RUMO AO OSCAR

‘O baiano tem o molho e nós pimenta-de-cheiro’: conheça os atores cearenses de O Agente Secreto

Robério Diógenes e Geane Albuquerque contam como foi trabalhar no filme, que concorre também ao Oscar de melhor seleção de elenco

Indicação de Melhor Seleção de Elenco reconhece trabalho de toda a equipe de atores
Indicação de Melhor Seleção de Elenco reconhece trabalho de toda a equipe de atores | Crédito: Reprodução

Com o filme O Agente Secreto, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, o Brasil foi indicado em quatro categorias do Oscar 2026: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator, pela interpretação de Wagner Moura, e Melhor Seleção de Elenco, escalado por Gabriel Domingues.

Desde o anúncio da participação do longa-metragem na principal premiação internacional de cinema, o país está em festa e, comicamente, tem utilizado a música O baiano tem o molho, de O Kannalha, para celebrar o reconhecimento da atuação de Moura. Mas o elenco como um todo, que também pode sair premiado, conta com outros artistas nordestinos, como a dupla cearense Geane Albuquerque, que interpreta Elisângela, e Robério Diógenes, o delegado Euclides. 

“Se o baiano tem o molho, nós temos a pimenta-de-cheiro. Nós chegamos chegando. Estamos muito felizes. Quando saiu a categoria Melhor Seleção de Elenco, que ninguém esperava, pela primeira vez, senti vontade de ir à cerimônia. Torcemos pelo Wagner e pelo filme, mas um prêmio de casting é dividido entre todos. Eu até brinco dizendo que é um prêmio de ‘ator socialista’, pois é comungado com todos. Seria muito representativo para nós”, comemora Diógenes, em entrevista ao Conversa Bem Viver

Albuquerque também destaca a importância da indicação para o elenco e da escolha da pluralidade de sotaques e culturas para a interpretação dos papéis do longa-metragem.  

“Essa indicação é muito especial para nós, enquanto atores, porque é um lugar para reafirmar o nosso trabalho. Estamos falando de um coletivo gigantesco e competente. O filme é político exatamente pela escolha dessa pluralidade de sotaque, de território e cultura. Mesmo sendo retratado no Recife, Kleber sabe que, como brasileiro, ele é atravessado por muitas referências e sotaques. É gratificante ter o sotaque do Ceará”, avalia, também ao Conversa Bem Viver.

Os atores também comentam sobre os bastidores da gravação das cenas do filme, a experiência de participar de uma produção de Mendonça Filho e as expectativas com o Oscar 2026. 

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: As indicações como Melhor Filme e Melhor Ator já estavam nas nossas expectativas, mas veio a categoria Melhor Seleção de Elenco, que fala diretamente do trabalho de vocês. Como foi para vocês quando saiu essa categoria?

Robério Diógenes: Olha, o cearense tem a “pimentinha de cheiro”. Se o baiano tem o molho, nós temos a pimenta-de-cheiro. Nós chegamos chegando. Estamos muito felizes. Recebi a notícia no melhor local possível: em um set de filmagem aqui em Fortaleza, rodando um filme. 

Assistimos ao resultado no camarim, junto com o elenco, e foi uma vibração contagiante. Viemos do Globo de Ouro com dois prêmios, o que já foi uma conquista gigantesca, e, de repente, quatro indicações ao Oscar. É sublime.

Quando saiu essa categoria, que ninguém esperava, pela primeira vez, senti vontade de ir à cerimônia, porque senti que ali estaríamos ainda mais representados. Claro que torcemos pelo Wagner e pelo filme, mas um prêmio de casting é dividido entre todos. Eu até brinco dizendo que é um prêmio de “ator socialista”, pois é comungado com todos. Seria muito representativo para nós. Estou torcendo muito por essa categoria.

Geane Albuquerque: Essa indicação é muito especial para nós, enquanto atores, porque é um lugar para reafirmar o nosso trabalho. Estamos falando de um coletivo gigantesco e competente. O Robério está genial no trabalho. São tantas performances incríveis que não teria como não ficar feliz. 

Faz com que nos sintamos pertencentes. Queremos muito estar lá, mas sabemos que são muitos atores. Essa premiação é dedicada ao trabalho dos produtores de elenco — Gabriel Domingues e Maria Carolina —, mas também fala de todas essas camadas de pessoas que trabalharam anos para entregar um sucesso como O Agente Secreto.

Kleber Mendonça Filho tem como característica mostrar o poder de Pernambuco e do Nordeste para o mundo. Como foi quando ele os convidou? Vocês sentiram que os atores tinham que vir realmente do Nordeste?

Robério Diógenes: O bonito do Kleber é que ele dá voz aos atores que têm identidade. Há atores de Pernambuco, Ceará, Paraíba, Bahia e Alagoas. Mas também há o Roni Vilela, do Rio de Janeiro, e o Guilherme Rocha, que é paulista. Na realidade, temos vários sotaques e representatividades, mas ele faz questão de mostrar a identidade de Pernambuco. 

O filme reforça a competência do Nordeste no cinema, o que também respalda o Ceará, que é muito potente na produção cinematográfica com uma nova geração de roteiristas e diretores, além da “velha guarda”. Isso empodera o cinema nacional como um todo.

Geane Albuquerque: A fala do Robério me agracia muito. O filme é político exatamente pela escolha dessa pluralidade de sotaque, de território e cultura. Mesmo sendo retratado no Recife, Kleber sabe que, como brasileiro, ele é atravessado por muitas referências e sotaques. É gratificante ter o sotaque do Ceará, a nossa malemolência e o nosso tom cômico no filme. Minha personagem tem cenas engraçadas e tem pessoas que dizem: “são coisas que só um cearense pode fazer”.

Olhando para a trajetória do Robério, percebemos que o Kleber estuda os seus atores e escolhe bem com quem quer trabalhar. Há uma fagulha das personagens que ele já visualiza no imaginário dele. Fico feliz. Em certo momento, imaginei que minha personagem pudesse ser feita por uma atriz do Recife, mas faz todo o sentido serem tantos “Brasis” para mostrar outros ângulos do nosso cinema.

Geane, sua personagem, Elisângela, trabalha no centro de identificação onde o personagem do Wagner Moura tenta se esconder. Há aquele momento em que ela dá uma “chavecada” nele. Como foi gravar isso?

Geane Albuquerque: Olha que loucura: esse momento não existia no roteiro original. A fala mais esperada por mim era sobre o “cargo comissionado”, que tem um tom cômico preciso. A cena do bilhete veio do improviso. O Kleber gosta de trabalhar ações e imagens. No fluxo da cena, ele percebeu que, como eu era uma funcionária pública trabalhando no modo automático, poderia datilografar aquele papel. 

O texto foi o Kleber me dizendo: “Geane, fale esta frase: ‘o novato é casado ou aprecia a companhia de mulheres?'”. Ele falou uma vez e já queria que fizéssemos. Eu datilografei e falei ao mesmo tempo, e a troca de olhares com o Wagner foi totalmente improvisada. Foi um take só. O meu silêncio na cena é de constrangimento real com o que estava acontecendo. É o fluxo da vida acontecendo em cena.

Robério, seu personagem, o delegado Euclides, faz parte dessa “pirraça” — palavra que o Kleber escolheu para abrir o filme. Ele é o delegado que faz manobras para favorecer os poderosos durante a ditadura militar. Como você recebeu esse personagem? 

Robério Diógenes – Eu não fui convidado diretamente. Passei por três etapas de testes. No último, com o Kleber de forma online, ele disse que gostou do meu vídeo porque eu dava leveza e complexidade ao personagem, que é muito rico e tem bastante para aprofundar. Ele disse: “escrevi para um delegado pernambucano, mas você fez tão bem que ele pode ser cearense”. 

Quando li o roteiro, percebi a magnitude do papel e senti frio na barriga pela responsabilidade. O Kleber estava me dando o filho dele para criar. Mas, na verdade, percebi que ele foi criado por dois pais. 

O figurino também foi sensacional. No primeiro dia, ao vesti-lo, entendi essencialmente o que o Kleber queria com aquele personagem. Fui trazendo memórias inconscientes: estudei em colégio militar por cinco anos em uma época autoritária e machista, e meu pai era um homem enérgico, do interior, que “batia com a palavra”. Tudo isso forma um arcabouço que levamos para o personagem. Fui entender o contexto, que personagem era aquele e o que o Kleber queria. 

Além disso, o Kleber é um diretor generosíssimo e nos deixou muito à vontade. Para ele, o set é um ser vivo, a gente cria junto. Me senti muito acolhido. Ele sabia exatamente o que queria em cena, mas sem engessar. Lembro de uma cena em que eu lia o jornal e ele sugeriu na hora: “diga que este jornal pode estar cheio de comunistas infiltrados querendo nos passar a perna”. Ele dá conforto na fala. Fazer esse filme foi uma aula de atuação, de cinema e de parceria. Foram dois meses de filmagem de muita felicidade e entrega profissional. Isso está impresso na tela

Vocês já tinham trabalhado juntos antes?

Geane Albuquerque – Não contracenamos diretamente no filme, mas planos virão, não é, Robério? Apesar de morarmos em Fortaleza e sermos atores de teatro, nunca tínhamos trabalhado juntos aqui, mas 2026 vai mudar isso. Eu recebi a notícia da participação do Robério por terceiros e fiquei muito feliz. Ele tem uma grande trajetória no teatro em Fortaleza, mas nunca tínhamos trocado uma palavra. Foi no Recife que criamos esse laço.

Robério Diógenes – Que tenham muitos sets para nós. Ela é do núcleo da repartição e eu sou do núcleo da delegacia, então não chegamos a contracenar. Conheci a Giane lá no set. Foi ótimo descobrir que ela era cearense. Eu também nunca tinha trabalhado com o Kleber, então éramos todos novatos aprendendo com esses homens maravilhosos. Hoje vamos sair para comemorar as indicações, que para nós já são um prêmio. Estamos em estado de graça.

O filme estreou no Cine Ceará e no Cine Teatro São Luiz. Vocês estavam presentes?

Geane Albuquerque – Estávamos eu, Robério, Alice Carvalho, Laura Lufési e Hermila Guedes. Foi muito especial. Eu já vinha das exibições em Cannes e no Recife, mas assistir “em casa” tem um gostinho especial pela troca com amigos e familiares, percebe a cena funcionando e vê as pessoas se empolgando. Robério estava lá com o pai e minha mãe. Foi uma homenagem linda.

Conversa Bem Viver

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Editado por: Luís Indriunas

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