Ao Zé Martins, in memoriam
Em 27 de maio de 2026, no Assentamento Filhos de Sepé, em Viamão (RS) na Jornada de Formação Continuada do CAMP, Centro de Assessoria Multiprofissional, Zé Martins fez mais uma belíssima jornada de música latino-americana, caribenha, brasileira e gaúcha. Foi uma celebração, todo mundo cantando junto, alegres, felizes da vida, exaltando a vida, a cultura e a esperança.
Saudei o Zé Martins e contei o seguinte fato para quem estava ouvindo, assistindo, cantando junto no Assentamento.
No início dos anos 1990, eu presidente do PT/RS, aconteceu o Congresso ou Encontro estadual do Partido das Trabalhadoras e dos Trabalhadores. Onde? No Plenário da Assembleia Legislativa gaúcha. Propus: “Os Encontros do PT não podem ser feitos e acontecer só com debates e discursos. Precisamos juntar a política com a música, política e mística juntos, PT e cultura abraçados. Vamos convidar o conjunto musical Unamérica para se apresentar e animar o ambiente e animar as-os militantes.”
Houve resistência de parte dos membros da Executiva partidária, dizendo que não era o caso, ou não cabia. Acabaram convencidos. O Unamérica, Zé Martins e Dão Real, marcou presença e cantou lindamente. Foi um sucesso. A música e a mística invadiram, no bom sentido, o Encontro do PT e a política.
Contei a mesma história na triste e, ao mesmo tempo, alegre, mas última despedida do Zé Martins, em Ato na Câmara de Vereadores de São Leopoldo, muitas-os militantes, sonhadoras e sonhadores chorando de dor e tristeza pela partida inesperada do Zé. Falei em nome do CAMP, em 28 de junho de 2026, um mês depois da celebração no Filhos de Sepé. Dão Real, componente do Unamérica junto com Zé Martins, disse que o Unamérica surgiu em 1983, mesmo ano da fundação do CAMP. Estamos, CAMP e Unamérica, Unamérica e CAMP, juntos desde então e sempre, freireanamente, abraçados na boa luta e na educação popular.
Dão Real deu um depoimento que vai ficar vivo na memória e história de todas e todos que conheceram, conviveram e admiraram, e continuarão admirando, Zé Martins: “Tudo o que passava por suas mãos se transformava em arte, em poesia, em música, em quadros, em esculturas, em literatura. O Zé era um homem de causas, de projetos, era um militante social que utilizava a arte como instrumento. A arte não era pela arte, mas alguma coisa maior. Zé era inquieto, rebelde, irreverente, irresignado. Nos deixa um enorme legado, suas músicas, seus poemas, suas obras e seus ensinamentos. Era um professor entusiasmado, um estudioso das coisas da natureza e das gentes” (Marcelo Ferreira, ´Homenagens a Zé Martins reúnem familiares, artistas, entidades e movimentos populares´, Brasil de Fato RS, 29.06.26).
O Unamérica canta desde 1983 seu amor pela América Latina. Unamérica sempre integrado na América Latina, Caribe, Brasil, Rio Grande do Sul, com seu povo, sua cultura, suas dores e alegrias, sua esperança, com paz, soberania popular e democracia.
Como também tento ser poeta como o Zé Martins, escrevi um poema em sua homenagem eterna, justa e mais que necessária, versos saídos do fundo do coração.
Hermano Latinoamericano
Ao Zé Martins (in memoriam)
Coração latino-americano,/coração caribenho,/ coração brasileiro,/ coração gaúcho,/o rapaz latino-americano,/ como cantou e versejou Belchior,/canta a democracia,/ a soberania popular,/ a voz e a vez dos mais pobres ente os pobres,/ das trabalhadoras e dos trabalhadores.
Cantador da natureza,/ lutador das boas causas,/ sonhador do Bem Viver,/ ele, Zé Martins,/ poeta,/ foi amante em todos os sentidos,/ cuidador da natureza,/ das plantas e das florestas.
Zé,/ a América Latina está viva./ Continuará viva,/ nas trabalhadoras e nos trabalhadores,/ nos indígenas,/nos quilombolas,/no povo das periferias,/ na população LGBTQIA+,/ nas juventudes,/ nas mulheres,/ nas vilas populares,/ na Lomba Grande/ e na Lomba do Pinheiro,/ em todas as ruas e esquinas do mundo.
Cantas teu canto,/ ao mesmo tempo suave e poderoso,/tuas letras e poemas da vida e do amor,/ os hinos da liberdade,/ o ressoar da esperança,/ o ressoar feliz da democracia.
Estamos vivas, vivos contigo,/ com teu violão,/ tua voz,/ tua ternura,/ com tua simplicidade,/ compromissos e entrega permanentes.
Hermano latinoamericano,/Hermano caribeño,/Hermano brasileño,/ Hermano gaucho,/
Zé,
segues vivo,/ sempre presente,/ sempre abraçado conosco,/ ninguém soltando a mão de ninguém./ Seguirás eternamente no nosso coração,/ na boa luta/, com fé,/ e no ESPERANÇAR.
Amanhã vai ser outro dia,
Latino-americanamente,
Caribenhamente,
Brasileiramente,
Gauchamente.
A manhã da utopia vai raiar,/num outro mundo possível,/urgente e necessário,/ com tua luz,/ tua mística,/ teu brilho,/ teu amor,/ teus versos, tua arte, tua música.
Zé Martins vive! Zé Martins presente!
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

