Rede de Sementes do Cerrado (RSC)

A Rede de Sementes do Cerrado (RSC) é uma associação civil, sem fins lucrativos, cuja missão é conectar os elos da restauração ecológica, com protagonismo das comunidades na conservação do Cerrado.

O Cerrado no centro do debate nacional sobre restauração ecológica

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UnB recebe 6ª Conferência Brasileira de Restauração Ecológica
UnB recebe 6ª Conferência Brasileira de Restauração Ecológica | Crédito: Luana Santa Brigida/RSC

Bioma abriga nascentes de importantes bacias hidrográficas da América do Sul e concentra uma riqueza biológica e cultural incomparável

Quem acompanha esta coluna no Brasil de Fato DF já deve ter percebido que insistimos em uma ideia: restaurar não é apenas recuperar áreas degradadas. É garantir água, enfrentar a crise climática, fortalecer economias locais e reconhecer o protagonismo das pessoas que, há gerações, cuidam dos territórios. Repetimos isso porque a restauração ecológica deixou de ser apenas uma pauta ambiental. Hoje, ela também é uma agenda de desenvolvimento social, inclusão e justiça climática.

É justamente essa compreensão que faz do Cerrado o palco do maior encontro brasileiro dedicado ao tema: a 6ª Conferência Brasileira de Restauração Ecológica (SOBRE2026). Entre os dias 27 e 31 de julho, a Universidade de Brasília (UnB) reunirá pesquisadores, representantes do poder público, organizações da sociedade civil, empresas, povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e outros atores comprometidos com a construção de uma agenda de restauração mais inclusiva.

Mais do que sediar um grande evento, Brasília coloca o Cerrado no centro de um debate estratégico para o futuro do país.

A escolha da capital federal não é casual. Localizada no coração do Cerrado, Brasília está no bioma que abriga as nascentes de importantes bacias hidrográficas da América do Sul, regula o clima, sustenta parte significativa da produção agrícola brasileira e concentra uma riqueza biológica e cultural incomparável. Restaurar o Cerrado não interessa apenas a quem vive nele. É uma necessidade para todo o Brasil.

Mas talvez a principal mensagem da SOBRE2026 não esteja apenas no local onde ela acontece. Está na forma como o próprio conceito de restauração vem evoluindo.

Durante muito tempo, restaurar significava, quase exclusivamente, recuperar áreas degradadas por meio de técnicas ecológicas. Hoje, esse entendimento é mais amplo. Restaurar também significa gerar trabalho e renda, fortalecer economias locais, ampliar oportunidades e reconhecer o papel de povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares, coletores de sementes, viveiristas e restauradores populares. Afinal, não basta restaurar paisagens; é preciso restaurar oportunidades.

Essa visão está refletida no tema da conferência: “Inclusão e justiça climática” e também aparece de forma concreta em sua programação. Pela primeira vez, a conferência conta com uma Comissão de Diversidade e Inclusão, que participou da construção do evento com o objetivo de ampliar a presença de mulheres, jovens e lideranças comunitárias. O espaço Vozes da Restauração reunirá diferentes formas de conhecimento para mostrar que ciência e saberes tradicionais não competem entre si. Pelo contrário, são complementares e indispensáveis para enfrentar a crise climática. 

A própria presidência da SOBRE2026 simboliza essa mudança de perspectiva. Ter duas mulheres à frente da conferência, sendo uma delas uma liderança geraizeira do Cerrado, representa um avanço importante para a restauração ecológica brasileira. Mais do que ampliar a representatividade, essa escolha reconhece que quem protege os territórios há gerações também deve ocupar os espaços onde são construídas as políticas e tomadas as decisões sobre seu futuro.

Essa agenda dialoga diretamente com os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil no âmbito da Década da Restauração de Ecossistemas das Nações Unidas, mas também responde a um desafio interno: construir um modelo de desenvolvimento capaz de conciliar conservação da biodiversidade, produção, inclusão social e adaptação às mudanças climáticas. 

Vale lembrar que o Cerrado já oferece exemplos concretos desse caminho. Redes de coletores de sementes nativas, viveiros comunitários, agricultores familiares, pesquisadores e organizações da sociedade civil demonstram diariamente que é possível restaurar paisagens enquanto geram renda, autonomia e valorização dos conhecimentos locais.

É assim que a justiça climática deixa de ser apenas um conceito e passa a fazer parte da realidade dos territórios.

É importante ressaltar que, ao final da conferência, será elaborado um documento com recomendações para fortalecer políticas públicas e orientar investimentos na economia da restauração. Esse será um resultado importante. Mas talvez o principal legado da SOBRE2026 seja outro: reafirmar que o futuro da restauração ecológica brasileira será construído pela união entre ciência, políticas públicas e os conhecimentos de quem vive e cuida dos territórios.

Colocar o Cerrado no centro desse debate é reconhecer que não haverá enfrentamento da crise climática sem proteger o coração das águas do Brasil. E que não haverá restauração verdadeiramente transformadora sem inclusão, diversidade e justiça social.

*Maria Antônia Perdigão é jornalista, mestre em Comunicação Social e consultora em comunicação socioambiental. Atualmente, atua como gestora  de comunicação da Rede de Sementes do Cerrado (RSC).

*Fabrícia Santarem é uma jovem liderança geraizeira do território Alto Rio Pardo, no Norte de Minas Gerais, vice presidente da COOCREARP, Coordenadora daa Araticum – Articulação pela Restauração do Cerrado, integrante do Comitê Gestor do Redario e da  Rede de Coletores Geraizeiros. É co-presidenta da SOBRE2026.

*Anabele Gomes é bióloga, mestre e doutora em botânica, servidora do Departamento de Botânica da Universidade de Brasília, Presidente da Rede de Sementes do Cerrado e co-presidenta da SOBRE2026.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato DF.


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Editado por: Clivia Mesquita

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