A International Conference on Psychedelic Research (ICPR), realizada entre os dias 4 e 6 de junho em Haarlem, na Holanda, é considerada pelo campo psicodélico um dos principais encontros científicos europeus dedicados à pesquisa psicodélica. Organizada pela OPEN Foundation, a conferência reúne pesquisadores, psiquiatras, psicólogos, investidores, formuladores de políticas públicas e representantes da indústria para discutir os rumos de um setor que, nos últimos anos, saiu das margens da ciência para ocupar espaço crescente nas agendas de saúde mental, inovação biomédica e desenvolvimento econômico.
A edição de 2026 teve como pano de fundo um momento de transição. Depois da frustração regulatória envolvendo a não aprovação da terapia assistida por MDMA para transtorno de estresse pós-traumático nos Estados Unidos, parte importante do movimento passou a adotar um discurso de amadurecimento, cautela e responsabilidade. Termos como rigor científico, segurança, formação profissional, acesso e sustentabilidade apareceram repetidamente ao longo da programação, de acordo com fontes presentes no evento.
Mas uma das discussões mais relevantes do encontro não aconteceu apenas nos palcos principais nem se restringiu aos debates clínicos. Ela surgiu justamente a partir da presença da maior delegação indígena já recebida pelo evento.
A participação foi articulada pela Psychedelic Parenthood Community (PPC) e reuniu a médica indígena Adana Kambeba, o líder indígena Buu Kennedy, do povo Tukano, a liderança indígena Álvaro Tukano, além do pesquisador brasileiro Glauber Loures e outros apoiadores do Sul Global. Em um espaço historicamente dominado por universidades, centros de pesquisa e empresas de biotecnologia, o grupo levou para o centro do debate questões relacionadas à ancestralidade, territorialidade, ética e justiça epistêmica.
Segundo Adana, “a presença indígena no ICPR foi fundamental para fortalecer a confluência de saberes entre a ciência ancestral dos povos originários e a ciência ocidental”. De acordo com a médica, esse encontro cria condições para o exercício daquilo que define como diplomacia cósmica, uma prática voltada à construção de pontes entre diferentes formas de conhecimento, de cuidado e de relação com o mundo.
A fala de Adana trouxe um tema que ainda aparece de forma periférica em muitos espaços internacionais dedicados aos psicodélicos. Embora grande parte do interesse contemporâneo por substâncias como a ayahuasca tenha origem em tradições preservadas por povos indígenas, esses mesmos povos continuam frequentemente ausentes dos espaços onde são tomadas decisões sobre pesquisa, regulamentação, propriedade intelectual e desenvolvimento de produtos.
Segundo Adana, “é importante que o campo psicodélico, historicamente marcado pela academia e pela indústria farmacêutica, reconheça que os conhecimentos indígenas contribuíram de maneira essencial para a existência e o desenvolvimento desse movimento”. Para ela, os povos originários também precisam participar dos debates e dos caminhos que estão sendo construídos para o futuro desse campo.
Práticas coletivas, cantos, danças, rituais e formas de convivência como processos de cuidado
A intervenção de Buu Kennedy seguiu direção semelhante, mas a partir de uma perspectiva comunitária. Durante as atividades, ele apresentou elementos dos sistemas indígenas de cuidado e chamou atenção para aspectos que frequentemente desaparecem quando as medicinas tradicionais indígenas são traduzidas para modelos clínicos ocidentais.
Segundo Buu, não é possível compreender processos de cura apenas pela ação química de uma substância. Segundo a liderança espiritual, práticas coletivas, cantos, danças, rituais e formas de convivência constituem parte inseparável dos resultados observados nas comunidades indígenas.

Em sua participação, destacou que “não existe cura individual”, enfatizando a importância das experiências coletivas para a saúde das pessoas e dos territórios. Também abordou a necessidade de preservar a relação entre essas práticas e os contextos culturais que lhes dão sentido.
Outro tema levantado por Buu foi a ausência de consulta aos povos indígenas em pesquisas que utilizam conhecimentos tradicionais. Segundo ele, apesar da existência de instrumentos legais que reconhecem esse direito, muitas investigações continuam sendo desenvolvidas sem diálogo adequado com as comunidades envolvidas.
A ideia de diplomacia cósmica voltou a aparecer em sua fala como uma proposta de construção de pontes entre diferentes setores. Segundo Buu, o objetivo não é criar antagonismos entre ciência e tradição, mas promover redes de diálogo capazes de produzir benefícios concretos para a humanidade e para o planeta.
Para Glauber Loures, pesquisador brasileiro que participou da organização da delegação, a presença indígena teve impacto justamente por questionar algumas das premissas que vêm orientando a expansão global do setor psicodélico.
Segundo o sociólogo, “uma verdadeira mudança de paradigma, ela vem por outros caminhos”. Loures argumenta que não é possível falar em transformação profunda quando a principal proposta continua sendo reproduzir modelos biomédicos já consolidados, apenas substituindo medicamentos antigos por novas substâncias.
De acordo com o pesquisador, o desafio atual passa pela construção de um diálogo entre sistemas distintos de conhecimento. Glauber afirma que “é necessário acabar com a monocultura do pensamento e mudar as hierarquias de saber”, criando condições para que conhecimentos indígenas, tradicionais e biomédicos possam coexistir sem que um seja automaticamente considerado superior ao outro.
Substância não substituem sistemas de conhecimento
Essa reflexão apareceu com força durante o simpósio dedicado à confluência psicodélica e no painel sobre políticas relacionadas às bioculturas. Em ambos os espaços, os participantes discutiram os limites da transformação de conhecimentos tradicionais em produtos farmacêuticos desvinculados de seus contextos culturais.
Segundo Loures, uma das mensagens centrais apresentadas durante o evento foi que uma formulação farmacêutica derivada da ayahuasca não substitui os sistemas de conhecimento, os processos comunitários e os elementos culturais que historicamente acompanham seu uso.
A discussão dialoga diretamente com uma das tensões mais importantes do campo atualmente. Ao mesmo tempo em que cresce o interesse científico e clínico pelos psicodélicos, também aumentam os investimentos privados, as disputas por propriedade intelectual e a busca por modelos de negócio escaláveis.
Nesse cenário, a presença indígena funcionou como um lembrete de que a discussão não se resume à eficácia terapêutica ou à aprovação regulatória. Ela envolve também questões relacionadas à origem dos conhecimentos, à distribuição de benefícios, ao reconhecimento de autoria e à participação efetiva dos povos que historicamente preservaram essas práticas.
A edição de 2026 do evento mostrou que algumas das perguntas mais importantes do campo também vêm das florestas, dos territórios indígenas e das comunidades que há gerações desenvolvem formas próprias de compreender saúde, cuidado e transformação.
Fórum Mundial da Ayahuasca
Esse diálogo terá continuidade em setembro, em Girona, na Espanha, durante o Fórum Mundial da Ayahuasca, encontro internacional do qual faço parte da equipe de comunicação e que reunirá diversas lideranças indígenas, pesquisadores e representantes da sociedade civil. Entre eles estarão também integrantes da delegação que participou do ICPR que trabalham diretamente ou indiretamente comigo na construção do Fórum.
Em um momento em que o campo psicodélico busca definir sua identidade para as próximas décadas, a questão central permanece aberta: será possível construir o futuro dessas medicinas sem aqueles que ajudaram a mantê-las vivas até aqui?
Eu já ouso responder: não!
*Caroline Apple é jornalista há quase 20 anos, com passagem por alguns dos principais veículos do país. Sua trajetória é marcada pela cobertura de temas ligados à política e aos Direitos Humanos, com ênfase nos últimos 10 anos na causa indígena e nas disputas culturais, políticas e simbólicas em torno das bioculturas e dos psicodélicos. É uma das primeiras jornalistas no Brasil a se especializar na cobertura da cannabis para fins medicinais.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

