Este texto propõe uma reflexão sobre o atual momento político e administrativo de Campina Grande. Trata-se de uma crítica de natureza política aos problemas enfrentados pela conjuntura campinense. Não se configura, de forma alguma, como uma crítica à pessoa do prefeito, mas sim ao agente político eleito por meio do voto direto, que, em uma democracia, deve reconhecer a legitimidade das críticas e das insatisfações, bem como a necessidade do diálogo diante das divergências.
A gestão do prefeito Bruno Cunha Lima figura entre as piores já vividas por Campina Grande. Eleito em 2020 com o discurso de um liberal moderno, defensor de um governo austero, eficiente e com foco em mobilidade humana, o que se vê, ao entrar no sexto ano de mandato, é exatamente o oposto: uma administração centralizadora, desorganizada, sem diálogo interno e marcada pela permanência de secretários interinos em áreas estratégicas.
O prefeito adota uma postura intermitente, desaparecendo em momentos críticos e reaparecendo como se nada tivesse acontecido, tratando a cidade como se estivesse às mil maravilhas. Quando os problemas surgem, a responsabilidade é sempre transferida para terceiros, nunca para sua própria gestão.
A situação da saúde pública é um dos exemplos mais evidentes do colapso administrativo. Em uma área vital das políticas públicas, responsável por garantir a vida das pessoas, o que predomina é o caos, o adiamento constante de soluções e a ausência de respostas concretas. Vive-se sob o governo do improviso e do “deixa para depois”. Promessas se repetem há anos, sempre acompanhadas de anúncios de que “boas notícias estão próximas”, mas o dia da solução nunca chega.
Vale lembrar que Campina Grande é gestão plena na saúde e recebe rigorosamente em dia os repasses financeiros do SUS por parte do governo federal. Então, como explicar o tamanho do caos na saúde campinense?
Fala-se do VLT, mas nem o plano de mobilidade foi executado, nem o sistema de ônibus foi melhorado ou implantado um novo modelo. Seguimos com um transporte público de péssima qualidade.
Mas essa parece ser a marca dessa gestão: inaugurar obras executadas com financiamento do governo federal e deixar pela cidade prédios e outros equipamentos públicos caindo aos pedaços, a exemplo do prédio que abrigava a Secretaria de Finanças, no Centro da cidade, além de secretarias sendo despejadas por falta de pagamento de aluguéis, ou ainda de carros locados para a prefeitura sendo bloqueados no meio da rua por falta de pagamento. É esse o “modo Cunha Lima” de governar?
Outro ponto grave é o atraso no pagamento dos salários dos servidores públicos. Trata-se de um dos maiores atentados que uma gestão pode cometer contra sua própria população. São esses trabalhadores e trabalhadoras que sustentam o funcionamento da cidade e lidam diariamente com as demandas da população campinense. Garantir salários em dia e com remuneração justa deveria ser um compromisso inegociável de qualquer administração comprometida com a boa política e com a vida. Infelizmente, não é o que ocorre na gestão Bruno Cunha Lima.
Falta ao prefeito compreender que o maior valor do cargo que ocupa é o servir. Em vez disso, governa conforme o humor do dia e cercado por bajulações, distante da realidade vivida pela maioria da população.
É verdade que há obras entregues: o Açude Novo, o Maior São João do Mundo – uma festa de grande relevância cultural e econômica –, além de intervenções importantes (ainda promessas ou em andamento) como a revitalização da Feira Central, da Estação Velha e do Cine Capitólio. Há ainda a promessa do VLT, que dificilmente se concretizará em curto prazo. Essas realizações parecem ser a última aposta para tentar salvar a imagem do governo e do grupo político que o sustenta.
No entanto, é preciso registrar que muitas dessas obras são demandas antigas da cidade e só se tornaram possíveis graças ao financiamento e à atuação republicana do governo federal, sob a liderança do presidente Lula, que tem garantido recursos e viabilizado empréstimos para que Campina Grande não afunde de vez no caos administrativo. Também merece reconhecimento o trabalho de servidores públicos qualificados, que frequentemente, mesmo sem o devido apoio ou valorização, elaboram projetos e mantêm a máquina pública funcionando. Nesse contexto, destaca-se ainda o papel do senador Veneziano, que atua como ponte entre o município e o governo federal, funcionando, na prática, como um verdadeiro salva-vidas da atual gestão.
Outro ponto da falta de visão programática sobre o município é a questão ambiental, tendo a recente crise envolvendo o Açude Velho como ápice da ausência de políticas públicas comprometidas com a mitigação das mudanças climáticas. Soma-se a isso a antiga demanda pela revitalização dos rios e de suas nascentes, bem como a necessidade de arborização da cidade, apenas para citar algumas das muitas demandas existentes, diante de tantas propostas já conhecidas, seja no âmbito acadêmico, seja no movimento ambientalista. Promover o desenvolvimento econômico local não é – nem pode ser – estar de costas para a sintonia com políticas ambientais, tendo em vista que somos um município do semiárido e que a sustentabilidade ambiental deve ser uma das prioridades para o presente e o futuro de Campina Grande.
Diante desse cenário, o grupo Cunha Lima parece ter apenas uma estratégia possível para preservar seu futuro político em Campina Grande: isolar o prefeito, apostar na vitória nas eleições estaduais com Cícero Lucena e, a partir de um eventual governo estadual, tentar recompor forças, minimizar os danos administrativos e chegar competitivo às eleições municipais de 2028.
Resta saber se as oposições conseguirão se reorganizar, construir um novo projeto político e administrativo e derrotar o grupo Cunha Lima nos próximos embates eleitorais. Tema para outro texto…
A ver.
*Roberto Jefferson Normando integra a coordenação do Fórum Pró Campina.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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