde as experiências do grupo sazonal formado pelas mestras: Zezinha da Aldeia Cumaru, Mestra Xoxa da Aldeia Tracoeira, Mestra Marilene Lourenço, Mestra Dorinha da Aldeia Alto do Tambá, Mestra Rita Pavone da Barra de Camaratuba e outras mais que chegam somando à brincadeira.

É sempre importante dar destaque a essas vozes que somam tão fortemente na sustentação e continuidade da brincadeira. Mestra Rita é sem sombra de dúvidas uma inspiração, para mim e para tantas outras. Meninas, mulheres que veem na brincadeira um lugar de expressão da arte que se entrecruza com a vida cotidiana na cadência regida pelo pulsar da zabumba e da pisada dos pés.
Deixo como indicação para vocês o documentário Garapirá, em que podem ver um pouco da graciosidade que é Mestra Rita. Além de poderem fazer uma pequena imersão neste universo que lhes apresento aqui. O documentário pode ser acessado neste link.
*Camila da Conceição Magalhães é brincante e pesquisadora da cultura popular, graduanda do curso de antropologia com habilitação em antropologia visual na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Atualmente é extensionista bolsista no projeto Cocam.
**Este texto faz parte de uma série de artigos que terão como protagonistas mestras do coco Potiguara. Leia o primeiro artigo aqui.
***A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

