Vicente Rauber

Engenheiro especializado em Planejamento Energético e Ambiental.

Petróleo: superar de forma eficiente

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bandeira do brasil e a fachada da sede da Petrobras no Rio de Janeiro
Desde 1850 o mundo estruturou-se a base de petróleo, que integrou e integra ativamente toda a história | Crédito: CARL DE SOUZA / AFP

Hoje, o planeta pararia sem petróleo e carvão mineral

A redução dos combustíveis fósseis, especialmente os derivados de petróleo, foi um dos temas dominantes de COP30. Para tanto, o presidente Lula defendeu um “mapa do caminho” para esta redução. No texto final o item foi excluído por exigência de grandes produtores de petróleo, especialmente a Arábia Saudita. Este cronograma seria fundamental, para que fossem aumentadas fortemente as alternativas renováveis ao petróleo e carvão mineral, até porque a demanda destas energias fósseis será sempre atendida.

A COP28, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos decidiu “transição para longe dos combustíveis fósseis”. A decisão de um “mapa do caminho” seria um passo para efetivar esta decisão. Vamos tentar entender melhor este “mundo do petróleo”.

Hoje, o planeta pararia sem petróleo e carvão mineral.

Por hipótese, se hoje fosse proibido ou impossível qualquer uso do petróleo e carvão mineral no mundo, o que aconteceria? O planeta simplesmente pararia. A substituição destes recursos depende da capacidade de produção de alternativas, como os veículos elétricos, maior geração de energia elétrica, maior uso das quedas d’água (em esgotamento), ventos, raios solares, produção de hidrogênio e outras alternativas.

Acelerar a obtenção destes recursos em substituição aos combustíveis fósseis o mundo precisa urgente, cujos prazos e compromissos seriam o “mapa do caminho” proposto pelo Presidente Lula e que continua válido.

Portanto, necessariamente precisamos de um processo que depende da produção e disponibilização dos recursos renováveis e não se soluciona com decisões exigindo a redução de oferta de petróleo e carvão mineral, o que precisa ser obtido pela redução da sua demanda.

Vamos queimar o restante do petróleo e do carvão mineral em menos de 150 anos?

O petróleo e o carvão mineral também são produtos formados pelo trabalho da natureza como uso do calor e luz solares, por mais de 120 milhões de anos. A continuar o seu ritmo atual de consumo e considerando as reservas até aqui conhecidas, ambos deverão esgotar-se por volta do ano 2150. Ou seja, em menos de 150 anos teremos “queimado” o que a natureza trabalhou milhões de anos para produzir. Assim não haverá planeta que se sustente! Convenhamos, ambos merecem ser melhor preservados e receber usos mais adequados, do que a sua prejudicial queima, que nós humanos criamos. Vamos explicitar melhor no próximo artigo.

O carvão mineral tem registro de usos deste a pré-história, teve uso sistemático na China a partir de 4000 a.C., e muito intensificou-se com a Revolução Industrial.

O petróleo teve seu início, tanto nos Estados Unidos (EUA) como no Oriente Médio, nos anos de 1850. Seu uso inicial foi como querosene na iluminação, substituindo principalmente o óleo de baleia. Seu grande impulso foi dado por Henry Ford com a produção massiva de veículos movidos a gasolina e óleo diesel. Desde então o seu consumo nunca mais parou de crescer, com pequenas reduções nas chamadas crises do petróleo. As descobertas de novas reservas continuam ocorrendo, no Brasil e em outros países.

O consumo tanto do carvão mineral e em parte do petróleo continuam crescendo, segundo agências internacionais de energia o seu pico deve ocorrer em 2030. Ou seja, temos caminha árduo a percorrer!

O mundo escreve a sua história em torno do petróleo desde 1850

Desde 1850 o mundo estruturou-se a base de petróleo, que integrou e integra ativamente toda a história. Provocou muitas guerras e foi elemento decisivo em todas. Esta situação não se reverte facilmente.

Certamente o maior e melhor analista de como o mundo anda desde 1850 com a vida inserida no petróleo é o especialista em energia, economia e política internacional norte-americano Daniel Yergin, autor multipremiado com suas obras, consultado por parte dos principais veículos de comunicação do mundo e por Hollywood, quando o tema é tratado com maior amplitude e/ou profundidade.

No Brasil, temos uma obra completa da história mundial do petróleo, de Yergin, chamada “O Petróleo – Uma história mundial de conquistas, poder e dinheiro”, onde detalha os principais eventos de cada época. Por exemplo conta como verificou-se o quanto o petróleo foi estratégico na Primeira Guerra Mundial (aviões, navios, indústria). Para iniciar a Segunda Guerra Mundial, Hitler percebeu o quanto a Alemanha era dependente do petróleo, o que foi parcial e ironicamente resolvido por judeu, em Monique, transformando carvão mineral em petróleo. Depois Hitler, por diversas iniciativas não bem sucedidas, tentou chegar ao Oriente Médio, e por fim, tentou alcança-lo pela gélida URSS, onde seus soldados tombaram estupidamente.

Insistimos: este historicamente mundo estruturado do petróleo só é modificado pela oferta de alternativas renováveis.

O Brasil e a Petrobras devem continuar fornecendo petróleo enquanto for demandado

O Brasil e a Petrobras não devem deixar de pesquisar e produzir petróleo enquanto este for demandado internacionalmente. Deixando de fazê-lo, os demais produtores o farão, o planeta em nada melhorará, e o Brasil perderá recursos essenciais inclusive para a transição energética. O que a Petrobras precisa é acelerar a sua transformação em “empresa de energia”, e, por ora, ainda aumentar a produção dos derivados (diesel e gasolina), dos quais continuamos dependentes de importação, impedindo o controle dos seus preços para os brasileiros.

Os países em desenvolvimento como o Brasil precisam usar, sempre respeitando e cumprindo a legislação ambiental, seu petróleo, carvão mineral e minerações para promover o seu desenvolvimento e transição energética justas.

A Colômbia também faz assim. Durante a COP30, sua ministra Velez informou a decisão da Colômbia em declarar sua parte amazônica, como “zona de reserva de recursos naturais renováveis”. Belo gesto simbólico que devemos aplaudir.

A parte amazônica colombiana representa 8% da Amazônia, ainda inacessível em grande parte pela ocupação dos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

No restante de seu território, a Colômbia é significativa produtora de petróleo, tendo sido seu principal produto de exportação em 2023; de carvão mineral, sendo um dos principais fornecedores da Alemanha, e, entre outros produtos da mineração é fornecedora das belas e preciosas esmeraldas.

Os biocombustíveis também requerem veículos a combustão e concorrem com a produção de alimentos.

Ainda precisamos falar dos combustíveis de transição.

O gás natural é basicamente composto por metano, o pior dos gases de efeito estufa (GEE), porém, basta eliminar seus vazamentos e realizar sua combustão completa (chama azul) que se torna imune à poluição. O Brasil usa pouco, por deficiência histórica de sua rede de gasodutos.

Os importantes biocombustíveis brasileiros – etanol e biodiesel – ajudam em muito. O etanol, em relação à gasolina, e considerando todo o seu ciclo de produção (a cana-de açúcar, ao crescer, capta CO2), consegue reduzir até 75% da emissão de GEEs. Semelhante é a situação do biodiesel, em relação ao diesel, consegue reduzir em até 80% os GEEs. Hoje são misturados aos derivados de petróleo, podendo ter seus percentuais aumentados ou mesmo serem usados exclusivamente. Porém são combustíveis, necessitam de veículos de combustão, pesados que usam muita mineração para sua produção. Por ora, os veículos à combustão são menos caros do que os elétricos, por uma questão de mercado e por falta de locais de recarga das baterias.

Os biocombustíveis ainda enfrentam duas outras restrições. Os atuais preços baixos do petróleo tendem a não subir ou mesmo baixar ainda mais, assim dificultando muito a mistura ou concorrência dos biocombustíveis.

A outra restrição é mais grave: necessitam de muita terra para serem produzidos. Se esta terra for obtida com derrubadas ou queimadas é um grande gol contra! Senão concorrerá com a produção de alimentos; não esqueçamos que precisamos de um planeta equilibrado ambiental e socialmente, o que representa eliminar a fome, que ainda atinge, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), 8,2% do mundo, em torno 673 milhões de pessoas, o equivalente à soma das populações do Brasil e dos EUA.

O melhor caminho continua sendo o aperfeiçoamento e o uso dos veículos elétricos, simplesmente eliminando os veículos à combustão.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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