O Rio Grande do Sul, estado já foi reconhecido como o celeiro do Brasil, hoje importa grande parte dos alimentos que consome. Não é mais o maior produtor de soja, superado pelo Mato Grosso e Paraná. Nem é mais o maior produtor de proteínas; na carne bovina ocupa o 8º lugar, nos frangos e carnes suína e ovina está em 3º lugar.
O Estado está demorando excessivamente em proteger-se das repetidas secas com a reservação da água e a fundamental irrigação. Também praticamente pouco aplica o nosso compromisso internacional com o Plano ABC – Agricultura de Baixo Carbono -, conjunto de métodos para produzir mais e melhor de forma sustentável. A solução está na efetiva vontade de resolver.
Há estimativas de que as perdas agrícolas desde 2014 superam a R$ 100 bilhões. Podemos usar este valor como “ordem de grandeza”, uma estimativa aproximada, suficiente para realizar avaliações e propostas.
Só na safra 2021/22 houve R$ 20 bilhões de perdas. Na safra 2022/23 registraram R$ 28,4 bilhões só na cultura de soja.
A irrigação é o principal problema do meio agrícola
Sem dúvida, este é o principal problema a superar em nosso meio agrícola (Sem esquecer que também há perdas significativas decorrentes das das secas no meio urbano). Evitar estas perdas é um grande investimento, superior a qualquer aplicação financeira. Daí, obter os recursos financeiros torna-se viável no sistema bancário tanto público como privado, com ou sem incentivo governamental federal, estadual ou municipal. A participação pública é plenamente justificável.
A ONU anunciou a falência hídrica global
Devemos conferir se temos o essencial: água!
Em 20 e janeiro deste ano, a ONU anunciou o trágico relatório deste momento, demonstrando a ¨Falência Hídrica Global”, vale dizer que a demanda de água num grupo significativo de regiões não é mais atendida. “A natureza não possui mais capacidade de repor os limites de segurança; 70% dos aquíferos estão declinando”; “metade dos grandes lagos do mundo, que atendem 25% da humanidade apresentam declínio desde 1990”, diz o relatório.
O relatório enfatiza como causas: “Perda de água nos principais reservatórios e lagos; água existente cada vez mais poluída por agrotóxicos, esgotos e resíduos industriais; perda de 4,1 milhões de áreas úmidas e o aquecimento global”
O relatório conclui: “A falência hídrica ameaça a segurança alimentar, a estabilidade política e provoca migrações”.
Portanto, aí está mais um motivo vital para a própria humanidade tratar de salvar-se, no contexto geral de recuperar a natureza, que requer a intensa redução da geração dos gases de efeito estufa – GEEs – e efetivar a sua proteção contra os desastres climáticos.
O Brasil está citado no relatório, com ênfase para (i) regiões Nordeste, Norte (incluindo a gigante Amazônia) e Centro-oeste, devido à seca de rios e diminuição da disponibilidade; (ii) entre as cidades brasileiras encontra-se o maior centro populacional das Américas com mais de 20 milhões de habitantes, que é São Paulo, onde a ameaça de falta de água ronda ano após ano.
No mundo, as principais regiões atingidas são: (i) Oriente Médio e Norte da África, em especial Bahrein, Kuwait, Líbano, Omã, Catar e Irã; (ii) Sul da Ásia, em especial o Paquistão e a Índia, país mais populoso do mundo; (iii) Sudoeste dos EUA, com o declínio do Rio Colorado e seus reservatórios; (iv) Grandes cidades, além de São Paulo, Cidade do Cabo (África do Sul) Chenai (índia), Jacarta (Indonésia), Manila (Filipinas) e Cabul (Afeganistão).
Temos o essencial para enfrentar nossas secas: água
Portanto, o RS não consta como região crítica no relatório Falência Hídrica Global; ao contrário, somos profundamente privilegiados em disponibilidade água no seu todo; portanto temos o essencial para enfrentar nossas secas.
De outro lado, o enfrentamento e a solução para os excessos de chuva com seus alagamentos e inundações já tratamos na Parte 1 desta série, no tema saneamento básico.
Além de uma infinidade de recursos locais como arroios, lagos açudes, temos nada menos de 24 bacias hidrográficas, com seus respectivos rios, bastante bem distribuídos. A maior bacia é a do Guaíba, que inclui toda a região metropolitana e a maior lagoa do País, a dos Patos. Todas as bacias possuem seus Comitês de Gerenciamento, a quem compete definir o uso e a qualidade das águas, bem como propor as respectivas ações. Não funcionam por absoluta falta de condições negadas pelo Estado, uma omissão, um absurdo.
Portanto, há instrumentos para realizar rapidamente um plano de reservação e levantes das águas, suprindo as necessidades a qualquer tempo. Isto inclui a retenção de águas das chuvas e os levantes de água para constituir reservatórios ou irrigação direta. A energia necessária aos bombeamentos pode ser suprida (ou substituída nos casos dos levantes existentes com motores a combustão) pelos antigos e bons cataventos de bombeamento e/ou a geração local de energia elétrica com aerogeradores e/ou placas fotovoltaicas acompanhadas por bancos de baterias.
No relatório da ONU vimos como as regiões tornam-se críticas com a degradação e esgotamento dos mananciais pelo seu uso inadequado; portanto, não basta usarmos nossas fontes, precisamos recuperá-las e usá-las de forma sustentável, o que implica em revisar a ajustar os métodos de produção.
O Plano ABC é nosso compromisso internacional e permite produzir mais e de forma sustentável.
As COPs (Encontro anual entre as nações), ao analisarem o enfrentamento das variações climáticas, sempre identificaram a necessidade de renovar métodos de produção agropastoril, tanto para reduzir os GEEs, como para produzir mais e melhores alimentos, sem necessidade de ampliar a chamada fronteira agrícola, derrubando florestas.

Na COP21, em 2015, em Paris, o Brasil registrou seu compromisso de implantar uma agricultura e pecuária sustentáveis. A União criou o Plano ABC – Agricultura e Baixo Carbono -, coordenado pela Embrapa, com a participação dos estados, municípios e especialmente dos próprios produtores.
Em 10 anos pouco foi feito, mas as propostas caem como uma luva para o RS e, juntamente com a solução para a irrigação, podem avançar extraordinariamente nossa produção primária, tanto em quantidade como em qualidade.
Entre as principais propostas destacamos: (i) Recuperação de pastagens degradadas; (ii) Integração lavoura-pecuária-floresta e sistemas agroflorestais; (iii) Sistema Plantio Direto; (iv) Fixação biológica de nitrogênio; (v) Uso de bioinsumos; (vi) Tratamento dos dejetos animais e resíduos para produção de biometano e adubos; (vii) Uso de curvas de nível e outros métodos para reter as águas das chuvas e evitar a erosão hídrica.
Não é proibido exportar e importar alimentos, mas isto encarece os produtos. A necessidade de importar alimentos denota nossa fragilidade, mesmo com enormes possibilidades, de produzir nossos próprios alimentos.
Em nossas feiras (frequento todas as semanas), boa parte das frutas, legumes e até das verduras vem de outros estados e países, até do outro lado do planeta.
Chegamos a importar arroz, nas quebras de safras, trigo para garantir o pão nosso de cada dia, muito milho para garantir a comida dos animais, além de sementes e mudas e outros. Exportamos soja em grãos em demasia, enquanto deveríamos exportar mais o óleo e o farelo.

A produção em propriedades familiares também pode melhorar e aumentar
A produção nas pequenas propriedades, mais conhecida agricultura familiar, já possui bons avanços, mas ainda pode estruturar-se ambientalmente melhor e aumentar a produção de alimentos saudáveis. Todos ganharão e a saúde agradecerá.
Portanto, não só é plenamente viável como necessário, retomarmos a condição de forte referência agrícola e pastoril, gerando mais renda e postos de trabalho e qualidade de vida. Sem com isto, prejudicar avanços da indústria, comércio e serviços; ao contrário, também fortalecê-los.
Não é possível evoluir sem educação, saúde, segurança e outros aspectos sociais. O RS pode e precisa evoluir também nestes quesitos. Vamos abordar em artigo a seguir. Até.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

