Raúl Antonio Capote

Mestre em Relações Internacionais e História Contemporânea, escritor e jornalista do Granma Internacional. Também é professor de História de Cuba da Universidade de Ciências Pedagógicas de Havana, foi durante anos o agente Daniel dos serviços de inteligência cubana. O jornalista é autor de vários artigos e dos livros “El caballero ilustrado” (novela), “Juego de Iluminaciones” (contos), “El adversario” (novela) e “Enemigo” (testemunho), também publicado no Brasil com o título “Inimigo: A guerra da CIA contra a juventude cubana”.

A era da pós-verdade: a dúvida como arma de manipulação em massa

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A expansão acelerada da Inteligência Artificial no mundo do trabalho
A expansão acelerada da Inteligência Artificial no mundo do trabalho | Crédito: Freepik/Imagem ilustrativa

O desafio da nossa sociedade não é apenas distinguir o verdadeiro do falso

Poucas estratégias são tão sutis e, ao mesmo tempo, tão eficazes quanto a fabricação sistemática da dúvida. Longe de ser um subproduto acidental da complexa era da informação, a dúvida tornou-se um produto fabricado em laboratórios de Relações Públicas e think tanks, com um objetivo muito claro: paralisar a ação e minar a confiança.

Um olhar sobre o universo informativo dos dias de hoje nos permite perceber o uso massivo dessa ferramenta contra Cuba e a Venezuela, sobretudo nas redes sociais, com todo o seu poder de vício.

Quando falamos em “fabricar a dúvida”, não nos referimos ao ceticismo saudável, aquele motor do pensamento crítico que nos impulsiona a questionar e investigar mais. Falamos da desconfiança induzida, que busca equiparar, na mente do público, um fato comprovado a uma mera opinião.

A ciência não é um conjunto de dogmas imutáveis; ela é cautelosa e trabalha com graus de probabilidade e margens de erro. Os “fabricantes de dúvida” exploram essa característica. Eles pegam um pequeno debate entre especialistas sobre um detalhe específico e o ampliam até fazer parecer um colapso total do consenso.

Outro elemento é a criação de falsos especialistas, ou seja, a arte de dar voz a elementos marginais que contradizem um consenso majoritário. A eles são concedidas as mesmas honras e o mesmo tempo de exposição que aos especialistas reais, criando uma falsa percepção de equilíbrio jornalístico.

A isso se soma a seleção tendenciosa de dados (cherry picking): retira-se do contexto um dado isolado que parece contradizer as evidências esmagadoras e o apresenta-se como a prova definitiva que desmonta toda a estrutura científica.

Por outro lado, apela-se à emoção e à identidade; a mensagem raramente apela à razão, mas sim às emoções e à identidade cultural ou política.

A estratégia é simples: “Eles, o governo, querem enganar você ou controlá-lo. Nós lhe damos a liberdade de duvidar”. Dessa forma, aceitar as evidências se torna um ato de submissão a um poder corrupto, enquanto duvidar se transforma em um ato de rebeldia. A dúvida já não é sobre o fato em si, mas sobre a autoridade que o apresenta.

Qual é o resultado final? Se você conseguir que uma população duvide da integridade de um sistema eleitoral, você deslegitimará seus resultados; se ela duvidar da lealdade e da transparência de um governo, não o apoiará. O objetivo não é que as pessoas acreditem em uma mentira alternativa, mas que simplesmente deixem de acreditar em qualquer verdade.

Uma manchete que semeia incertezas sobre um consenso político vende mais do que uma que o reafirma. Referimo-nos, em essência, à ferramenta ideal para desmantelar os consensos sobre os quais se constroem as políticas públicas e a confiança interpessoal.

O desafio da nossa sociedade não é apenas distinguir o verdadeiro do falso, mas entender como e por que se constrói a desconfiança, que nos impede de agir coletivamente diante dos grandes desafios do nosso tempo.

*Fonte: Merchants of Doubt (2010), de Naomi Oreskes e Erik M. Conway. Revista Science (2023).

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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