Está aberta ao público a exposição Gordon Parks – A América sou eu, no Instituto Moreira Salles (IMS) de São Paulo. Ao todo, o acervo reúne 200 obras do fotógrafo negro nascido nos Estados Unidos, contando com imagens produzidas entre 940 e 1970, livros, textos e filmes.
Registrando a história da população negra em território norte-americano, com destaque ao duro período de segregação racial enfrentando no século 20, os visitantes poderão encontrar fotografias que retratam a vida cotidiana, as manifestações políticas e figuras de destaque, como Malcolm X, Martin Luther King e Muhammad Ali.
Janaína Damaceno, curadora de toda a exposição, explica porque Parks e sua obra continuam atuais e ajudam a enfrentar desafios que persistem até os dias de hoje.
“Gordon conseguiu traduzir visualmente a mão da estrutura social sobre a vida negra. Estamos num período em que, se a gente não prestar muita atenção na história, corremos o risco de repeti-la. Temos visto isso no Brasil com a tentativa de golpes, mas também na negação da história da segregação racial nos Estados Unidos. O capitalismo, esse sistema imperialista norte-americano, é baseado na exploração racial e no supremacismo branco”, argumenta, ao Conversa Bem Viver.
A exposição é realizada em parceria com a Fundação Gordon Parks, que preserva o acervo do fotógrafo.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – Quem foi Gordon Parks e por que ele e suas fotografias seguem atuais?
Janaína Damaceno – Gordon Parks é um homem negro que nasce no meio-oeste americano, no Kansas, em 1912, ainda durante o período da segregação racial nos Estados Unidos. Isso é um dado importantíssimo sobre o Gordon Parks para a gente entender melhor a trajetória de ascensão social dele e a própria trajetória profissional.
Talvez muita gente não saiba, mas, até 1965, não havia uma lei de direitos civis nos Estados Unidos e as pessoas viviam, principalmente no sul e no meio-oeste em negação racial, separados entre brancos e negros, principalmente no espaço público.
Então, a gente precisa ter essa noção para entender a trajetória do Gordon Parks, alguém que nasce no sul, segregado, no estado extremamente violento do Kansas. É alguém que diz de si mesmo que teve a sorte de chegar até os 90 anos, porque o que o destino tinha traçado para ele, na verdade, não era sobreviver, assim como para muitos jovens negros daquele momento.
Gordon Parks foi alguém que muito cedo saiu da cidade dele e fez o trajeto da grande migração dos Estados Unidos, aquela migração de pessoas negras que saem do sul segregado, do meio-oeste segregado, e vão para o norte, vão para Nova Iorque, vão para Chicago, vão para Detroit, vão para cidades grandes que eram racistas também, mas que não eram segregadas.
Isso é uma estratégia de manutenção da própria vida. Então, Gordon Parks, primeiro, foi alguém que teve uma noção muito forte, ele e a família, de que era necessário esse deslocamento para que continuasse a sobreviver. Era essa pessoa que é uma migrante dentro do seu próprio país, que está buscando melhores condições de vida e de sobrevivência em outra cidade, e que acaba com 28 anos se apaixonando pela fotografia e entendendo a fotografia como uma arma possível contra o sistema de segregação racial e contra o racismo nos Estados Unidos.
Então, ele começa a fotografar para a imprensa negra norte-americana em 1938 e isso é um dado muito especial da trajetória do Gordon Parks, entrar na imprensa negra. Ele foi morar no Minnesota, então ele entra na imprensa negra do Minnesota e começa a fazer fotos que a gente diria que são fotos da vida social negra, das festas, fotos de formatura, fotos de casamento, foto de moças que querem aparecer no jornal, mas essas fotos são essenciais na formação política do Gordon Parks.
Essas fotos são essenciais durante toda a trajetória dele, porque é ali que ele começa a construir uma retórica e uma gramática humanista e antirracista no seu trabalho, ao defender a vida e a vida negra, no seu cotidiano, como uma vida necessária e viável.
Eu gosto de falar isso porque, muitas vezes, a gente tem uma retórica dizendo que a história do Gordon Parks na fotografia começa com fotografia de moda, nos anos 40, quando, na verdade, ali nos anos 30, ele já estava fazendo uma fotografia engajada e ativista.
Ao mesmo tempo em que fotografava, ele trabalhava na Via Férrea, numa empresa, como carregador e como garçom. Ele faz parte de uma conjuntura nos Estados Unidos em que trabalhar nas empresas de trem dava um certo status para homens negros, porque era um lugar onde eles poderiam ter um emprego fixo, e poderiam ascender socialmente.
Ascender não quer dizer ficar rico, entrar na classe média, mas quer dizer sustentar com uma certa dignidade a si mesmo e a sua família. E esse grupo do qual ele pertenceu, dos carregadores de mala nos trens, e de garçom nos trens, possuía o sindicato negro mais forte dos Estados Unidos durante a primeira metade do século 20.
Então, eu acho que ele tem dois lugares de formação política que são extremamente importantes para a gente entender quem é essa figura maravilhosa, Gordon Parks, que é essa formação na imprensa negra norte-americana e essa formação também dentro de uma carreira que se alia ao sindicato dos trabalhadores das vias férreas, que se torna o maior sindicato negro nos Estados Unidos, que luta pelos direitos civis.
Então, eu vejo ele nesses dois lugares de formação política dentro do movimento negro, do que a gente pode entender como um movimento negro, que catapultam ele depois para se tornar um dos maiores fotógrafos do mundo.
O nome da exposição é A América sou eu, frase do Parks. Essa afirmação era uma forma de reivindicar o próprio lugar na sociedade?
Eu acho que sim. Essa interpretação está bem baseada, por exemplo, no pensamento do W.E.B. Du Bois, que, no início do século 20, escreveu um livro bastante importante, em que ele vaticina que o século 20 seria o século da linha de cor.
Essa linha de cor separaria brancos e negros e ela impediria que os negros se vissem e se afirmassem enquanto cidadãos americanos. Ele dizia que não era possível naquele momento ser negro e ser americano ao mesmo tempo. Por isso, as pessoas negras teriam uma dupla consciência no território americano. Ele olhava para a sociedade americana e não se via encarnado enquanto um cidadão americano. Ele era uma pessoa negra, um estrangeiro no seu próprio país, como dizia o W.E.B. Du Bois.
Então, a questão da cidadania americana para as pessoas negras sempre foi um dado extremamente importante durante todo o século 20. Quando Gordon Parks diz “A América sou eu”, o que ele está de alguma forma reivindicando é a possibilidade de cidadania para pessoas negras naquele momento.
É interessante que, no momento em que ele fala isso, ele está escrevendo um trecho para Life, para uma reportagem fotográfica que ele faz sobre a família Fontanelli, que é uma família negra que vive no Harlem, muito pobre, que tinha condições muito precárias de vida, que passavam muito frio durante o inverno, por exemplo. Uma família onde as crianças comiam a parede de gesso quando estavam com fome, porque não tinham o que comer.
Então, essa reportagem que ele faz sobre a família Fontanelli e onde ele escreve “América Sou Eu” é uma resposta para a própria revista Life, que dizia que não entendia porque os jovens negros, naquele momento, estavam criando um partido como o Partido dos Panteras Negras, estavam criando um movimento como o movimento Black Power.
Eles diziam assim: “Bom, mas a gente acabou de conquistar a lei dos direitos civis em 65, a gente acabou de conquistar a lei do direito ao voto, por que os jovens estão tão revoltados?”.
E aí o Gordon Parks faz essa reportagem fotográfica para Life como uma resposta dizendo: “Bom, a juventude negra está revoltada, porque, embora teoricamente os direitos civis estejam de certa maneira igualando brancos e negros, os direitos sociais nunca chegaram para a gente”. Então, a pergunta que ele faz no início desse trecho, que ele finaliza com “A América Sou Eu”, é: “o que eu quero?” “o que queremos?”, que é basicamente a mesma pergunta que os Panteras Negras fazem nos seus 10 pontos sobre o Partido dos Panteras Negras.
Afinal de contas, o que nós queremos? E aí ele responde. Ele pergunta junto com a juventude negra, ele pergunta junto com os Panteras Negras, o que nós queremos e ele finaliza esse trecho dizendo: “A América sou eu”, ou seja, “o que eu quero é me tornar um cidadão, o que eu quero é uma igualdade de fato, tanto a partir dos direitos civis quanto dos direitos sociais”.
Vivemos um momento político conturbado, em que se está em disputa a questão da soberania e no qual, cada vez mais, estamos reafirmando o ser brasileiro. Por que é importante olharmos para Gordon Parks?
O Gordon esteve no Brasil em 1961. A luta negra é uma luta transnacional. É uma luta que se estende desde África até toda a diáspora africana ou, como a gente vem chamando, da Global África, da África Global.
David Faustino, que é professor da USP, deu uma entrevista para a gente em que ele disse uma coisa que é bastante importante sobre essa questão transnacional da luta negra. Que, mesmo nos Estados Unidos, grandes lideranças como Stokely Carmichael, são lideranças negras caribenhas, por exemplo.
Marcus Garvey, Stokely Carmichael, são pessoas que vêm do Caribe e vão propor uma revolução negra nos Estados Unidos. Stokely Carmichael vem para o Brasil também. Isso é bem importante. Então, acho que tem um dado da transnacionalização da luta negra, que é bastante importante.
E a gente pode aproximar o trabalho do Gordon Parks ao trabalho de fotógrafos negros brasileiros, como Januário Garcia, Walter Firmo, Lita Cerqueira, como o Arquivo Zumbi, Lázaro Roberto, retratistas do Morro, Luiz Paulo Lima. Tem muita gente, na verdade, a lista é bem grande. Que vão construindo um grande arquivo transnacional da imagem e da luta negra pelo mundo.
O Peter Magubane na África do Sul, e uma série de fotógrafos negros da África do Sul que documentaram Apartheid. Através da imagem, a gente consegue visualizar melhor a transnacionalidade da luta negra contra o racismo, contra o imperialismo e isso é algo que é bastante importante.
Mas mais do que isso, eu acho que o Gordon Parks consegue construir para a gente a partir do corpo negro, e da alma negra. Pensando com W.E.B. Du Bois, ele começa a pensar que o nosso corpo pode ser uma medida de humanidade possível, de uma humanidade universalizada inclusive, que a gente pode universalizar a luta a partir dos corpos negros.
Normalmente a gente pensa a humanidade universalizada a partir do corpo branco. Mas tem algo que eu acho que é muito forte no trabalho ativista do Gordon, que pode, de alguma maneira, também atingir o nosso público, que é uma sensibilidade única para documentar a relação entre indivíduo e estrutura social.
Gordon é um dos fotógrafos mais incríveis que conseguiu traduzir para a gente visualmente essa mão muitas vezes invisível da estrutura social sobre a vida negra. A outra questão é que a gente está num momento de revisionismo histórico muito grave, em que imagens da escravidão nos Estados Unidos, por exemplo, têm sido contestadas, museus negros nos Estados Unidos têm sido atacados.
E eu fico pensando até que medida a própria história da segregação racial nos Estados Unidos vai acabar passando também por um processo de revisionismo histórico muito grave. Já passa, na verdade. Grande parte da direita americana contesta a questão da segregação racial. Alguns políticos inclusive dizem que as pessoas negras talvez vivessem melhor durante o período da segregação racial do que agora.
Então, olhar para o trabalho do Gordon Parks, esse trabalho que ele constrói de 1938 até os anos 70, que é o grosso do trabalho dele que está na nossa exposição, pode de alguma maneira nos alertar também para um movimento que a gente tem visto hoje com essa tentativa muito grave de tentar subalternizar novamente as pessoas negras e a luta negra.
É difícil encontrar as palavras corretas às vezes para dizer isso. Mas eu acho que a gente está num período em que, se a gente não prestar muita atenção na história, e acho que muitas vezes as pessoas não prestam atenção na história, a gente corre o risco de repetir essa história novamente.
A gente tem visto isso no Brasil com a tentativa de golpes, mas eu vejo isso também na tentativa de negação da história da segregação racial nos Estados Unidos, na África do Sul ou do racismo no Brasil. Então, eu acho que há um recrudescimento mesmo das tentativas de humanização das pessoas. É o recrudescimento das políticas que tentam aniquilar as pessoas negras, e que tentam aniquilar a própria história do que foi a violência perpetrada por esse sistema de dominação racial canhestro que a gente viu durante o século 20.
O capitalismo como a gente conhece, esse sistema imperialista norte-americano, é baseado na exploração racial e no supremacismo branco. Então, eu acho que não tem como a gente desvincular os projetos dos políticos do supremacismo branco, junto com um projeto imperialista e capitalista neoliberal que a gente vive.
Conversa Bem Viver

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