Judite Sanson de Bem e Moisés Waissmann*
A história das civilizações demonstra que a cultura nunca foi um adorno, mas o eixo central do dinamismo social. Da estética greco-romana ao mecenato renascentista da família Médici, as produções artísticas moldaram épocas. Contudo, no século 21, a economia clássica ainda falha em capturar a magnitude desse setor. É preciso dar um salto qualitativo no debate: a cultura não é apenas “gasto”, é investimento estratégico com alto poder multiplicador.
De acordo com a economista italiana Mariana Mazzucato (professora de Economia da Inovação e Valor Público no University College London, UCL), em recente visita ao Brasil, a cultura é capaz de gerar mais renda e PIB do que ramos tradicionais da economia. Enquanto o setor de automóveis e caminhões possui um impacto multiplicador de R$ 3,76 para cada real investido, a cultura devolve R$ 7,59 à sociedade em emprego e renda.
Mazzucato aponta que festas populares, como o Carnaval, funcionam como um “microcosmo” da economia criativa Embora o evento seja sazonal, ele mobiliza uma cadeia permanente de produção cultural, design, turismo e serviços que operam durante todo o ano.
Ao refletirmos sobre o município de Porto Alegre, cabe a pergunta: a cidade tem realizado seu dever de casa de forma equânime? A Secretaria Municipal da Cultura (SMC) atua em eixos consolidados como a Feira do Livro e o Porto Alegre em Cena, mas o investimento parece muitas vezes concentrado em circuitos que atendem às classes mais favorecidas.
Entretanto, um novo dinamismo surge em territórios historicamente negligenciados. A Zona Norte da capital concentra hoje equipamentos vitais, como o pioneiro Museu da Cultura Hip Hop RS na Vila Ipiranga, o Sesc Protásio Alves e o Teatro do Bourbon Country. Esse deslocamento do eixo cultural é fundamental para democratizar o acesso e fomentar a economia local.
Porto Alegre possui festas de grande mobilização popular, como a Festa de Nossa Senhora dos Navegantes e o Carnaval no Complexo Cultural do Porto Seco (Zona Norte). Mais recentemente, o crescimento dos blocos de rua na Cidade Baixa gerou um fluxo expressivo para o setor de alimentos e bebidas.
É neste ponto que a economia tradicional falha: no dinamismo do trabalhador informal. O ambulante que comercializa o cachorro-quente, o churros e o “churrasquinho” é peça essencial dessa engrenagem. Embora não esteja plenamente contabilizado no PIB oficial, ele representa o sustento de milhares de famílias e é o elo final de uma cadeia de consumo que a cultura ativa.
Para que Porto Alegre alcance o potencial apontado por Mazzucato, o investimento cultural deve ser visto sob a lente da gestão e política pública. Isso exige: integrar o microempreendedor e o ambulante nas políticas de fomento cultural; fortalecer equipamentos como o Museu do Hip Hop e centros culturais nos bairros, retirando a cultura do “congelador” do centro histórico; tratar o Carnaval e as festas religiosas não como datas isoladas, mas como indústrias criativas permanentes que demandam qualificação e infraestrutura constante.
Investir em cultura em Porto Alegre é, comprovadamente, investir no aumento do bem-estar de toda a comunidade. O retorno de R$ 7,59 não é apenas um número; é a possibilidade de transformar a motricidade econômica da capital gaúcha através da sua própria identidade.
*Economistas e pesquisadores do Observatório das Metrópoles – Núcleo Porto Alegre.
**Este artigo está sendo publicado como homenagem póstuma à professora Judite Sanson de Bem, recentemente falecida. Graduada em Ciências Econômicas pela UFRGS (1985) e doutora em História Ibero-Americana pela PUCRS (2001). Foi professora de graduação e pós-graduação na Universidade La Salle (UNILASALLE) em Canoas (RS) entre 2002 e 2024 e pesquisadora do Observatório das Metrópoles.
***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

