Grande nome do teatro, do cinema e da televisão brasileira, Paulo Betti está em cartaz, em São Paulo, com a peça Os Mambembes, que trata sobre os desafios da produção teatral. O espetáculo articula comédia e emoção com exibição às sextas (21h), sábados (20h) e domingos (17h) no Teatro Tuca.
O texto original é do maranhense Artur Azevedo e foi escrito há mais de 120 anos. Para esta edição, a peça foi adaptada, mas mantém as cores, a relação com o público e a diversão presentes desde a primeira versão.
“Todos nós fazemos todos os personagens. Isso também é um jogo muito interessante para o público, que vai identificando que personagem nós estamos fazendo pela cor da nossa roupa, pelas características da interpretação. Esse é um jogo subliminar que vai acontecendo o tempo todo e fazendo a plateia ter uma participação também. É de descoberta, de surpresa. Mas quem já viu Mambembe em outra versão vai reconhecer também essa nossa versão”, explica o ator, ao Conversa Bem Viver.
Betti destaca a importância das expressões culturais para a construção da identidade popular brasileira, comemorando o momento de reconhecimento internacional vivido pelo cinema nacional, mas sem deixar de enfatizar a relação ímpar que o teatro permite estabelecer com o público.
“Paulo Autran dizia que o teatro é do ator, o cinema é do diretor e a televisão é do patrocinador. Isso é engraçado, mas é um pouco verdade. Embora eu goste de atuar também no cinema e na televisão, nada substitui a coisa do ao vivo do teatro. No cinema, temos sucessos como Malês, O Agente Secreto e Ainda Estou Aqui. Eu acho que o público brasileiro está com vontade de se ver, de ver seu país nas telas. É gostoso você entrar no cinema e ouvir a sua língua, o seu sotaque”, comenta.
Sempre muito ativo politicamente, Betti também é reconhecido por não se furtar a participar do debate público, em especial na denúncia de injustiças sociais. Filiado ao Partido dos Trabalhadores, o ator afirma que essa característica faz parte não só do que ele é como artista, mas da sua formação enquanto pessoa. Já tendo participado de produções audiovisuais para campanhas de Lula (PT), ele é enfático ao anunciar que também será ativo nas eleições de 2026.
“Vou entrar de cabeça na eleição. É no Congresso, no Senado e nas assembleias que se resolvem as coisas. Se os pobres não se tocarem disso, vão se ferrar, nós vamos nos ferrar. Os pobres têm que não se deixar enganar. E o PT representa os mais pobres no Brasil, por isso é tão perseguido. Por isso não dão moleza nenhuma para o Lula”, afirma.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – Os Mambembes, com texto de Artur Azevedo, é uma peça de 121 anos. Isso prova que os clássicos não envelhecem?
Paulo Betti – Sim. Essa peça é muito montada, muito mais montada por grupos e escolas de teatro, porque os personagens são muitos. Profissionalmente, fica meio inviável você fazer Os Mambembes como ela foi escrita. Então, para nossa versão, foi feita uma adaptação, também entendendo os tempos de hoje. Ninguém aguenta mais ver uma peça que dura 3 horas. No nosso caso, dura 1 hora e 20 minutos.
Concentramos um extrato da peça do Artur Azevedo em uma versão um pouco mais situada do ponto de vista feminino. A peça original é de 1904 e tem algumas coisas que hoje em dia soariam até um pouco agressivas, do ponto de vista do comportamento da mulher, que era apresentada como submissa. Isso, na nossa peça, tentamos enfrentar e trair um pouco o Artur Azevedo. Mas é muito divertido o espetáculo, é um espetáculo para a família também. As crianças que vêm assistir gostam. É tudo muito colorido, o nosso teatro, o nosso palco, o nosso cenário, os nossos figurinos, etc.
No espetáculo original são 80 personagens. Vocês adaptaram isso?
Sim. Nós não fazemos esses 80 personagens, fazemos 30 personagens mais ou menos, em um sistema coringa, que foi uma coisa muito utilizada na época do Teatro de Arena. Todos nós fazemos todos os personagens. Isso também é um jogo muito interessante para o público, que vai identificando que personagem nós estamos fazendo pela cor da nossa roupa, pelas características da interpretação.
Esse é um jogo subliminar que vai acontecendo o tempo todo e fazendo a plateia ter uma participação também. É de descoberta, de surpresa. Mas quem já viu Mambembe em outra versão vai reconhecer também essa nossa versão. É uma companhia de teatro viajando pelo país e passando pelos perrengues que acontecem com uma companhia de teatro, viajando, com encontros com políticos corruptos, falta de público, não tem dinheiro, não tem onde ficar, dificuldades financeiras. Muito da diversão é uma comédia.
O que te inspira a não desistir do teatro, mesmo já tendo carreira nas telas?
O teatro é o encontro físico entre o público e os atores. Ou seja, nós estamos aqui, não é um filme que vai passar em uma tela, que também já é maravilhoso. Somos nós que vamos estar ali na frente do público. Depois, vamos sair, quando acabar a peça, e encontrar as pessoas na frente, reencontrar pessoas, encontrar pessoas. Esse encontro é insubstituível.
Se você se afasta disso, desse contato com o público, você se encastela de uma maneira melancólica. O teatro é onde o ator afia sua ferramenta, afina seu instrumento. É onde nós nos preparamos para o ofício, para a profissão. Você entra em cena e tem que falar em voz alta e tem que contracenar e estar junto com os colegas. Eu tenho também uma outra peça chamada Autobiografia Autorizada, um monólogo. Mas aqui é a conversa direta com os colegas, o jogo de cena.
O camarim é a coisa mais gostosa que existe, porque é onde a gente conversa. O nosso diretor está sempre presente, afiando a peça, apertando o espetáculo, nos dando feedback sobre o nosso trabalho, uma crítica, uma ideia para melhorar, ajustando o espetáculo. É um espetáculo vivo. Emílio de Mello, que é o diretor de Mambembes, não tem aquele comportamento de “estreou e nunca mais aparece”. Ele está presente, tomando notas, melhorando a iluminação, melhorando a nossa interpretação, dando toques.
O teatro é o lugar do ator. É óbvio, tem atores que não fazem teatro. Mas eu sou do teatro, gosto. O Paulo Autran dizia que o teatro é do ator, o cinema é do diretor e a televisão é do patrocinador. Isso é engraçado, mas é um pouco verdade. Embora eu goste de atuar também no cinema e na televisão, nada substitui a coisa do ao vivo do teatro. É uma mágica, é um ritual, é uma coisa praticamente religiosa, sagrada, o teatro.
O teatro Tuca, em São Paulo, onde a peça está em exibição, marca a história da luta pela democracia no Brasil. Isso te afeta, de alguma forma, no momento de pisar no palco?
Sabemos que estamos atuando em um palco histórico, onde muitas coisas importantes aconteceram. Isso impregna as paredes todas e a gente sente. Fora isso, que é o aspecto histórico da luta que se desenvolveu e esse teatro foi um local dessa luta, ele também é muito bom do ponto de vista técnico.
Estando lá no palco, você tem uma visibilidade boa da plateia, tem uma relação muito boa de palco e plateia. Nós estamos na última poltrona, no final do teatro, do lado direito, na última poltrona. E, daqui, a gente enxerga perfeitamente o palco. Então, você percebe que, quando estiver cheio de pessoas sentadas aqui, nada do palco vai se esconder para nós que estamos aqui atrás. Isso é a glória. Um lugar bom de trabalhar.
Às vezes, o teatro pode ser grande, pode ser bonito, pode ser histórico também e não ser um palco favorável para nós emitirmos nossa voz, para nós projetarmos nossa voz e sermos vistos. Esse teatro reúne todas essas condições juntas.
São muitas condições acústicas, por exemplo. Você vê o tratamento acústico que existe aqui. As coisas prateadas ajudam acusticamente. Lá de dentro do palco, você olhando para cima, vai ter uma altura da boca de cena que é duas vezes mais alta. É muito alto, o que permite que subam cenários também. São máquinas à mão com cordas, mas o cenário pode subir, pode descer. Isso aumenta as possibilidades de encantamento do público.
O cinema brasileiro vive um momento de reconhecimento mundial, com sucessos como Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto, O Último Azul, entre outros. A o que deve essa explosão?
Malês, do Antônio Pitanga, é um filmaço também, maravilhoso, com um assunto muito interessante. Está em cartaz O Agente Secreto, tem também o Ainda Estou Aqui. Eu acho que o público brasileiro está com vontade de se ver, de ver seu país nas telas. É gostoso você entrar no cinema e ouvir a sua língua, o seu sotaque.
Às vezes, a gente até não está acostumado a ouvir nosso próprio sotaque no cinema, nossa própria língua no cinema. Estamos acostumados a ler filmes, porque a gente está ouvindo algo em inglês e lendo as legendas. Quando você vê tudo, ouve e entende, sem precisar daquelas legendas, vendo a sua cor, a sua raça, a sua diversidade na tela, isso empolga.
Desde 2016, depois do golpe contra Dilma Rousseff, passamos quase 10 anos sem o Ministério da Cultura. Essa retomada também tem a ver com o fato de só valorizarmos algo quando perdemos?
Tem. É também isso, é uma afirmação de que o povo quer nosso cinema, que o povo quer a nossa arte, nossa cultura, embora nós vivamos o tempo todo debaixo de um verdadeiro massacre midiático, dizendo que somos “mamadores da Lei Rouanet”, disseminando um monte de ignorâncias e notícias falsas, com um jogo baixo e burro.
Se você pensar, a cultura, o cinema, o audiovisual e o teatro fazem pelo menos 3%, até mais do que 3%, do PIB brasileiro. Acima, por exemplo, da indústria automobilística, acima, inclusive, da indústria farmacêutica. Os carros são produzidos com apoio da lei. Assim como tem no audiovisual, nós temos que colocar “esse carro foi produzido com a lei de incentivo à indústria automobilística”. O mesmo acontece com a agropecuária, que tem um apoio muito superior à indústria cultural.
E a indústria cultural fala da nossa identidade. É importantíssima para a nossa identidade, para nós nos sentirmos uma nação. O que seria os Estados Unidos sem o cinema americano? Quando você vê uma bandeira americana em um filme americano, pode crer que lá tem dinheiro do governo americano, porque é a obrigação do filme colocar aquela bandeira como contrapartida.
Então, sem arte, sem cultura, o que seria da Coreia? Hoje todo mundo está assistindo novela coreana. A Turquia, de repente, se faz ver com novelas turcas. O Brasil se projeta no mundo inteiro com seu cinema e também com as suas novelas, com os seus produtos audiovisuais. Isso é importante. Para que serve a vida? Por que nós vivemos? Só para trabalhar?
Não. Também vivemos para nos divertir, para saber mais coisas, para crescer, para nos desenvolver. Para levar uma vida plena. E não há uma vida plena sem a arte, sem a cultura, sem o cinema, sem o teatro, sem o balé, sem a música, sem a dança, sem a pintura. Agora, quem não acha que isso é importante, então vai procurar a sua turma.
Você nunca se esquivou de se manifestar politicamente, até em períodos mais controversos. Em algum momento portas se fecharam por isso?
Eu não tinha outra maneira de ser, a não ser me manifestar, porque eu venho de uma família de lavradores, de gente que trabalha na roça, meus pais. Minha mãe era analfabeta, meu pai era servente de pedreiro. A minha mãe teve 15 filhos, sete sobreviveram, e ela criou todos os filhos lavando roupa e trabalhando como empregada doméstica.
Se eu for trair a minha classe social, então é melhor nem existir. Então, eu sou aquela pessoa que tem um compromisso, embora hoje eu não seja mais dessa mesma classe social. Eu quero honrar a classe social de minha origem. Sou filho de uma empregada doméstica e de um servente de pedreiro, sendo que minha mãe era analfabeta e meu pai mal sabia assinar.
Quando eu cheguei, em 72, em São Paulo, na Escola de Arte Dramática da USP, era o auge da repressão do período da ditadura. E, em 79, fazendo uma peça pelos arredores de São Paulo, mais especificamente em São Bernardo do Campo, eu comecei a ver folhetos de um partido que estava começando a aparecer, que era o Partido dos Trabalhadores.
Naquela época, tinha Arena e MDB e, de repente, aparece uma coisa nova, o Partido dos Trabalhadores, com uma liderança como Lula e pessoas como Antônio Cândido, Florestan Fernandes, Sérgio Mamberti, Apolônio de Carvalho, Carlito Maia, etc. Eu via essas pessoas, via os folhetos e, depois, comecei a ver reuniões onde eu via essas pessoas.
Eu via o Apolônio de Carvalho, que tinha lutado na Guerra Civil Espanhola. Era uma liderança que estava ali do meu lado. Eu olhava aquele homem, com aquela letra, anotando, falando coisas. Não tinha outra perspectiva para mim, a não ser abraçar aquele partido que estava nascendo, que era o Partido dos Trabalhadores. Depois disso, eu nunca me afastei do PT e não me arrependo de não ter me afastado.
Teve uma época em que nossos adversários eram do PSDB. Era até uma coisa simpática. O nosso confronto era com o Fernando Henrique Cardoso. Olha o nível da política naquele momento, muito melhor do que é hoje. Então, apesar de alguns momentos de divergências, de pensamentos diferentes, eu nunca abandonei o Partido dos Trabalhadores.
Eu ajudei a fazer aquele vídeo do “Lula Lá”, mas não apareço nele, porque estou nos bastidores ajudando a produzir o vídeo. Eu esqueci de entrar em cena, de tanto que eu estava empenhado, envolvido na organização daquilo. E, desde então, eu tenho sempre participado e não me decepciono com isso. Fiz filmes que me conduziram para isso também. Evidentemente, o filme Lamarca acentuou muito mais a minha militância, porque até a dona Clara Charf, que acabou de falecer há pouco tempo, esposa do Marighella, me confundia com Lamarca.
Nós somos atores confundidos com os personagens. As pessoas querem de você um pouco. Eu, que nunca tinha participado de nada de luta armada, mas as pessoas me viam como um guerreiro. E eu acho que eu sempre estive na luta, porque a luta é necessária.
Evidentemente que sim, algumas portas se fecharam. Uma vez eu estava cotado para narrar um filme sobre a reforma agrária. Um dia, o diretor chegou para mim e falou assim: “Paulo, nós estamos com uma dificuldade. As pessoas acham você muito petista”. Se eu sou muito petista para narrar um filme sobre a reforma agrária, imagine fazer um comercial. Quer dizer, devo ter perdido muitas coisas, mas fiz também muitas coisas.
Não posso ficar pensando nisso. Ao mesmo tempo, a todo momento, pessoas vêm falar comigo dizendo assim: “eu gosto muito da sua carreira, gosto muito dos seus posicionamentos também”. Eu não consigo ficar assistindo da plateia quando acontece algo que eu acho relevante ou uma injustiça, eu tenho que dar minha opinião e tentar usar de uma forma positiva esse auto falante que eu tenho.
Eu tenho a possibilidade de uma entrevista, eu tenho a possibilidade de estar no palco, de ser reconhecido na rua. Eu tenho a obrigação de me posicionar a favor daqueles que estão a favor dos mais fracos, dos mais oprimidos.
Minha mãe sendo empregada doméstica, como eu posso não considerar Benedita da Silva, uma senadora do Partido dos Trabalhadores que criou uma lei que favorece as empregadas domésticas? É óbvio que o Lula é muito diferente e tem uma visão muito mais voltada para os mais fracos, para os mais oprimidos. Sabe quanto restou no caixa do Collor na campanha contra o Lula, quando o Lula perdeu para o Collor? 180 milhões de dólares sobraram. Sobrou. Veja todo o dinheiro que a direita e os grandes proprietários investiram.
A coisa não é brincadeira. Aquelas mesmas pessoas que botaram todo aquele dinheiro para eleger o Collor, botaram dinheiro para eleger o Bolsonaro. Não é mole. Então, fora da luta, não há espaço, não tem folga. Eu costumo andar pelo Brasil afora. Eu não fico fazendo pregação nenhuma com a minha peça, porque é uma peça aberta para todo o público, mas, quando eu posso, é o seguinte: é na política, e temos que eleger bons.
Eu fiz, na minha casa, 400 chamadas para eleger vereadores progressistas pelo Brasil afora na última eleição e vou entrar de cabeça de novo na nova eleição. É no Congresso, no Senado e nas assembleias que se resolvem as coisas. Se as pessoas não sabem disso, se os pobres não se tocarem disso, eles vão se ferrar, nós vamos nos ferrar. Os negros, os mais vitimados dentro da sociedade brasileira, têm que se tocar. Os negros têm que eleger candidatos negros. Os pobres têm que não se deixar enganar.
Os ricos não querem entregar nada. Ninguém entrega nada de mão beijada, se você não botar lá um senador que te represente. E o PT representa os mais pobres no Brasil, por isso é tão perseguido. Por isso não dão moleza nenhuma para o Lula.
Essa ação do Cláudio Castro no Rio com a chacina, foi para quê? Foi para desmobilizar o povo que estava totalmente mobilizado pelo Lula, pela grande vitória que o Lula está tendo na negociação, por exemplo, com os Estados Unidos. Cria-se um fato monstruoso para ocupar espaço. E quem você vê fechado ali? Zema, Tarciso, Caiado, etc.
Caiado é adversário de Lula desde 77. É histórico. É da elite das grandes propriedades. Outro exemplo é não acreditar que está havendo uma mudança climática violenta no mundo. Você vai aceitar isso sem se manifestar? Eu não consigo admitir. Para mim não. Eu acho que nós, se nós não pararmos com desmatamento, se não fizermos um reflorestamento, não vamos ter espaço para viver para os nossos filhos, para os nossos netos.
Conversa Bem Viver

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