Vicente Rauber

Engenheiro especializado em Planejamento Energético e Ambiental.

Histórias da era do petróleo (6)

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O principal elemento da transição energética é a introdução de veículos elétricos
O principal elemento da transição energética é a introdução de veículos elétricos | Crédito: Divulgação

A transição energética é imprescindível e está atrasada

A transição energética é imprescindível e está atrasada. A natureza já avisou e continua insistindo: parem de sobreaquecer o planeta! Não há um dia sem eventos climáticos com duras consequências. Agora a Europa sofre com calor excessivo, lamentando mais de mil mortes, principalmente na França.

O que significa dizer, parem de emitir gases de efeito estufa (GEEs), que retém raios solares além do necessário. Isto ocorre, entre outros motivos, pela queima de óleo diesel e gasolina em motores a combustão, no Brasil e no mundo. Os motores à combustão possuem somente em torno de 35% de eficiência, gerando muita poluição, incluindo os GEEs.

O melhor caminho é a substituição destes combustíveis por energia elétrica, a mais eficiente de todas as energias e praticamente sem poluição no seu uso, e com incontáveis usos, já está em toda a nossa vida. o motor elétrico é três vezes mais eficiente que o motor à combustão. A energia elétrica requer outra energia para a sua produção.

O petróleo continua sendo a modalidade energética mais usada no mundo, inclusive no Brasil. A natureza exige a substituição dos combustíveis fósseis.

Pelos dados atuais conhecidos, o consumo da energia no planeta está assim dividida:

  • Petróleo – 30% – a principal energia nos transportes e indústria. Neste item precisam entrar mais os veículos elétricos nos transportes e gás natural, biometano e biocombustíveis na indústria;
  • Carvão mineral – 28% – muito utilizado na geração de energia elétrica, onde precisa ser substituído, e na siderurgia;
  • Gás natural – 23% – É um hidrocarboneto associado ao petróleo, porém gera poucos GEEs, quando usado apropriadamente. Nos motores à combustão também apresenta baixa eficiência. Na indústria é fator de produtividade;
  • Fontes renováveis – hidráulica, biomassa, eólica, solar e geotérmica – 14%;
  • Nuclear – 6% – é não renovável, depende do urânio, que é finito, mas não gera GEEs.
    Pelo quadro acima, o mundo ainda consome mais de 80% de energias não renováveis. Ou seja, ainda temos muitos desafios a superar e caminhos a percorrer.
    O melhor avanço está na geração de eletricidade de baixo carbono, renováveis e nuclear, que ultrapassa 40%, com destaque para os crescimentos de solar (29%) e eólica (7,9%).

O Brasil é referência mundial na geração de energia elétrica com recursos renováveis. Também poderá ser em transição energética.

Fonte: EPE – Empresa de Pesquisa Energética

Vejamos a situação brasileira, considerando os dados consolidados em 2025: energias renováveis e não renováveis estão praticamente empatados em torno dos 50%. Porém o petróleo continua fortemente dominante e representa em torno de 2/3 da emissão de GEEs nos grandes centros urbanos.

Somos referência mundial, percentualmente, entre os grandes países, na geração de energia elétrica com recursos renováveis, em torno de 90%. Em países com tamanho físico menor, o Paraguai usa 100% proveniente de hidrelétricas, e a Noruega, Dinamarca e Áustria próximo dos 100%. A Islândia gera 100% com recursos renováveis com hidrelétricas e geotérmica.

Como já vimos nos artigos anteriores, o petróleo, principalmente a partir dos anos 1900, estabeleceu uma era que continua dominante, mas que para nossa própria sobrevivência precisa ser superada.

Passou a influenciar as economias dos países e a vida das pessoas. Participou fortemente de todas as guerras e conflitos, dentro e fora do oriente médio, e sempre que isto ocorreu (e ainda ocorre) gerou desabastecimentos e aumento de inflação no mundo. Há uma enorme estrutura de produção, não apenas de veículos, a ser refeita em todos os países.

Há um significativo número de países cuja economia depende majoritariamente da produção e venda de petróleo, e que concentram mais de 80% de suas reservas mundiais. São os 11 membros da OPEP – Arábia Saudita, Irã, Iraque e Kuwait (Oriente Médio), Argélia, congo, Guiné Equatorial, Gabão, Líbia e Nigéria (África) e Venezuela (América do Sul). Outros países não integrantes da OPEP, mas cujas economias também dependem do petróleo são a Rússia, os Estados Árabes Unidos, Cazaquistão e Angola. Todos estes países terão que reorganizar completamente a sua economia.

O petróleo continuará tendo importância em outros usos, especialmente na petroquímica

O petróleo continuará tendo importância, como nos usos apropriados dos gases – GN e GLP -, lubrificantes e asfaltos, e principalmente na petroquímica que tende a crescer. Hoje não possuímos alternativas, e dificilmente teremos em quantidade necessária, para embalagens seguras de alimentos, medicamentos, usos hospitalares, carcaças de computadores, celulares, TVs e outros equipamentos, interiores de veículos, tecidos e borrachas sintéticas, fertilizantes e cosméticos. O que urgentemente precisamos aprender é reusar e reciclar todos os materiais plásticos usados, como sabem fazê-lo o Japão (vide comportamento dos jogadores e torcida japonesa na Copa do Mundo) e a Alemanha.

Precisamos mudar a nossa cultura. O pior entrave é o pensamento e as ações nazifascistas, que adotam o negacionismo, vide os EUA, que voltaram a incentivar o uso dos combustíveis fósseis.

Os combustíveis fósseis somente serão substituídos na medida que houver alternativas renováveis. Para entender, se hoje os combustíveis fósseis fossem completamente proibidos, o mundo pararia, somos dependentes dele.

A principal alternativa da transição energética são os veículos elétricos. Estamos muito lentos, atualmente ocupam apenas 4% da frota mundial.

Caminhões elétricos movidos a células de hidrogênio – Crédito: Mercedes Benz

O principal elemento da transição energética é a introdução de veículos elétricos. Estamos muito lentos. Os veículos elétricos e híbridos totais não ultrapassam os 4% da frota mundial. No Brasil ainda não alcançam 1%. As vendas atuais ultrapassam os 20%. O destaque é a China, que possui mais veículos elétricos e híbridos do que veículos a combustão e a maioria dos veículos novos vendidos são elétricos. A China é campeã mundial da produção e venda de veículos elétricos.

O Japão é destaque na produção e uso de veículos elétricos para cargas pesadas e longas com o uso de células de hidrogênio. São necessários esforços mais decisivos para superar as dificuldades.

Lítio – Crédito: Pixabay

Os principais entraves, que também incidem nos preços, está na fabricação de baterias, que depende da mineração e beneficiamento de lítio, além de cobalto, níquel e terras raras. Hoje, a China concentra em torno de 90% desta produção. É uma excelente oportunidade para o Brasil, que possui a segunda maior reserva de terras raras e metais estratégicos. No caso, precisamos fazer parcerias estratégicas para minerar e beneficiar estes elementos e produzir baterias.

O lítio também pode ser substituído por sódio e as próprias baterias podem ser substituídas por células de hidrogênio. O Brasil possui estas possibilidades. Os altos preços e os insuficientes locais de recarga precisam ser superados.

A transição energética precisa ser justa

Os principais países geradores de GEEs e poluição em geral precisam acelerar o passo, no caso os países ricos do primeiro mundo. O Planeta é o mesmo para todos, a nossa casa comum.

Os trabalhadores e as comunidades atingidas pelas atividades a serem extintas ou reduzidas precisam receber novas capacitações e oportunidades de trabalho e renda.

É o caso das regiões produtoras de carvão mineral, no RS e SC. Para este recurso mineral há outras importantes possibilidades como a geração de matérias primas para fertilizantes e adubos.

As energias alternativas precisam ter acesso universalizado, sob pena de concentração de renda e oportunidades.

O diálogo e o debate envolvendo a população é elemento fundamental de democracia e sucesso.
E a Petrobras, como está indo atualmente, com a transição energética? Em artigo próximo teremos que falar sobre isto!

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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