Samilly Alexandre

Samilly Alexandre é mestre em serviço social pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e militante do Movimento Brasil Popular.

Òǹkọ̀wé: primeiro eu tive que morrer, de Lorena Portela

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Foto do livro com o mar de fundo
Lorena foi forçada a parar durante oito semanas, e decidiu ir até Jericoacoara para sarar as feridas que foi acumulando ao longo dos anos | Crédito: Juliana Queiroz/Um Norte Literário

O afeto, para nós mulheres, foi historicamente regulado, vigiado. Nos ensinaram a amar de um jeito muito específico: discreto, abnegado, heteronormativo.

Há livros que a gente lê sozinha. E há livros que a gente vive acompanhada.

Primeiro eu tive que morrer, de Lorena Portela, começou como o primeiro tipo para mim. Li sozinha, fui atravessada sozinha, digeri sozinha o que ele me convocava a encarar. Só depois, já tomada pela obra, comecei a falar dele para amigas e amores. E quando o emprestei, fiz um pedido: que marcassem, que escrevessem, que desenhassem nas páginas, ou que, se quisessem, me dissessem de algum modo como aquele livro as havia atravessado. O que recebi de volta foram páginas cheias de riscos, palavras soltas nas margens, expressões que eu não fiz mas sinto como minhas. Guardo isso com um cuidado que não sei direito nomear, mas que tem muito a ver com o que o próprio livro ensina: que o afeto deixa rastro, que ele insiste, mesmo quando a gente tenta apagá-lo.

A narrativa de Lorena se passa em uma das nossas praias cearenses, e há algo de muito bonito nisso. O Ceará aparece não como cenário decorativo, mas como território vivo, com sua luz, sua imensidão de água e horizonte, sua beleza que é quase incômoda porque nos obriga a parar. E talvez seja exatamente isso que a autora precise: um lugar que force a interrupção, que não permita que a personagem siga correndo de si mesma. O mar como espelho e como confronto.

E é justamente sobre isso que Lorena escreve. Sobre as mortes necessárias que nos antecipam ao renascimento. Sobre o que precisamos abandonar de nós mesmas para, enfim, nos encontrar. Lendo, me peguei pensando em quantas vezes fui convocada a morrer de um jeito ou de outro, não de modo poético, mas de modo literal: morrer de cansaço, morrer de culpa, morrer de produtividade.

Porque existe uma violência muito específica que atravessa a vida das mulheres, e ela tem nome: a exigência permanente de ser mais, dar mais, render mais. Para existir nos espaços que nos foram negados por séculos, aprendemos que precisamos fazer além da média. Ser duas vezes mais competentes, três vezes mais dedicadas, quatro vezes mais pacientes. O esforço de galgar qualquer espaço, seja profissional, intelectual ou político, carrega esse peso tácito de ter que provar, sempre, que merecemos estar ali.

E que fique dito: isso é ainda mais intenso para mães solo, para mulheres negras, para mulheres periféricas. São corpos que sustentam famílias, comunidades e economias inteiras com as próprias mãos, sem rede, sem tempo, sem pausa. Corpos que o Brasil jamais aprendeu a ninar, conforme nos lembrou Conceição Evaristo. Para elas, a dinâmica frenética e adoecedora não é exceção, é a regra. É a estrutura.

E a estrutura também se chama escala 6×1. Trabalhar seis dias para descansar um é, para o conjunto da classe trabalhadora, uma equação de adoecimento. Mas para as mulheres, esse cálculo é ainda mais cruel: ao sair do emprego formal, elas chegam em casa para o segundo turno, o invisível, o não remunerado, o que nenhuma CLT jamais contemplou. Louça, filho, tarefa escolar, cuidado com o idoso, conta a pagar. O descanso, no Brasil, ainda é privilégio e não direito. E enquanto seguir sendo privilégio, ele continuará sendo negado justamente a quem mais precisa: as mulheres que sustentam este país pelas beiradas, sem reconhecimento, sem compensação, sem folga. Não é à toa que adoecemos mais, que morremos de formas que não aparecem nas estatísticas, mortes lentas feitas de exaustão acumulada e afeto negado. O fim da escala 6×1 não é pauta de conforto. É uma questão de sobrevivência, sobretudo para nós.

Mas o livro não fala só de trabalho. Ele fala de afeto. E o afeto, para nós mulheres, também foi historicamente regulado, vigiado, mutilado. Nos ensinaram a amar de um jeito muito específico: discreto, abnegado, heteronormativo. O amor que transborda para fora desse molde foi, e ainda é, alvo de violência, silêncio e apagamento. Seja o amor entre mulheres, seja o amor excessivo demais, inconveniente demais, político demais. Amar fora do script é um ato de coragem que muitas pagam com a própria vida.

Lorena escreve sobre a descoberta do afeto como mediação da vida. Não o afeto domesticado e apresentável, mas o afeto que desarruma, que reorganiza, que exige que você morra um pouco para encontrar o que de fato te move. E quem dera que todas as mulheres pudessem ter tempo, segurança e liberdade para fazer essa travessia.

As páginas marcadas pelas mãos das minhas amigas e amores me dizem que sim, que é possível. Que a leitura partilhada é, ela mesma, um gesto político. Que quando a gente passa um livro adiante cheio de sentimentos nas margens, está dizendo: isso também é meu, isso também sou eu, isso também nos pertence.

Primeiro eu tive que morrer é, então, mais do que um livro. É um convite ao luto necessário e ao renascimento coletivo. Uma Òǹkọ̀wé que escreve para que a gente sobreviva ao que nos foi imposto e invente, nas frestas do tempo que ainda nos resta, outras formas de existir.

Samilly Alexandre é mulher de terreiro; assistente Social; mestre em serviço social, trabalho e questão Social; militante do Movimento Brasil Popular.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

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Editado por: Camila Garcia

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