Valerio Arcary

Valerio Arcary é professor titular no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), militante da Resistência/PSol, e autor de O Martelo da história, entre outros livros.

Nova conjuntura mais adversa

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Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) lideram pesquisas de intenção de voto para presidente
Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) lideram pesquisas de intenção de voto para presidente | Crédito: Ricardo Stuckert/Campanha Lula; Raul Spinassé/Campanha Flávio Bolsonaro

O desenlace jurídico do escândalo monumental que atinge o STF é imprevisível. Mas a manobra política de Mendonça é clara e cristalina.

Não cantar vitória antes do tempo.

– Provérbio popular português

  1. Lula fez bem em gravar o vídeo em que defende as investigações de tudo e de todos, porque ninguém está acima da lei. Ninguém está acima de qualquer suspeita. Tem moral para o dizer, porque foi no governo Lula que se garantiu a liquidação do Banco Master pelo Banco Central e a prisão de Daniel Vorcaro. Já Flávio Bolsonaro está “enterrado até o pescoço” na relação corrupta com o Master e Vorcaro. Mas seria fatal desconsiderar que se abriu uma nova conjuntura mais adversa, porque a correlação política de forças mudou para pior. Mendonça foi para a ofensiva, divulgando mensagens de Vorcaro para Alexandre de Moraes que sugerem cumplicidade de Xandão na defesa dos interesses do Banco Master. Esse movimento é útil para proteger Flávio Bolsonaro, que ainda não explicou o destino dos R$ 130 milhões que recebeu de Vorcaro, nivelando todos como suspeitos, porque o escritório da esposa de Xandão recebeu, também, outros mais de cem milhões de reais. Não menos importante, a fração liberal burguesa, que nas eleições de 2022 se posicionou contra o bolsonarismo, deslocou-se e apoia, alguns até euforicamente, a exigência de renúncia de Xandão, que aponta na direção de Alexandre de Moraes para atingir Lula. O que está em disputa é a eleição presidencial. Mendonça é um aliado de Flávio na luta pela anistia de Jair Bolsonaro, que seria sua primeira decisão, se viesse a vencer as eleições. Tudo o resto é só fumaça.
  1. A esquerda não tem por que se alinhar, incondicionalmente, com Alexandre de Moraes, que sempre foi uma liderança da direita liberal, nomeado, lembremos, por Temer no auge da Lava-Jato. Os indícios de malfeitos devem, evidentemente, ser investigados. Se vier a existir evidência e prova de crime, que seja condenado. Mas isso não justifica se associar à campanha pelo impeachment que começou no Senado, porque isso seria lava-jatismo: julgamento político sumário sem rigor de comprovação de crime. Isto posto, não deveria haver lugar para vacilações. O ataque de Mendonça é uma operação política para atingir Lula, e já está produzindo imensa confusão, em função do prestígio que Xandão conquistou na luta jurídica para condenar o golpismo dos Bolsonaros. Xandão já respondeu defendendo junto a Fachin a abertura de uma investigação contra André Mendonça, grosso modo, por abuso de autoridade, o que tem fundamento. O desenlace jurídico do escândalo monumental que atinge o STF é imprevisível. Mas a manobra política de Mendonça é clara e cristalina. Em um contexto de ingerência dos EUA no processo eleitoral, quer manipular a pauta da campanha, desviando as atenções da sociedade para um mar de lama de denúncias de corrupção. Esse terreno, desde as campanhas da UDN sobre o “mar de lama” até o golpe parlamentar mascarado de impeachment contra Dilma Rousseff, favorece Flávio Bolsonaro. Pior, pode decidir as eleições daqui a um mês. 
  1. A ordem de André Mendonça para a Polícia Federal produzir um relatório identificando as relações de Vorcaro com Alexandre de Moraes, resvalando em Gonet da PGR e Andrei Rodrigues da Polícia Federal, e depois suspender o sigilo, tornando públicas as mensagens, obedece a um cálculo político-eleitoral: proteger Flávio Bolsonaro, atolado pela investigação de sua relação com o financiamento de inexplicáveis R$ 130 milhões para o filme-biografia “Dark Horse” pelo Banco Master, usando a velha tática de “merda no ventilador”, ou “eles são todos iguais”. A nivelação de que “todos são corruptos” favorece Flávio Bolsonaro porque já está confirmado, depois dos diálogos com Vorcaro, que a base eleitoral da extrema direita é, eleitoralmente, impermeável às denúncias. O objetivo da operação político-jurídica de Mendonça é “eletrizar” a campanha pelo impeachment de Xandão. A disputa do antipetismo nas ruas já começou com o “Fora Moraes” e “Fora Lula”, e já está nas redes vídeos de todas as lideranças do bolsonarismo. Ainda é cedo para aferir em que medida as repercussões da crise institucional irão incidir nas preferências eleitorais. Mas, na última pesquisa Datafolha, já se identificou uma oscilação negativa da aprovação do governo Lula, e a confirmação de um empate técnico no segundo turno, o que é preocupante. Neste momento, a linha de “já ganhou”, que já era errada antes em função de uma leitura equivocada de por que prevalece uma apatia, até nos setores mais comprometidos das massas com a campanha eleitoral, passou a ser insensata. Se não for despertada uma consciência de urgência na militância de esquerda, Lula pode perder o segundo turno. 
  1. Mendonça não vai, evidentemente, derrubar o sigilo da relação de Flávio Bolsonaro com Vorcaro no “Dark Horse”. A aposta da extrema direita é que a “queimação” de Xandão pelos diálogos com Vorcaro incendeie a base social da extrema direita para a manifestação de 7 de setembro. A Avenida Paulista será o cenário para a exigência da renúncia do ministro relator do processo que condenou Jair Bolsonaro, favorecendo a aprovação de uma investigação no Plenário do STF, o que oferece uma bandeira para a eleição de senadores que defendem o impeachment de Moraes. Ninguém pode saber o que decidirá o Plenário do STF quando se reunir, depois de 11 de setembro, esgotado o prazo de cinco dias úteis definidos por Fachin para ouvir todos os envolvidos. Deveria afastar Mendonça da relatoria da investigação do Banco Master, em função do flagrante abuso de poder que foi assumir, simultaneamente, o papel de juiz de garantias e presidente de investigação, típico do lava-jatismo de Moro no processo contra Lula. Mas deveria, também, abrir investigação de Alexandre de Moraes, em função dos indícios de uma relação indefensável, por variadas razões, com Daniel Vorcaro. O que, entretanto, é previsível é que a crise deve escalar na direção de uma crise institucional. Crise institucional significa um conflito “hemorrágico” dentro do STF, sem que haja clareza qual das alas conquistará maioria: Mendonça pode ser apoiado por Nunes Marques, Fux e até Carmem Lúcia ou Fachin, e Xandão por Dino, Gilmar e Zanin. Mas pode acontecer, também, uma grande negociação para conter danos à desmoralização do STF. De qualquer forma, a disputa já transbordou para Andrei Rodrigues, da Polícia Federal, e Paulo Gonet, na PGR.
  1. O que se está divulgando até agora revela, escancaradamente, a relação desprezível e promíscua entre a riqueza e o poder com alguns magistrados. Estas relações podres dos grandes capitalistas com o Congresso Nacional, financiando a eleição de seus representantes para a Câmara de Deputados e Senado, sempre foram públicas. Até poucos anos atrás, o financiamento privado era até legal. Ou seja, os donos do dinheiro sempre tiveram imensa influência sobre as instituições. Mas seria um erro se setores da esquerda abraçassem, nesta conjuntura, um mês antes das eleições, ingenuamente, uma campanha na linha “está tudo podre”. É preciso ter juízo na avaliação da relação política de forças. É uma barbaridade a confirmação das relações de Jacques Wagner com o sócio de Daniel Vorcaro, mas este episódio, por mais lamentável que seja, é lateral no escândalo do Banco Master. Seria equivocado, principalmente, por duas razões: (a) o centro da luta política é garantir que Lula derrote o bolsonarismo para ganhar tempo diante da ofensiva da extrema direita em toda a América Latina com o apoio de Trump, e a esquerda radical não pode normalizar o neofascismo, dissimulado de direita “dura”, como somente uma candidatura reacionária; (b) a manobra de Mendonça ao atacar, frontalmente, Alexandre de Moraes responde à necessidade de criar uma “cortina de fumaça” para blindar Flávio Bolsonaro da investigação do Banco Master, porque Xandão foi o juiz que liderou a investigação da operação golpista que condenou seu pai e defendeu, portanto, a legitimidade das eleições de 2022 que levaram Lula à presidência.     

*Valerio Arcary é professor titular no Instituto Federal de São Paulo (IFSP), militante da Resistência/PSol e autor de “O Martelo da história”, entre outros livros.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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