Vicente Rauber

Engenheiro especializado em Planejamento Energético e Ambiental.

Comida: dinheiro para comprar e mais oferta com boa qualidade

No audio source provided.
Agricultura familiar precisa ser apoiada para produzir mais e produtos mais saudáveis
Agricultura familiar precisa ser apoiada para produzir mais e produtos mais saudáveis | Crédito: Freepik

Um outro mundo com comida saudável e sem fome é possível

Um país não possui soberania interna enquanto houver pobreza, especialmente quando está acompanhada por fome.

Estamos avançando bem: A FAO/ONU (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) anunciou em julho de 2025, a segunda saída do Brasil do Mapa da Fome, com dados constatados já em 2023, tendo o índice de subalimentação caído abaixo de 2,5% da população. Constatou-se uma redução da insegurança alimentar severa de 85% em relação aos anos anteriores, o que atingiu positivamente a 24,4 milhões de pessoas. Ainda assim em torno de 50 milhões de pessoas carecem de uma alimentação saudável e nutritiva. Falta dinheiro para as pessoas comprarem alimentos melhores e a agricultura produzir mais e melhor.

Fonte: AGE BRASIL

Há um movimento nacional liderado por AGE BRASIL, realizando um Mutirão de eventos nacionais híbridos (gentileza manifestar interesse em participar) e uma Conferência ao final, buscando propor um programa para obtenção da Soberania Plena em nosso País, através do desenvolvimento sustentável, soberano, democrático, inclusivo, justo e resiliente.

O AGE BRASIL é composto por um grande número de Entidades e Profissionais amplamente qualificados, do qual participamos, e que entendem que o Brasil precisa agir na busca de sua soberania plena.

O AGE teve origem num movimento inicial através de entidades e profissionais da A – Agronomia; G – Geociências e E – Engenharia.

No último sábado (28), o mutirão teve continuidade com 10 eventos, desta vez relacionando a soberania com os direitos humanos. Tivemos o privilégio de ser painelista do evento “Soberania e o sistema alimentar”, cuja manifestação aqui ampliamos.

Na soberania externa vamos bem; na soberania interna temos desafios do tamanho do Brasil.

Entendemos que a Soberania teve ser entendida em dois planos: a Soberania Externa e a Soberania Interna.

No plano externo, vamos bem, não nos dobramos ante as ameaças e o tarifaço aplicado pelo Chefe do neofascismo Donald Trump, que com sua atitude gerou muitos prejuízos à nação e ao povo dos EUA. Não revidamos, porque assim mantivemos nossas relações históricas e comerciais com os estadunidenses. Ao mesmo tempo, o Brasil e o seu Presidente são amplamente reconhecidos mundo afora. Lula corretamente insiste no Multilateralismo, pelo qual todas as nações se reconhecem com autonomia e se respeitam. As divergências são reconhecidas pela negociação, jamais pela guerra. Este posicionamento não tem evoluído mais pela absoluta incapacidade da ONU em mediar conflitos, razão maior da sua criação em 24 de outubro de 1947, com a conclusão da Segunda Guerra Mundial, e o Brasil sendo uma das nações fundadoras.

No plano interno estamos avançando muito: A FAO/ONU (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) anunciou em julho de 2025, a segunda saída do Brasil do Mapa da fome, com dados constatados já em 2023, tendo o índice de subalimentação caído abaixo de 2,5% da população. Constatou-se uma redução da insegurança alimentar severa de 85% em relação aos anos anteriores, beneficiando 24,4 milhões de pessoas.

No entanto, temos desafios a enfrentar do tamanho do Brasil! Nenhuma nação é soberana com o povo pobre. Não avançamos mais devido às enormes e descabidas exigências impostas pelo Centrão, em troca da governabilidade do país.

Nenhuma nação é soberana com o povo pobre, o Brasil ocupa o 8º lugar entre os países mais desiguais

Nosso país é gigante, continental, com imensos recursos naturais e minerais. Neste contexto o País precisa conquistar a sua soberania ambiental, entre outros aspectos, superando o vergonhoso papel de gerar 45% dos seus gases de efeito estufa – GEEs – justamente no desmatamento, queimadas e agressões à Amazonia e demais biomas; 25% dos GEEs decorrentes dos modos de produzir na agricultura e pecuária, enquanto os combustíveis fósseis, óleo diesel e gasolina em especial, são responsáveis por 20% do GEEs nacionais, porém nos municípios com predominância urbana chegam a representar dois terços.

Nosso país é forte economicamente. Entre as riquezas geradas, ocupa a 11ª posição entre todos os PIBs (Produto Interno Bruto).

O contraste da favela e o asfalto é um clássico exemplo da desigualdade persistente no Brasil, mas não é o único.
O contraste da favela e o asfalto é um clássico exemplo da desigualdade persistente no Brasil, mas não é o único. | Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

E por que falta dinheiro para a maioria do povo comprar comida suficiente e de boa qualidade?

O Brasil ocupa o 8º lugar entre os 10 países mais desiguais do mundo, conforme o índice Gini, que mede a concentração da renda.

Os muito pobres, com renda de aproximadamente R$ 100/mês chegam perto de 3,5%; os pobres, com renda mensal domiciliar de R$ 527 ocupam em torno de 24%. Não fosse o Bolsa Família e outros programas sociais do governo federal, a extrema pobreza estaria acima dos 10% e os pobres acima dos 30%.

Cerca de 106 milhões de pessoas (metade mais pobre) usufruem tão somente 9,3% da renda nacional;

Entre os mais ricos, apenas 1% da população detém 37% da riqueza brasileira. Os 10% mais ricos ficam com 70% de toda a renda nacional.

Alguns fatores, entre outros, são determinantes desta situação. Não por acaso temos um dos piores sistemas tributários do mundo, baseados sobre a produção e o consumo, ao contrário de todos os países do primeiro mundo, que recolhem em torno de 40% do PIB em impostos principalmente incidentes sobre a renda e a propriedade. De todos os recursos federais em torno de 44% são destinados ao sistema bancário, com o pagamentos de juros, encargos e amortizações. Além de ficar com a maior parte do orçamento público, o sistema bancário incide fortemente sobre as políticas públicas.  Entre as 10 maiores empresas brasileiras, 4 são bancos; também ao contrário dos outros grandes países, nos quais vamos encontrar no máximo 1 empresa entre as 10 maiores. As grandes redes de comunicação (o chamado quarto poder), historicamente conservador, mesmo ocupando concessões públicas, igualmente incide fortemente nas execuções das políticas públicas. Parcela do agro, que arrecada bilhões, não cansa de reclamar mais subsídios. E ainda precisamos citar o crime organizado, com a sua imensa gama de crimes, desenvolve uma enorme economia a parte, que chega a custar valores equivalentes a 11% do PIB e envolver em torno de 50 milhões de brasileiros(as). Trata-se, além dos crimes incluindo mortes, de um intenso instrumento de concentração de renda por um lado e gerador de pobreza por outro.

Nossa elite econômica sustenta este capitalismo atrasado e nunca relutou em promover golpes de estado ao longo da história brasileira.

E quem sustenta historicamente todas estas políticas de exclusão social? A elite econômica brasileira, que não reluta em promover golpes, até envolvendo as forças armadas, diante de meras reformas, como bem demonstra nossa história. Trata-se do capitalismo mais atrasado do Planeta, completamente distinto das outras grandes nações, que fazem questão da participação de toda a população do produto econômico, que passa a ser muito maior. Os governos destes países têm muito mais recursos para as políticas públicas, em especial educação, saúde, segurança, energias, infraestrutura e outras, o que também representa renda principalmente para os pobres.

O agronegócio cumpre um papel fundamental para o país, exportando soja (principal produto), milho, carnes, açúcar, café e celulose, entre outros produtos. Em minha opinião deveríamos exportar menos soja em grãos e mais óleo e farelo, gerando mais renda e postos de trabalho no Brasil. Em 2025 o agro contribuiu em R$ 775,3 bilhões a favor da balança comercial.

Quem põe comida em nossas mesas é a agricultura familiar que ainda pode produzir mais e melhor

Quem põe comida em nossas mesas em mais de 70% é a agricultura familiar, que também gera muita mão-de-obra. Precisa ser apoiada para produzir mais e produtos mais saudáveis.

Cabe lembrar que, apesar da falta de dinheiro para a maioria da população, 60% da população está doente por excesso de peso. Ou seja, praticamente todos precisam comer melhor, o que não significa comer alimentos mais caros, e sim alimentos mais adequados, mais nutritivos e menos engordurantes.

Como já referimos acima, a agricultura e a pecuária, e, neste caso, principalmente os grandes produtores, e a agricultura familiar também, precisam reduzir fortemente a geração dos 25% de GEEs. Em 2015 o Brasil assumiu o compromisso, na COP-22, em Paris, de implantar o método ABC – Agricultura de Baixo Carbono – que possibilita, sem derrubar nenhuma árvore mais e muito menos realizar queimadas, produzir mais e produtos melhores.

Entre outros itens relevantes o Plano ABC propõe: (i) recuperação de pastagens; (ii) Plantio Direto; (iii) integração lavoura-pecuária-floresta; (iv) Manejo de resíduos e estercos, propiciando a produção de adubos e biogás; (v) Forte redução do uso de fertilizantes hidrogenados; (vi) Uso intenso de bioinsumos; (vii) Completar solução para a reservação e irrigação de água. Só no RS, desde 2014 até 2024, calculam-se perdas de aproximadamente R$ 100 bilhões nas safras (sem contar com as perdas urbanas), recursos muito superiores às necessidades para resolver todos os investimentos necessários ao suprimento de água nas lavouras durante as secas,

Hortas comunitárias se multiplicam nas comunidades do Rio
Hortas comunitárias se multiplicam nas comunidades do Rio | Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

Também no meio urbano, produz-se comida. Em 2016 ocorreram 1971 mortes decorrentes de calor e poluição em Medellin-Bogotá, que fica num vale entre montanhas da Cordilheira dos Andes. A Solução foi ampliar fortemente a arborização implantando 30 corredores verdes em todas as avenidas, no entorno das águas e grandes parques, com sementes locais, incluindo frutas, principalmente mangas, porque estas propiciam os melhores resultados. Assim, os pássaros e outros animais estão presentes e são colhidas mutas frutas para a população.

Também é possível produzir alimentos no meio urbano.

Ainda podemos citar as hortas urbanas com exemplos importantes, que podem e devem ser ampliadas onde for possível.

As áreas suburbanas também devem ser aproveitadas; Porto Alegre produz muito em sua área dita rural, especialmente frutas e verduras. Por exemplo é o município de maior produção de pêssego de mesa no Estado.

Um outro mundo com comida saudável e sem fome é possível! Mas é necessário vencer o neofascismo e o capitalismo atrasado. Ou seja, o desafio é gigante, mas a luta continua!

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

|

Newsletter