Escrever sobre Socorro Acioli tem um sabor particular para mim. Ela é cearense. Escreve do Nordeste, sobre o Nordeste, a partir de um olhar que reconheço nos quintais, nas festas, nas rezas e nas bocas que guardam segredo nesta terra. Lê-la é, também, uma forma de me ver.
A Cabeça do Santo chegou às minhas mãos como chegam as melhores histórias: sem que eu estivesse preparada para o que viria. E talvez seja essa a força da obra, ela não avisa. Ela simplesmente acontece, como a graça que os nordestinos pedem aos santos e que, vez ou outra, parece mesmo descer do céu.
Na narrativa, Samuel, um menino sem raízes e sem destino certo, cumpre uma última promessa feita à mãe moribunda: caminhar de Juazeiro do Norte, a pé, sob o sol impiedoso do sertão cearense, até a cidade de Candeia, lugarejo quase fantasma, parado no tempo, esquecido pelo Brasil que crescia em outro ritmo. Ao chegar, sem teto, sem família e sem boas-vindas, ele encontra abrigo dentro da cabeça oca e gigantesca de uma estátua inacabada de Santo Antônio, separada do resto do corpo e abandonada a céu aberto. E é de dentro dessa cabeça que Samuel descobre ter um dom extraordinário: ele consegue ouvir as preces das mulheres da cidade, vozes que rezam a Santo Antônio, o santo casamenteiro, pedindo amor, companhia, um destino diferente.
Não demora para que Francisco, primeiro amigo que Samuel encontra em Candeia, enxergue no dom do rapaz uma oportunidade. É Francisco quem tem a ideia de explorar comercialmente aquela escuta milagrosa: cobrar por consultas com o “mensageiro de Santo Antônio”, promover casamentos, intermediar desejos. E assim, aos poucos, Candeia começa a ressurgir, tomada por fiéis de todos os cantos, atraídos pelo poder inaudito que emanava daquela cabeça de santo sem corpo.
A cidade fictícia de Candeia, aliás, tem raízes bem reais. A estátua de Santo Antônio sem cabeça existe em Caridade, município cearense a pouco mais de cem quilômetros de Fortaleza. O que Socorro Acioli faz é partir desse dado concreto, desta imagem real de um santo incompleto num interior esquecido, e transformá-la em metáfora de um Brasil que também parece inacabado, truncado, partido ao meio entre o que promete e o que entrega.
O que a autora constrói, a partir desse realismo mágico que tem cheiro de capim-santo e terra rachada, é um retrato do Brasil que aprende a viver no limite entre o sagrado e o precário. Candeia poderia ser qualquer cidade do interior nordestino, daquelas que aparecem nos mapas só quando a seca chega ou quando a política passa por lá de quatro em quatro anos para distribuir promessas. Lugares onde a fé não é ornamento, é estrutura. É o que sustenta quando o Estado não sustenta, quando a chuva não vem, quando o filho não volta.
E é aqui que a obra de Socorro Acioli toca em algo que não podemos desviar o olhar: o espaço deixado vazio pelo Estado é sempre ocupado por alguém. No Brasil, esse alguém tem sido, com frequência crescente, o fundamentalismo religioso. Aquele que transforma a fé em mercadoria, o desamparo em fidelização e a espiritualidade em controle. Não é de hoje que igrejas prosperam onde faltam hospitais, que pastores faturam onde faltam escolas, que o dízimo substitui a política pública.
Mas seria um equívoco grave, e uma injustiça, confundir essa instrumentalização da fé com ela mesma. Porque a fé popular brasileira não é ingenuidade nem submissão: é sofisticação espiritual construída ao longo de séculos, a partir de encontros, resistências e reinvenções que nenhum poder conseguiu apagar. É a vela acesa para Santo Antônio e para Ogum, porque no Brasil eles sempre souberam morar juntos. É a reza brava da benzedeira que cura o que o médico não alcança. É Iemanjá no mar e Nossa Senhora na parede, Exu na encruzilhada e o Divino Espírito Santo na festa. São os orixás, os inquices, os caboclos, os encantados da mata, as entidades que chegam nos terreiros para dizer o que a vida cala. É Padre Cícero no cordel, na tatuagem, no caminhão, na boca do povo. Não como alienação, mas como gramática de um povo que encontrou na espiritualidade uma linguagem de pertencimento, de cura e de luta.
Essa fé não nasceu apesar das condições adversas. Ela nasceu dentro delas, tecida nas senzalas, nos quilombos, nas vielas, nos sertões. Foi com ela que povos originários resistiram ao extermínio. Foi com ela que africanos escravizados preservaram memórias, identidades e cosmovisões que o colonizador tentou destruir. Foi com ela que mulheres negras e nordestinas atravessaram perdas que a história oficial nem dignou registrar. Desrespeitá-la é desrespeitar o próprio povo que a forjou.
O que a obra de Socorro Acioli nos convida a distinguir, portanto, é a diferença entre a fé como potência popular e a fé como instrumento de dominação. Entre o terreiro que acolhe e a mega igreja que cobra. Entre a benzedeira que partilha seu saber gratuitamente e o pastor que vende cura na televisão. Entre a espiritualidade que liberta e o fundamentalismo que aprisiona, que dita corpos, controla mulheres, persegue religiões de matriz africana e vota em quem garante seus privilégios. Essa distinção não é teológica. É política.
Mas Socorro não romantiza essa fé. Ela a complexifica. As vozes que Samuel ouve não são apenas preces, são os silêncios elaborados de mulheres que aprenderam a depositar nos santos o que deveriam poder cobrar da vida. O que elas pedem diz muito sobre o Brasil que produzimos: um país que não ampara, não garante, não protege e deixa suas mulheres rezando por aquilo que deveria ser direito.
E há, nesse gesto de Francisco de transformar o dom em negócio, algo de muito brasileiro também. A vida que se inventa nas frestas, a sobrevivência costurada com fio de improviso, a fronteira tênue entre o milagre e o mercado. Tudo isso está na obra com uma leveza que engana. Porque a prosa de Socorro tem humor, tem afeto, tem o ritmo da oralidade nordestina, aquele jeito de contar em que a história parece sempre prestes a dobrar uma esquina e te surpreender. Mas é justamente nessa leveza que a autora encerra suas maiores provocações.
Nesta série, tenho me dedicado a escutar o que as mulheres da literatura nos dizem sobre o Brasil. Carolina nos mostrou a favela e a fome. Ana Maria Gonçalves nos entregou a memória subterrânea do escravismo. Conceição Evaristo nos fez encarar os meninos pretos que este país desumaniza. E Socorro Acioli nos apresenta o Brasil que reza de joelhos dentro de uma cabeça oca, porque aprendeu que o milagre, às vezes, chega antes da política.
Cada uma dessas autoras, à sua maneira, revela o que este país prefere não ver. E é por isso que lê-las é um gesto que ultrapassa o literário: é um exercício de reconhecimento, de cuidado e de lucidez diante de um Brasil que precisa, com urgência, aprender a ouvir aquelas e aqueles que sempre tiveram algo a dizer.
Òǹkọ̀wé, aquela que escreve. Socorro Acioli escreve o Nordeste por dentro, com amor e com crítica, com fé e com ironia. Cabe a nós recebê-la com a atenção que sua obra merece.
* Samilly Alexandre é mulher de terreiro; assistente Social; mestre em serviço social, trabalho e questão Social; militante do Movimento Brasil Popular.
**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

