O governo dos EUA lança mensagens de desolação e morte contra o povo cubano. Em 29 de janeiro, Donald Trump emitiu uma Ordem Executiva intitulada “Abordando as ameaças contra os Estados Unidos por parte do governo de Cuba” que, entre outras coisas, declara: “Considero que as políticas, práticas e ações do governo de Cuba ameaçam diretamente a segurança nacional e a política externa dos Estados Unidos”.
Tal declaração ultrapassa o absurdo. Como uma ilha de apenas 10 milhões de habitantes, que sofreu um cerco econômico de mais de 60 anos, pode ser uma ameaça para a primeira potência militar, que ainda possui armas nucleares, sendo também a única que as utilizou?
Materialmente, Cuba não é uma ameaça para Washington; moralmente, talvez. Os impérios não perdoam aqueles que cometem o crime da insubmissão, aqueles que não se submetem. Nossas armas são a moral e a resiliência.
Não é a primeira vez na sua história que a Maior das Antilhas fica sem combustível devido às ações dos Estados Unidos, mas sobreviveu e superou carências incríveis.
A ordem draconiana provocará fome, escassez e morte, paralisará o transporte, apagará os lares dos cubanos, é dirigida contra os idosos e as crianças, contra os doentes, sem dúvidas provocará muito sofrimento, mas não alcançará seus objetivos de dominar Cuba.
No ano 416 A.N.E., os enviados do império mais poderoso do mundo egeu sentaram-se diante dos magistrados de uma pequena ilha. Na austera privacidade de uma sala e sem discursos floreados, os atenienses tiraram a máscara para expor a lei que, segundo eles, rege a ordem do mundo: “Os fortes dominam os fracos”.
O relato desse encontro, o Diálogo dos Melios, imortalizado pelo historiador Tucídides, não é apenas uma página trágica da Guerra do Peloponeso, mas reflete um padrão que se repetiu, com diferentes formas, ao longo dos séculos até os dias atuais.
Naquela época, Atenas, em plena guerra contra Esparta, exigiu submissão e tributos dos melianos, que apelaram para a justiça, para os deuses e para o seu direito de serem livres. No entanto, a ilha resistiu e foi destruída: os homens foram executados e mulheres e crianças, escravizadas. Foi uma mensagem clara para qualquer um que ousasse desobedecer.
O que aconteceu em Melos não é uma anomalia, mas um arquétipo da ação imperial repetido na história, vários exemplos ilustram essa realidade, em Cartago, 146 A.C.: Roma não se contentou em vencer seu rival. Após um cerco feroz, a cidade foi destruída, sua população escravizada e sua terra semeada com sal.
Durante a Conquista da América, Hernán Cortés, diante da negativa do Império Asteca em se submeter, utilizou o terror – como no Massacre do Templo Maior – para subjugar toda uma civilização.
Em Hiroshima e Nagasaki, o lançamento das bombas atômicas teve como objetivo realizar uma demonstração de poder absoluto. Era uma mensagem dirigida ao Japão, mas também à União Soviética e ao mundo: os Estados Unidos possuíam um poder destrutivo sem igual e a vontade de usá-lo.
A “Lógica Meliana” não carece de exemplos contemporâneos; pelo contrário, Vietnã, Iraque, Afeganistão, Palestina e Venezuela são provas de sua vigência. Até mesmo as ameaças de se apoderar da Groenlândia, ou as pressões contra Cuba e outras nações soberanas, refletem esse espírito.
Isso significa que a história é apenas um ciclo inevitável de imposição do forte sobre o fraco? Essa forma de ver o mundo sempre termina com a derrota dos impérios; o próprio Tucídides narrou a queda final de Atenas, anos depois, sugerindo que a “hybris” (a desmedida) sempre semeia sua própria ruína.
Para os émulos de Tânatos, o objetivo é claro: transformar Cuba em uma Numância moderna. Para a Ilha, esse cerco não é novo. Convencidos do apoio majoritário do povo à Revolução, desde seus primórdios os Estados Unidos se dedicaram a minar os alicerces do novo poder e a induzir a rebelião.
A atual administração republicana recorreu a uma narrativa incendiária, assegurando que “entrar e destruir” é, provavelmente, a única opção que lhe resta sobre a mesa.
Assim, o secretário de Estado, Marco Rubio, lançou um ultimato político a Havana: ou a liderança cubana muda seu sistema e se submete ao que ele denomina uma “economia real”, ou enfrentará um aprofundamento do cerco e uma pressão sem precedentes sobre a Ilha.
Por outro lado, qualificar e manter a nação antillana como Estado patrocinador do terrorismo provoca que “instituições bancárias e financeiras de todo o mundo sejam intimidadas e sancionadas sob o manto dessa acusação falsa, o que priva a nação de créditos imprescindíveis”.
No contexto latino-americano, a estratégia extrapola as relações comerciais, para um terreno em que as ameaças se traduzem em medidas coercitivas que aumentam as tensões internacionais. E busca isolar e enfraquecer os governos não alinhados com a Casa Branca, aqueles que incorporam modelos alternativos de desenvolvimento político e social, evidenciando uma nova escalada da velha doutrina intervencionista dos Estados Unidos.
O chamado à unidade, à solidariedade e à resistência política não poderia ser mais claro nem urgente. A América Latina deve fortalecer sua integração soberana contra esses ataques, que buscam relegá-la a meras peças no tabuleiro de jogo das lutas geopolíticas globais.
* Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

