Conversa Bem Viver

‘Cinema negro ainda é resistência’, dizem responsáveis por curta brasileiro que estreia em festival na Nigéria

'O Pai da Rainha de Angola' aborda a paternidade solo preta, resgatando ancestralidades afrodescendentes

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Os artistas celebram o momento de visibilidade internacional do cinema brasileiro, mas destacam que ainda há barreiras para a negritude no acesso ao setor
Os artistas celebram o momento de visibilidade internacional do cinema brasileiro, mas destacam que ainda há barreiras para a negritude no acesso ao setor | Crédito: Ádima Macena

O curta-metragem brasileiro O Pai da Rainha de Angola, com direção de Rodrigo França e roteiro de Lucas Oranmian,  estreou, neste mês, em um dos mais prestigiados festivais de cinema do continente africano, o Africa International Film Festival, em Lagos, na Nigéria. 

A ficção aborda sobre a paternidade solo, resgatando ancestralidades afrodescendentes nas identidades de crianças negras. O enredo se constrói a partir da história de Ravi, personagem de Oranmian, um homem negro que decide adotar Thelminha, uma menina negra de sete anos interpretada por Dandara Arcebispo, revelação mirim da teledramaturgia brasileira.

“Eu queria falar de afeto, eu queria falar de amor. A Telminha, que é a personagem da Dandara Arcebispo, tem uma autoestima que eu acho que toda criança preta queria ter. Eu queria ter, quando era criança, o Rodrigo também. Todo mundo que é adulto hoje queria ter sido assim”, Oranmian, ao Conversa Bem Viver.

O racismo continua nos matando diariamente, mas existe o contraponto. Existe o contraponto desse pai que abandona, desse pai que é violento, dessa masculinidade que fere, porque, se não, a gente acaba colocando isso como uma exclusiva possibilidade e fazendo com que gerações acreditem que só existe esse caminho. Mas existem outros”, comenta França.

Os artistas celebram o momento de visibilidade internacional do cinema brasileiro, mas destacam que ainda há barreiras para a negritude no acesso ao setor. Por isso, para eles, é simbólico a estreia do curta no continente africano.

“É óbvio que seria legal estrear em Cannes, em Berlim,etc, mas estrear na Nigéria, no continente africano, é maravilhoso. Acho que não teria lugar melhor para o que estamos falando. A gente tem visto muitos filmes lindos, com muitos amigos presentes, mas os filmes que tem chegado ao grande público, se você for contabilizar o número de pessoas pretas na equipe ou no elenco, ainda é muito pouco. No protagonismo, nem se fala”, chama a atenção Oranmian.

Rodrigo França é considerado o primeiro diretor negro do streaming brasileiro, responsável pela série Humor Negro e pelo filme Barba, Cabelo e Bigode. Já Lucas Oranmian, além de roteirista de O Pai da Rainha de Angola, foi o idealizador do conceito do filme.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato – A obra fala sobre paternidade solo. Quais são os principais elementos do enredo? 

Lucas Oranmian –  O filme é a história do Ravi, que é o meu personagem, um cara que adota uma menina negra, de 7 anos, que é interpretada pela Dandara Arcebispo. E essa menina acha que é a rainha de Angola. Esse é o mote do filme. Eu já estava há um tempo tendo sonhos de que eu era pai. Estou com 34 anos agora e acho que chega aquele momento da vida que você fica: “ah, cara, será que eu vou ter filhos? Será que eu vou deixar para os 40? Ou será que eu não vou ter?”. 

Ao mesmo tempo, também vinha de um desejo enquanto artista mesmo. Eu sou roteirista, mas o meu trabalho principal nesses últimos anos tem sido como ator, no cinema, no teatro. Trabalhando como ator, eu vinha de um desejo muito forte de falar sobre, de fazer personagens que estivessem em posição de falar de afeto, em narrativas diferentes das que eu vinha fazendo, por mais que eu viesse fazendo filmes com narrativas muito importantes, temáticas sociais.

https://open.spotify.com/episode/3rMppB1cmNHVivgwJlF5nx?si=GaufKZKrQt-HNChdgDsh-Q  

Eu queria falar de afeto, eu queria falar de amor. A Telminha, que é a personagem da Dandara Arcebispo, tem uma autoestima que eu acho que toda criança preta queria ter. Eu queria ter, quando era criança, o Rodrigo também. Todo mundo que é adulto hoje queria ter sido assim. 

Eu venho de uma família que sempre valorizou a nossa ancestralidade, a importância de nós nos vermos como pessoas bonitas, como descendentes de reis, mas o mundo em que a gente vive muitas vezes não deixa que isso seja tão aflorado. Eu fico muito feliz de ver que essa nova geração, a geração da Dandara, já vem com essa autoestima. 

Quando a gente estava em busca dessa menina, a gente testou umas 20 atrizes e elas explicavam, diziam por que elas eram a rainha de Angola, e foi muito lindo ver como todas essas meninas já tinham isso como uma coisa. Elas diziam: “Eu sou descendente de rainhas mesmo. Eu sou bela. Eu sou incrível”. 

É muito bonito ver como, em 2025, a gente já está em outro momento. E eu espero que todo mundo que veja o filme, todas as crianças, todos os adultos, e possam se identificar e se inspirar também.

Rodrigo França – O filme é para as famílias, não tem esse gênero no Brasil. É um filme para família. É uma pesquisa do Lucas, que soma com a minha pesquisa, sobre novas narrativas. Tudo aquilo que, de uma certa forma, a gente assiste ou lê, no audiovisual, no livro, até mesmo no teatro, queremos subverter, principalmente o lugar da masculinidade negra, desse lugar da humanidade, do afeto, da intelectualidade. 

Então, ao mesmo tempo, é importante a gente ir para o campo da denúncia, porque o racismo continua nos matando diariamente, mas existe o contraponto. Existe o contraponto desse pai que abandona, desse pai que é violento, dessa masculinidade que fere, porque, se não, a gente acaba colocando isso como uma exclusiva possibilidade e fazendo com que gerações acreditem que só existe esse caminho. Mas existem outros. 

Eu, por exemplo, sou filho de um pai muito presente. É óbvio que a gente sabe dos expressivos números estatísticos de abandono no Brasil, mas, ao mesmo tempo, precisamos ratificar que existe outra possibilidade. E o filme traz esse homem negro na busca dessa paternidade, na busca de uma relação carinhosa, de uma relação afetiva, com essa menina. 

O que me pega é isso. Ele acaba não optando pela adoção de um menino, mas pela adoção dessa menina. Às vezes, a gente acha que a criança vai aprender com a gente, mas a gente aprende muito mais com essa criança. 

O curta apresenta infinitas possibilidades. Uma reflexão que se abre é “por que esse pai tomou a decisão de adotar essa filha?”. Como se dá a construção de imaginários no filme?

Lucas Oranmian –  Eu também tenho esse privilégio, assim como o Rodrigo, de ter sido criado com um pai muito presente, muito estudioso da sua ancestralidade, tanto é que meu nome de nascença é Lucas Oranmian. Oranmian é um orixá.

Então, desde que eu nasci, venho com esse pai que sempre soube educar tanto a mim como a minha irmã, no melhor sentido, para que nós nos víssemos como seres potentes. E, falando sobre esse pai, eu vejo que esse personagem representa justamente a contraposição à ideia de que ter um filho é algo que está só relacionado à mulher.

Esse personagem foi adotado também por um casal de imigrantes japoneses. Tem isso, mas tem também a hora que ele chega e fala: “caramba, eu não vou esperar casar com alguém ou esperar todos esses movimentos familiares mais tradicionais para ter um ter um filho”. Aí, acho que o Ravi, que é o meu personagem, chegou em um momento da vida que falou: “Eu vou. É muito importante para mim ser pai”. 

Eu fui a uma festa, na semana passada, e tinha um amigo de uma amiga, um cara solteiro, artista, que estava nos finalmentes para adotar uma criança também. Então, é muito legal a gente ver como isso existe, como é presente. A arte é abertura de possibilidades. Então, tudo o que eu escrevo é pensando no que a gente pode abrir de imaginário e mostrar que é possível subverter esses conceitos ou lógicas familiares que acabam nos impedindo de realizar coisas que são tão lindas, como a paternidade.

Rodrigo França – Não precisa mais estar em uma relação para realizar junto. A gente não deve mais satisfação para a sociedade, ter uma relação do casamento, a parte da propriedade, a parte de herança, a gente não precisa mais disso. Estamos em um momento de independência.

Acompanhando o meu círculo de amizade, as pessoas começam sonhando em adotar juntos e vai passando o tempo, essa relação acaba ou essa relação não acontece, e acabam acreditando que é o caminho também. Eu amo números estatísticos, não pesquisei sobre isso, mas sei do aumento de adoção por pessoas que estão solteiras. Ao mesmo tempo que tem a relação dos relacionamentos homoafetivos, crescentes, adotando a beça, ainda bem, no Brasil.

Muita gente no meu círculo de amizade resolveu não esperar mais para poder realizar esse sonho, que às vezes é individual e você acaba forçando a outra pessoa, só porque está casado ou casada.

Como o curta se insere nesse contexto de reconhecimento internacional do cinema brasileiro? Essa foi a primeira vez que um filme brasileiro chegou no festival em Lagos? Isso reflete uma proximidade do cinema do Brasil com o continente africano?

Rodrigo França – Lógico que a gente ainda está muito no ocidente. Está na nossa mão mesmo subverter isso. Tem o Festival Zózimo Bulbul que acontece anualmente aqui no Brasil e que faz esse intercâmbio. Neste ano, não vai acontecer, por conta da falta de patrocínio. Então, olha a grande problemática. Temos que ter o cuidado de mudar essa lógica e sair um pouco do ocidente como a verdade absoluta, para poder pensar sobre a intelectualidade, a arte e a cultura no continente africano, que é muito vasto. 

Estamos caminhando para isso e vale sinalizar que estamos muito no cinema de resistência e falando de um país que se coloca como democrático. Então, essa verba tinha que ser para todo mundo, mas ainda é muito aquém. Ainda estamos na resistência. Esse filme ganhou um edital, ainda bem, mas a gente ainda é a exceção entre a maioria dos nossos que fazem o cinema negro, mas o grande volume de grana não está conosco. 

Eu estou no streaming, mas eu não posso colocar como grande exemplo, porque eu sei que eu sou um em um milhão. Mas é bom sinalizar que a gente ainda está na guerrilha. O cinema negro, a partir de diretoras e diretores negros, ganha o prêmio pelo mundo todo e ninguém sabe, porque não se interessa em divulgar e, ao mesmo tempo, é difícil você ter uma consciência de distribuição.

Lucas Oranmian – É óbvio que seria legal estrear em Cannes, em Berlim,etc, mas estrear na Nigéria, no continente africano, é maravilhoso. Acho que não teria lugar melhor para o que estamos falando. A gente tem visto muitos filmes lindos, com muitos amigos presentes, mas os filmes que tem chegado ao grande público, se você for contabilizar o número de pessoas pretas na equipe ou no elenco, ainda é muito pouco. No protagonismo, nem se fala. 

Então, ainda temos muito a caminhar e estamos aqui, com certeza,  em uma resistência. O que a gente está fazendo é escrever nossas histórias, ir atrás e fazer com que os nossos se sintam representados. Eu estava no Festival do Rio no mês passado com outro projeto que escrevi, que eu sou protagonista, e que é um filme sobre a afetividade do homem negro. O Ayô, que é uma série. Foi muito massa ver tantos colegas se sentindo representados, porque, por mais que o nosso cinema esteja bombando, a nossa comunidade negra ainda precisa de muita representação. E é muito lindo quando a gente encontra o público, encontra os nossos falando: “caramba, eu estava esperando ver algo que eu me identificasse mesmo.” Eu acho que o caminho é esse. É cansativo sim, mas a gente é o que a gente vai fazer.

Rodrigo França – Vale a pena. Tem muita gente que pergunta por onde começar. Eu estou fazendo 35 anos de arte, entre teatro e cinema, e sempre me produzi. E o que o Lucas faz é justamente isso: para você que está nos vendo ou ouvindo, se produza. Não espere o telefone tocar para te contratar, porque esse telefone não vai tocar. Então, escreva seu roteiro, produza, se inscreva no edital. É difícil, você vai receber vários nãos, mas não espere esse telefone tocar para te convidar para contar a sua história.

Poderemos ver O Pai da Rainha de Angola em breve no Brasil?

Lucas Oranmian – É isso, o filme acabou de participar do seu primeiro festival e estamos chegando no Brasil também. Acho que tem muitos festivais incríveis aqui no Brasil. Então, a gente espera que em breve possamos divulgar para vocês. Mas está chegando no Brasil, sim.

Rodrigo França – O público brasileiro merece, principalmente as escolas públicas, que são escolas pretas. Esse valor didático do filme é algo inestimável.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

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Editado por: Luís Indriunas

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