Retratando o período natalino de uma família brasileira realmente tradicional, O Natal dos Silva, mais nova produção da Filmes de Plástico, responsável por sucessos como Marte 1, selecionado para representar o Brasil no Oscar em 2023, está disponível na TV e nos streamings.
A trama possui cinco episódios e é protagonizada por uma família negra que perdeu recentemente a sua matriarca. Criado por Gabriel Martins e ambientado em Belo Horizonte, Minas Gerais, o enredo da série é marcado pelas contradições que se afloram durante este período do ano, que é alegre, mas também melancólico.
“O desejo foi colocar uma série que pudesse falar de tudo isso. Certamente isso gera uma identificação muito grande, porque, sendo essa família muito diversa e complexa, cada pessoa achará ali algum elemento que provavelmente já encontrou na vida pessoal. Eu acho que a série fala de realidades. O Natal é, sim, um momento de encontros bonitos e reconciliação, mas não dá para imaginar que a nossa família é toda perfeita. Precisamos encarar a realidade”, explica Martins.
Assim como em outras produções da Filmes de Plástico, a maioria dos personagens de O Natal dos Silva são negros, mas sem romantizar ou estereotipar.
“A luta contra o racismo é apenas uma das partes das vidas negras. Há outras partes que são simplesmente existir: estar no mundo, trabalhar, ficar sem dinheiro, acordar, se apaixonar, se desiludir, brigar, ter uma relação de família. O que viemos construindo nos filmes da Filmes de Plástico — e O Natal dos Silva é mais um capítulo disso — é simplesmente uma representação fiel da nossa experiência própria”, chama atenção o produtor.
Martins também comenta sobre o atual momento do cinema brasileiro, que foi premiado, entre outros, com o Óscar em 2025. Para ele, o setor está avançando, mas vagarosamente, e precisa se atentar ao fortalecimento dos cinemas negro e independente.
“Para radicalizar isso, precisamos de mais investimentos públicos. Temos crises em gestões estaduais, como em Minas Gerais, que não lançam bons editais há muito tempo. Tudo ainda é muito atrelado a governos que entram e saem. O cineasta independente brasileiro ainda se encontra muito fragilizado. Não devemos entender êxitos individuais, como os de Walter Salles ou Kleber Mendonça, como reflexo da produção como um todo, de quem está na base da pirâmide”, argumenta.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato – O que o público pode encontrar na série?
Gabriel Martins – Uma família complexa. Acho que é uma forma de entender os Silvas: uma família de muitos irmãos que estão vivendo o primeiro Natal após a morte da matriarca, a Dona Zelina, a mãe dessa geração de irmãos.
Então, essa falta da Dona Zelina, esse buraco que ficou na família, gera muitas confusões, muitas brigas e muitas inseguranças. A Bel, que é a filha mais velha, toma para si a incumbência de fazer o Natal seguir como era quando a mãe estava viva. Um Natal sem falhas, em que tudo tem que ser perfeito. Essa busca pela perfeição da Bel vai ser um problema na família.
No meio disso, temos uma briga por herança, pois há uma casa que agora precisa ser dividida entre os irmãos. E também há a chegada de uma nova pessoa: o Luciano, que é filho da Bel, vai apresentar Aline à família, uma mulher trans, para anunciar a intenção de se casarem. Isso também vai gerar algum rebuliço na família. Então, é uma mistura de vários encontros e várias emoções.
A série transita entre o drama e a comédia? A produção gera identificação em quem assiste, como as demais produções da Filme de Plástico costumam fazer?
Eu acho que o Natal tem essa coisa engraçada que varia muito no Brasil. Tem pessoas que não passam o Natal com a família, pois romperam definitivamente. Tem pessoas que passam porque amam a família e pessoas que passam porque se sentem obrigadas.
Acredito que o Natal coloca um certo elo especificamente nesse ambiente familiar, que é muito complexo. É uma data de muita alegria e muita melancolia. Sinto que inclusive essas luzes de Natal que tomam as cidades e as casas — a casa dessa família é particularmente exagerada de luzes — têm esses dois lados do sentimento: uma beleza e um encantamento quase infantis, mas também um pouco de tristeza, porque lembramos das pessoas que já se foram e de questões mal resolvidas.
Muitas vezes, há famílias que só se encontram no Natal. Então, essas datas tornam-se motivos para sentimentos bonitos de reconciliação, perdão e amor, mas também para muitas faíscas, para que coisas mal resolvidas venham à tona e problemas apareçam.
É também uma retrospectiva anual: se o seu ano foi bom ou ruim. O desejo foi colocar uma série que pudesse falar de tudo isso. Certamente isso gera uma identificação muito grande, porque, sendo essa família muito diversa e complexa, cada pessoa achará ali algum elemento que provavelmente já encontrou na vida pessoal.
Eu acho que a série fala de realidades. O Natal é, sim, um momento de encontros bonitos e reconciliação, mas não dá para imaginar que a nossa família é toda perfeita. Precisamos encarar a realidade, e encarar é a melhor maneira de lidar com todos esses problemas.
Assim como em outras produções da Filmes de Plástico, a série conta com o protagonismo de atores e atrizes negros. Qual impacto isso traz?
Acho que muitas vezes, por essa presença ser de alguma forma mais rarefeita na história do cinema brasileiro, gerou-se a impressão de que, sempre que uma pessoa negra estivesse em tela, ela teria que estar em luta ou em movimento. Ela teria que ser uma pessoa politizada, a serviço de um discurso para olhar a perspectiva da existência negra.
Só que a luta contra o racismo é apenas uma das partes das vidas negras. Há outras partes que são simplesmente existir: estar no mundo, trabalhar, ficar sem dinheiro, acordar, se apaixonar, se desiludir, brigar, ter uma relação de família.
O que viemos construindo nos filmes da Filmes de Plástico — e O Natal dos Silva é mais um capítulo disso — é simplesmente uma representação fiel da nossa experiência própria, da minha família, dos meus vizinhos e da população brasileira como um todo, da qual somos maioria: pessoas negras.
Estamos explorando isso, e é também um desejo político, porque pontuar isso reflete como ainda é uma questão. Em outro mundo, sequer precisaríamos tocar nesse ponto, mas tocamos porque ainda não é comum. Não tivemos uma série igual a esta até hoje.
As pessoas perguntam muito quais foram as referências. Tenho referências de coisas muito distantes, mas, com essa franqueza e configuração familiar, não há tantos exemplos no Brasil. Estamos buscando explorar faces que não são muito agradáveis. Vimos nos primeiros episódios que a Bel é uma personagem muito complicada, que já se mostra preconceituosa e espumando ódio, o que se explica no contexto da personagem. Parte dessas representações é propor personagens que não sejam fáceis, inocentes ou virtuosos, porque a vida não é assim.
Às vezes é “tiro, porrada e bomba” mesmo, como o personagem Luciano avisa nos primeiros minutos da série. Acho que isso é um ponto de identificação muito maior do que um personagem heróico. É potente vermos nossas próprias falhas em tela.
As pessoas às vezes tomam o conceito de representatividade como o desejo de ver na tela alguém que represente apenas a beleza da pele ou do cabelo black. Só que eu conheço muita gente que não é sempre assim, e eu mesmo não estou sempre nesse lugar pleno de beleza negra idealizada. Há pessoas vivendo a vida no cotidiano sem pensar o tempo inteiro em quem devem ser. Então, os Silvas são isso: o sujeito comum do dia a dia, que é maravilhoso, mas não precisa ser uma imagem idealizada para despertar interesse. Ele precisa ser real.
Na série, a árvore de Natal é uma mangueira, em contraposição à lógica do mercado que se impõe durante o período natalino. Qual é a importância de apostar nessas outras representações?
Acho que reflete uma certa crise de identidade que o Natal provoca. O próprio símbolo do Papai Noel: pensar no Brasil e ter um sujeito com roupas de frio, gorro e barba. É uma imagem estranha.
A ideia do pé de manga é uma das coisas mais legais da série. É uma provocação cultural, mas também representa uma questão narrativa. É uma árvore plantada há muitos anos naquela casa, que sempre deu frutos, e que agora vira assunto: se as pessoas não morarem mais lá, o que acontecerá com ela?
A casa que meu avô tinha, onde morei na infância na periferia de Contagem (MG) com meus pais e meu irmão, foi vendida, e a primeira coisa que os novos moradores fizeram foi cortar o pé de manga. Eu consegui aproveitar esse elemento na locação. O pé de manga é a própria ancestralidade materializada ali. Uma árvore genealógica no quintal.
Tivemos um ano importante para o cinema nacional, que foi premiado internacionalmente e voltou a encher as salas em todo o país. Esse avanço está vindo com uma descentralização das produções fora do eixo Rio-São Paulo e com uma diversificação de diretores e diretoras negros?
É uma pergunta muito interessante. Estamos avançando vagarosamente. Existem tentativas, como o trabalho da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN) de criar marcadores e cotas para editais e pontuações para empresas formadas por pelo menos 50% de pessoas negras.
Há movimentos para construir diversidade, mas o panorama geral de destaque no Oscar ou Cannes não se reverbera necessariamente na produção independente. O cinema brasileiro está forte no olhar internacional, o que pode aquecer a bilheteria de alguns filmes, mas esses momentos nem sempre geram continuidade. Muitos filmes independentes em 2025 continuam com pouco público.
Para radicalizar isso, precisamos de mais investimentos públicos. Temos crises em gestões estaduais, como em Minas Gerais, que não lançam bons editais há muito tempo. Tudo ainda é muito atrelado a governos que entram e saem. O cineasta independente brasileiro ainda se encontra muito fragilizado. Não devemos entender êxitos individuais, como os de Walter Salles ou Kleber Mendonça, como reflexo da produção como um todo, de quem está na base da pirâmide.
Não significa que não tenhamos progressos, mas é uma estrada complexa. Estamos vivendo a regulamentação do streaming, e o caminho ideal, que contemple totalmente os cineastas independentes, ainda não foi alcançado. Minha produtora se encontra nesse espectro vulnerável.
É uma vitória ver cineastas como Kleber Mendonça fazendo filmes ancorados na cultura local, mas precisamos entender como sustentar esses momentos para que respaldem quem mais precisa. Isso é um desafio político que envolve a Câmara dos Deputados e votações de projetos. O cinema brasileiro é dependente do financiamento público.
Ainda assim, sou otimista para os próximos dez anos. Muitos primeiros filmes de cineastas negras e mulheres negras estão surgindo, o que era raro na nossa história. Torço para que essas histórias cheguem às pessoas e não morram rápido.
Quem assistir O Natal dos Silva vai se encantar com o episódio 2, que é um plano-sequência de 30 minutos. Quantas vezes vocês filmaram esse episódio?
Tivemos dificuldades enormes porque choveu bastante e havia um comércio próximo que não queria desligar o som. Fizemos 20 takes. Desses, apenas seis foram inteiros. O que ficou na série foi o sexto take completo, o último que fizemos, onde conseguimos acertar tudo.
A restrição de tempo nos força a tomar decisões. Gravávamos um ou dois takes por dia, pois demorava muito para organizar tudo novamente quando algo dava errado. Foi um desafio enorme, mas que compensou totalmente.
Conversa Bem Viver

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