“Eu costumo sempre falar que eu, às vezes, tenho a sensação de que tenho que correr a maratona duas vezes mais do que um homem para chegar no mesmo lugar, falando sobre o mesmo papel. Acho que a gente precisa entender, primeiro, que isso é uma condição estrutural da nossa cultura, das nossas mães. As mulheres da minha idade, eu tenho 43 anos, poucas mães trabalhavam. As nossas avós, certamente, quase nenhuma”. Assim Anelis Assumpção resume a condição das mulheres na música, nas artes e na cultura brasileira em geral.
Em dezembro do ano passado, ela lançou seu quarto disco de estúdio, intitulado ‘sal’. Um trabalho diferente, em que ela foi responsável por comandar todas as fases de produção do álbum: foi produtora, compositora e pensou, em parceria com outras mulheres negras, todo o processo de concepção da obra.
“Em todos os meus outros trabalhos, eu também produzi, coordenei, mas sempre precisando muito do respaldo de um conhecimento técnico, ou de um know how que sempre, 100% das vezes, vem de corpos masculinos, de homens cisgêneros. Isso não é um problema, mas era um desafio muito interessante para mim, poder exercitar a produção através do conhecimento que eu já tinha, que difere tecnicamente de muitas produções clássicas”, explica.
“Meu grande impulso foi tentar organizar como passar essa informação, como afirmar também, até como um gesto quase político mesmo das nossas capacidades, dos nossos saberes, dos nossos conhecimentos como mulheres no mundo, para sair dessa zona onde a gente se vê presa, engessada, como se você só pudesse existir daquela forma, só pudesse produzir com os produtores da vez, da moda. E todo ano, ou a cada cinco anos, aparece um nome de um produtor brasileiro que produz 10, 15 discos daquela década”, complementa Anelis.
Paralelo à gestão de sua carreira, Anelis luta para manter vivo o legado de seu pai, o também cantor e compositor Itamar Assumpção. O músico morreu em 2003, vítima de um câncer de intestino. Em 2020, no mês da consciência negra, Anelis lançou o Museu Virtual Itamar Assumpção, um grande e vasto relicário da obra do pai, composto de vídeo-instalações, entrevistas, apresentações e muita história.
“Eu estou tentando manter essa memória e trabalhar em função desse cuidado, dessa manutenção. Porque a maré a favor é a do apagamento mesmo. Somos um país estimulado a descartar as nossas memórias, nossas ancestralidades. Então eu acho que uma parte da minha missão é tentar mostrar para o Brasil e deixar isso cada vez mais acessível, para que as pessoas consigam reconstruir as suas identidades a partir de todo ancestral que veio antes”, explica a cantora.
