Conversa Bem Viver

‘Heroína abolicionista’: após retratar trajetória em filme, Renato Barbieri anuncia documentário sobre Pureza

28 de janeiro é o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Análogo à Escravidão

Um dos casos recentes mais marcantes foi o de Pureza Lopes Loyola. A história, que contribuiu para avançar e criar diversos marcos regulatórios de combate ao trabalho análogo à escravidão no Brasil, foi retratada no filme Pureza, protagonizado por Dira Paes e lançado em 2022 pelo diretor, produtor e roteirista Renato Barbieri
Um dos casos recentes mais marcantes foi o de Pureza Lopes Loyola. A história, que contribuiu para avançar e criar diversos marcos regulatórios de combate ao trabalho análogo à escravidão no Brasil, foi retratada no filme Pureza, protagonizado por Dira Paes e lançado em 2022 pelo diretor, produtor e roteirista Renato Barbieri | Crédito: Divulgação/Pureza

Com objetivo de enfrentar as formas atuais de escravidão, no Brasil, 28 de janeiro é o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Análogo à Escravidão, que convida a refletir sobre o que realmente superamos do período colonial e quais marcas ainda permanecem.

Apenas em 2025, o governo federal resgatou mais de 2,7 mil pessoas em situação de trabalho análogo à escravidão no país, segundo dados divulgados nesta quarta-feira (28) pela Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Um dos casos recentes mais marcantes foi o de Pureza Lopes Loyola, que nasceu em Bacabal (MA), e resgatou o filho que estava em um local de garimpo no interior do Pará. 

A história, que contribuiu para avançar e criar diversos marcos regulatórios de combate ao trabalho análogo à escravidão no Brasil, foi retratada no filme Pureza, protagonizado por Dira Paes e lançado em 2022 pelo diretor, produtor e roteirista Renato Barbieri. Ao Conversa Bem Viver, ele destaca a importância de seguir enfrentando o tema. 

“A escravidão só vai acabar quando a sociedade como um todo abraçar essa causa. Não é uma causa apenas dos abolicionistas oficiais. Todos nós temos que nos tornar abolicionistas para acabar com isso”, avalia. 

Para Barbieri, uma das lutas que sintetiza o enfrentamento à escravidão moderna é a mobilização pelo fim da escala de trabalho 6×1, na qual se trabalha seis dias para apenas um dia de descanso. 

“A escravidão mudou de forma, mas não de essência. O fim da escala 6×1 é um pleito legítimo. Como uma pessoa vai cuidar da saúde, dos filhos ou do lazer tendo apenas um dia de folga, muitas vezes com tudo fechado? O trabalho digno deve ser a base, pois a sociedade é movida pelo trabalho”, argumenta. 

O diretor também comenta sobre o novo documentário que está preparando sobre o tema. “Estamos produzindo esse documentário, que fala sobre mulheres que defendem a vida com coragem, enfrentando ‘tubarões’, políticos justiceiros, grileiros de terra e saqueadores da República que valorizam o vil metal em vez da vida”, frisou. 

Confira a entrevista completa

Brasil de Fato: Como foi a sua relação com Pureza Lopes Loyola?

Renato Barbieri: A dona Pureza é uma heroína, não há exagero nenhum em falar isso. Eu sou um grande admirador dela, assim como tantas pessoas no Brasil e fora. Fiz um levantamento: existem duas grandes honrarias aos abolicionistas contemporâneos. Uma é o Anti-Slavery Award, de Londres, da organização abolicionista mais antiga do mundo em atividade, a Anti-Slavery International. Dona Pureza ganhou esse prêmio em 1997. O outro é o TIP Report Hero, dado pelo Departamento de Estado Americano, em Washington, aos maiores abolicionistas contemporâneos. Ela ganhou este em 2023. 

Nossa relação vem desde 2007. Fizemos uma pesquisa e vimos que ela foi, salvo engano, a única pessoa no mundo a ganhar os dois prêmios. Alguns poucos brasileiros ganharam essas honrarias isoladamente, como o Padre Ricardo Rezende, Leonardo Sakamoto e Xavier Plassat, mas a dona Pureza ganhou ambos. Isso mostra o reconhecimento internacional dela como uma grande abolicionista. Diria que hoje ela é o maior símbolo abolicionista em termos de reconhecimento e luta. É uma mulher destemida.

Eu a conheci quando desenvolvia o filme Pureza, que é meu segundo longa de ficção. Sou documentarista há mais de 40 anos, mas fui desenvolvendo o desejo de fazer ficção. Eu tinha acabado de lançar meu primeiro filme de ficção, que foi minha “graduação” na área, pois o documentarista muitas vezes não tem habilidade em dirigir atores ou trabalhar com um parque cinematográfico exponencialmente maior. No documentário, a equipe cabe em uma van. Na ficção, é uma frota de ônibus e carros, um processo muito mais complexo.

Eu desejava fazer um filme ligado aos temas com os quais eu vinha trabalhando, como a África e as relações do Brasil com o continente — as contribuições africanas para a ciência e filosofia que sofreram um apagamento pelo racismo. Eu nunca tinha me dedicado ao trabalho escravo contemporâneo, apenas ao clássico. 

Sabemos que houve a abolição em 13 de maio de 1888, só que a escravidão contemporânea começa no dia 14 de maio, no dia seguinte. Esse “dia seguinte” é muito importante para nós hoje. Talvez seja a data mais relevante, porque a escravidão contemporânea segue de lá até hoje. Continuamos sendo um país muito escravagista. Para entender o Brasil, é preciso entender sua fundação escravagista.

Eu buscava um tema universal e brasileiro que pudesse atravessar fronteiras. Um fotógrafo de Brasília, o Hugo Santarém, trouxe-me uma pesquisa inicial como uma ideia de projeto de ficção. Quando li aquela pesquisa, fiquei encantado e disse: “É exatamente o que estou buscando”. Fiz contato com a dona Pureza por meio de conexões com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), pois eu já trabalhava muito com o terceiro setor. Amigos da CNBB me levaram até ela. 

Em dezembro de 2007, fui a Bacabal pela primeira vez. De lá para cá, já fui umas dez vezes. Bacabal virou um lugar de peregrinação para mim. Hoje, dia 28 de janeiro, celebramos por conta da Chacina de Unaí, outro fato importantíssimo. Eram agentes abolicionistas do Estado fazendo fiscalização e foram assassinados a mando de um prefeito. O processo levou mais de 20 anos para resultar em condenação, o que ocorreu ano passado. 

Estamos falando de agentes do Estado assassinados. Além disso, defensores dos direitos humanos são mortos a cada cinco dias no Brasil. É um dado escandaloso. Seis pessoas por mês são assassinadas. Nos anos de governo Bolsonaro, esse número chegou a ser um a cada quatro dias. Vejam como a democracia brasileira ainda precisa de muito “feijão” para crescer.

Depois de Luiz Gama, a maior abolicionista que tivemos foi a Pureza?

Hoje eu diria que sim. Ela é o nosso maior expoente, uma figura notável e brilhante. Ela tem a capacidade de se indignar e é movida pelo amor. Com ela aprendi que o amor está ligado ao destemor. A pessoa que ama sente a necessidade de defender a vida. 

Ela tem todos os argumentos para essa defesa e, em uma democracia, temos todos os elementos para apoiá-la. Em última instância, a democracia existe para defender a vida, que é o maior patrimônio. Fiquei tão encantado com a dona Pureza que temos uma ligação especial. 

Estou fazendo um documentário agora sobre ela. Dou aqui em primeira mão: estamos produzindo esse documentário, que fala sobre mulheres que defendem a vida com coragem, enfrentando “tubarões”, políticos justiceiros, grileiros de terra e saqueadores da República que valorizam o vil metal em vez da vida. 

O filme trata do Maranhão e do Pará, pois ela foi atrás do filho, Abel, pelos sertões desses estados. Fiquei encantado com a força dessas mulheres de enfrentar o patriarcado e esse regime escravagista de mentalidade ultramaterialista e sem moral. Existem muitas “Purezas” no Brasil. 

A escravidão só vai acabar quando a sociedade como um todo abraçar essa causa. Não é uma causa apenas dos abolicionistas oficiais. Todos nós temos que nos tornar abolicionistas para acabar com isso. Caso contrário, continuaremos tendo mártires e pessoas abnegadas, como as que mostro no filme Servidão.

Itamar Vieira Junior, grande expoente da literatura atual, diz que precisamos parar de relativizar ou criar novos termos como “trabalho análogo à escravidão” ou “escravidão moderna”, já que estamos muito próximos do que acontecia antes de 13 de maio. A escala de trabalho 6×1 pode ser considerada um exemplo disso? 

Concordo plenamente. A escravidão mudou de forma, mas não de essência. O fim da escala 6×1 é um pleito legítimo. Como uma pessoa vai cuidar da saúde, dos filhos ou do lazer tendo apenas um dia de folga, muitas vezes com tudo fechado? O trabalho digno deve ser a base, pois a sociedade é movida pelo trabalho. 

Esse regime 6×1 é desumanizante. Além disso, a dívida hoje é uma forma de escravidão. Mais da metade das famílias brasileiras está endividada. Os bancos fazem o papel do antigo armazém da fazenda, onde o trabalhador criava dívidas com preços abusivos. As pessoas trabalham para pagar juros absurdos, extorsivos e obscenos.

O cinema brasileiro vive um momento de prestígio internacional. Como você vê esse momento?

É um momento de ouro. Só vivemos algo parecido no Cinema Novo, com Glauber Rocha, nos anos 60 e 70. Não é um ponto fora da curva, pois no ano passado fomos indicados e premiados com Ainda Estou Aqui, e este ano temos O Agente Secreto com uma quantidade de indicações comparável a Cidade de Deus

É o único filme de língua não inglesa concorrendo ao melhor filme principal. Se olharmos os concorrentes, é só “filmaço”. O cinema brasileiro está ao lado dos maiores valores cinematográficos do mundo. Wagner Moura concorrendo com gigantes. É a nata.

O Brasil tem um recado a dar ao mundo. É um momento de valorização da nossa cultura. As políticas públicas precisam continuar, pois esses filmes são frutos delas. Políticas que foram demonizadas pela extrema direita, que se preocupa em acabar com tudo o que faz pensar e sentir. Precisamos fortalecer o que faz sentido para crescermos em mentalidade. Agora, com a inteligência artificial, o nosso desafio no século 21 é gerar seres pensantes e sensíveis.

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Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

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Editado por: Maria Teresa Cruz

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