Quando a Polícia Federal prende o dono do Banco Master, no mesmo dia em que o Banco Central decreta a liquidação extrajudicial de uma instituição financeira, o discurso da “modernização” e da “eficiência” privada cai por terra. Foi exatamente isso que aconteceu com o Banco Master: o BC colocou o banco em liquidação extrajudicial, acionando o Fundo Garantidor de Créditos, e, horas depois, a PF prendeu seu dono, Daniel Vorcaro, no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura emissão fraudulenta de títulos de crédito.
Não estamos falando de um banco qualquer. Estamos falando da mesma instituição cuja compra pelo Banco de Brasília (BRB) foi defendida com unhas e dentes pelo governador do DF, Ibaneis Rocha (MDB), num negócio de cerca de R$ 2 bilhões para adquirir 58% das ações do Master. A operação foi vendida como “oportunidade estratégica”, e autorizada por todos os deputados da base do governador a toque de caixa, mas logo passou a ser alvo de investigação do Ministério Público e preocupação de órgãos de controle e do mercado, que apontaram riscos elevados e a possibilidade de que o BRB estivesse, na prática, salvando um banco já fragilizado.
Hoje, olhando para a liquidação do Master e para a prisão de seu controlador, o slogan informal que acompanha esse governo, “privatiza que melhora”, ganha contornos de ironia cruel. O que está em jogo não é só um mau negócio. É a forma como Brasília tem sido usada como laboratório de uma experiência particularmente perversa de coronelismo 4.0, em que o Estado se confunde com os interesses privados de uma minoria bem conectada.
Patrimonialismo 2.0: de Faoro ao DF de hoje
Raymundo Faoro, em Os Donos do Poder, nos mostrou como a história política brasileira é marcada por um estamento burocrático-patrimonial que se apropria do Estado e o administra como extensão da própria casa, confundindo dinheiro público com negócio privado. O problema nunca foi apenas “corrupção individual”, mas um modo de organizar o poder: o Estado como patrimônio de poucos.
Quando um governo mobiliza um banco público, o BRB, para tentar comprar um banco privado falido, sob críticas de órgãos de controle e alerta de risco de rating, o que vemos é justamente esse patrimonialismo em versão século XXI: operações financeiras complexas, linguagem de mercado, relatórios de risco e, por trás, o velho movimento de socializar o risco e privatizar o lucro.
Faoro nos lembra que, no Brasil, a fronteira entre público e privado sempre foi borrada por esse “patronato político” que domina o aparelho de Estado. No DF, esse patronato hoje se manifesta num pacote de privatizações, concessões e “parcerias” empurradas de cima para baixo, com pouco debate, muito marketing e uma sequência nada desprezível de operações policiais e escândalos.
Do coronelismo da enxada ao coronelismo dos contratos e operações financeiras
Victor Nunes Leal, em Coronelismo, enxada e voto, analisou como, na República Velha, o poder político se estruturava a partir do pacto entre o poder público e os coronéis locais, grandes proprietários que controlavam terra, trabalho, polícia e voto. O coronelismo, dizia ele, é um sistema de compromissos entre o Estado e oligarquias privadas que trocam apoio eleitoral por favores, cargos e recursos.
Hoje, a enxada deu lugar ao contrato bilionário e às operações financeiras. O curral eleitoral virou carteira de clientes, concessionárias, organizações sociais e bancos “parceiros”. Mas a lógica é a mesma: quem manda é quem tem a chave do cofre público e das concessões. O nome disso, em 2025, é coronelismo 4.0.
No DF, esse roteiro se repete:
Na saúde, o IGES-DF, modelo de gestão privatizada dos hospitais, se tornou sinônimo de escândalo: operações policiais sucessivas, como a Operação Escudero, investigando contratos milionários de alimentação para pacientes, suspeita de corrupção e tráfico de influência, e, mais recentemente, a exoneração de assessor da Governadoria, do chefe da Casa Militar e de seguranças ligados ao esquema.
No sistema financeiro, o governo lutou politicamente para que o BRB comprasse o Banco Master, mesmo diante de sinais claros de risco e da deterioração do banco, operação que acabou barrada na prática após a reação de órgãos reguladores e do mercado.
Em outras áreas, multiplicam-se projetos de concessão e privatização de serviços essenciais e espaços públicos, sempre sob a promessa de eficiência, mas com pouca transparência sobre quem ganha, quem perde e quais garantias a sociedade tem, como está sendo o caso da tentativa de implementação da Zona Verde.
No fundo, é o mesmo “é dando que se recebe” que Leal descreveu para a República Velha, só que agora mediado por holdings, fundos de investimento, bancos e operadores de lobby.
Brasília: capital planejada, quintal dos novos coronéis
Brasília nasceu para ser o oposto disso. Uma capital planejada para democratizar o poder, afastando-o dos velhos currais coronelistas, um farol de desenvolvimento social e econômico voltado para o conjunto do país. Era o gesto simbólico de romper com as amarras do velho patrimonialismo.
Mas o que vemos hoje é a capital federal sendo tratada como quintal experimental do coronelismo 4.0.
Banco público transformado em peça de xadrez para salvar banco privado problemático; gestão da saúde terceirizada a estruturas capturadas por esquemas de corrupção; espaço urbano e serviços públicos progressivamente fatiados em concessões que concentram poder econômico em poucos grupos.
Tudo isso embalado pelo discurso da “modernização”, da “governança”, do “compliance”… até que uma operação chamada Compliance Zero escancara a contradição entre o palavrório das boas práticas e a realidade de títulos falsos, banco liquidado e dono preso tentando sair do país.
É como se a cidade projetada para ser a antítese da velha política dos coronéis agrários tivesse sido sequestrada pelos coronéis financeiros e pelos coronéis dos contratos.
Privatiza pra quem?
A pergunta que se impõe não é “se” o Estado deve se modernizar, é para quem essa “modernização” tem sido feita e sob qual modelo de controle social.
O governo Ibaneis não está “diminuindo o Estado”, está redesenhando quem manda no Estado e como se distribuem os benefícios do orçamento público.
Faoro nos lembra que o estamento patrimonialista nunca desapareceu, apenas se atualizou, ocupando novas formas institucionais. Nunes Leal mostra como o coronelismo é um sistema, não uma figura folclórica perdida no passado. Juntos, eles ajudam a entender por que casos como o do Banco Master não são “acidentes”, mas sintomas de uma engrenagem em funcionamento.
Democracia não é negócio de balcão
Brasília não pode se resignar a ser o cenário desse filme repetido. Uma capital federal marcada por bancos quebrados, hospitais em crise e operações policiais em série não é só um problema local: é um sinal de alerta sobre o tipo de democracia que estamos deixando prosperar.
O que está em jogo é simples e brutal: ou o espaço público continua a ser capturado por um punhado de “donos do poder”, ou a sociedade reorganiza mecanismos de controle, transparência e participação à altura da promessa original desta cidade.
Entre “compliance zero” e democracia zero, não há neutralidade possível. Brasília nasceu para ser farol. Não pode aceitar o papel de quintal dos novos coronéis. Brasília não está à venda.
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*Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato DF.


