Por Bráulio Figueiredo
Entre em qualquer grande plataforma digital e você vai encontrar coisas muito diferentes acontecendo ao mesmo tempo. Em um grupo, pessoas trocam receitas, debatem sobre interpretação de um livro ou agem no sentido de se ajudarem a resolver problemas do dia a dia. Em outro, na mesma rede, sob as mesmas regras técnicas, encontramos usuários se organizando para cometer golpes, coordenar ataques coletivos ou negociar dados roubados como quem negocia peças usadas.
A tecnologia é a mesma. O algoritmo é o mesmo. Mas o resultado social é radicalmente distinto. Essa constatação simples esconde uma pergunta que a criminologia do ciberespaço, até aqui, respondeu parcialmente.
Por muito tempo, o debate sobre crime digital girou em torno de duas explicações: por um lado, a ideia de que a internet, por sua própria arquitetura (anonimato, alcance, ausência de fronteiras), cria oportunidades para o crime que simplesmente não existiam antes (crimes ciberdependentes). De outro, a ideia de que tudo se resume ao indivíduo: certos indivíduos encontram, na tela, um instrumento a mais para cometer um crime ou desvio que já fariam de qualquer forma (crimes ciberfacilitados).
Mas essa também é uma falsa escolha.
Nenhuma das duas explicações dá conta de um fato incômodo: comunidades que compartilham a mesma plataforma, o mesmo desenho técnico e até um público parecido podem desenvolver destinos completamente diferentes. Um fórum vira reduto de fraude organizada; outro, dedicado ao mesmo assunto, desenvolve reputação, confiança e mecanismos próprios de autorregulação. Um canal se transforma em vitrine de discurso de ódio; um grupo vizinho, sob as mesmas regras da plataforma, consegue conter e isolar esse tipo de comportamento. Por que isso acontece?
A resposta, ao que tudo indica, não está apenas na tecnologia nem apenas nas pessoas. Está na forma como essas comunidades se organizam enquanto coletivos, uma perspectiva que a sociologia urbana já vinha estudando muito antes de a internet existir.
Há quase um século, pesquisadores da Escola de Sociologia de Chicago observaram algo curioso ao mapear a criminalidade na cidade. Certos bairros mantinham índices altos de delinquência ano após ano, mesmo quando a população que ali morava mudava completamente. Apesar do turnover populacional, o problema persistia.
A conclusão foi decisiva para toda a criminologia que veio depois: o crime não estava ligado ao caráter de quem morava ali, mas à capacidade daquela comunidade de se organizar, criar laços de confiança e agir coletivamente diante de problemas comuns.
Bairros com pouca estabilidade, pouca coesão e pouca capacidade de ação conjunta (i.e. baixa Eficácia Coletiva) tendiam a concentrar mais crimes, fundamentalmente, porque tinham menos condições de se autorregular.
Essa ideia parece, à primeira vista, presa às condições físicas da cidade, ou seja, à sua estrutura urbana. Mas o que realmente importava nela nunca foi o seu formato, propriamente dito. Ao contrário, era a relação entre a forma como um grupo se organiza no espaço e sua capacidade de produzir normas, confiança e controle social. Retirado esse pressuposto do contexto da cidade industrial, ele se torna surpreendentemente útil para pensar comunidades digitais.
Comunidades digitais
Fóruns, servidores, grupos e canais funcionam, nos termos da ecologia humana, como pequenos “bairros virtuais”, ou “hot spots” cibernéticos. Alguns são estáveis, com membros que permanecem ao longo do tempo, acumulam reputação e desenvolvem regras compartilhadas.
Outros têm alta rotatividade, perfis descartáveis e vínculos frágeis, o que dificulta a formação de confiança e, paradoxalmente, tanto pode inibir quanto favorecer comportamentos problemáticos, dependendo de outros fatores em jogo. Alguns contam com moderação ativa e mecanismos claros de denúncia; outros são geridos de forma frouxa, quando são geridos.
E aqui está um ponto que costuma escapar ao senso comum: nem sempre o problema é a ausência de organização. Muitas comunidades ligadas a fraudes, mercados ilícitos ou discurso de ódio são, na verdade, extremamente bem organizadas. Contam com sistemas de reputação sofisticados, regras claras, hierarquias definidas e forte identidade de grupo. O que as torna nocivas não é a desordem, mas a direção para a qual essa ordem aponta.
Elas resolveram, com eficiência, o problema de cooperar entre si; só que cooperam para produzir dano ou crime.
Essa distinção muda a forma de enfrentar o problema. Se a explicação fosse puramente tecnológica, bastaria mexer no algoritmo. Se fosse puramente individual, bastaria perseguir e punir cada infrator.
Mas se o que está em jogo é a ecologia da comunidade, ou seja, sua estabilidade, suas normas, sua capacidade de agir coletivamente e a governança que a plataforma oferece, então enfrentar o problema exige outra coisa: entender como cada ambiente digital se organiza enquanto coletivo, e não apenas quem está nele ou que ferramentas oferece.
Plataformas e políticas públicas que tratam todo o ciberespaço como um bloco único perdem exatamente essa variação. Tratam bairros digitais muito diferentes com a mesma régua, ignorando que alguns precisam de mais estabilidade e confiança para funcionar bem, enquanto outros já desenvolveram, sozinhos, uma organização eficiente demais: a serviço do crime.
Talvez seja hora de parar de perguntar apenas se a internet é perigosa ou se seus usuários possuem más intenções. A pergunta mais produtiva é outra: que tipo de comunidade estamos deixando se formar em cada “esquina” da rede? E, ainda, quem, de fato, está cuidando desses bairros que não têm rua, mas têm, sim, vizinhança?
Bráulio Figueiredo é professor do Departamento de Sociologia da UFMG, diretor do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (CRISP) da UFMG e pesquisador do Núcleo RMBH do Observatório das Metrópoles.
Pesquisa realizada com apoio da FAPEMIG (APQ-02174-25)
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Leia outros artigos sobre cidades e desenvolvimento urbano na coluna Observatório das Metrópoles no Brasil de Fato.
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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

