'Quarta graça'

‘O Brasil torce por uma personagem trans pela primeira vez’, comemora Gabriela Loran

29 de janeiro é Dia Nacional da Visibilidade Trans e a televisão brasileira vive um momento ímpar com Viviane, em Três Graças

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Gabriela Loran: 'Não estamos apenas fazendo história. Estamos reescrevendo-a'
Gabriela Loran: ‘Não estamos apenas fazendo história. Estamos reescrevendo-a’ | Crédito: Divulgação/Roberto Filho

29 de janeiro é Dia Nacional da Visibilidade Trans e, neste ano, a história da televisão brasileira vive um momento ímpar com o protagonismo e carinho do público dedicado à farmacêutica Viviane, personagem da novela Três Graças, interpretada por Gabriela Loran. 

Para a atriz, a experiência desse papel tem sido singular, pela complexidade da personagem, que não é resumida apenas às violências transfóbicas, mas pela forma como a sociedade brasileira abraça e torce por Viviane. 

“As pessoas me chamam hoje de ‘atriz’. A minha condição de vida e a da Viviane existem, mas isso não é uma questão nem para ela, nem para o Brasil, que está torcendo pela primeira vez por uma personagem como ela. Não estamos apenas fazendo história. Estamos reescrevendo-a. Isso não tem preço. Parece que estou vivendo um sonho e que vou acordar a qualquer momento, porque é real. É novela, mas é real graças à mobilização da população trans e LGBTQIA+ no nosso país”, comemora Loran, ao Conversa Bem Viver

Viviane, que já vem sendo chamada pelo público de “quarta graça”, em referência à proximidade com o trio de protagonistas e relevância para o enredo, vive um romance conturbado com Leonardo. O relacionamento é transpassado por preconceitos, diferenças sociais e questões familiares. Mas, na avaliação de Loran, o principal é que mostra a possibilidade de as pessoas evoluírem e superarem posturas transfóbicas.  

“O Leonardo representa o suprassumo do privilégio e, ao ser colocado ao lado de uma mulher como a Viviane, temos transformação social. É importante ter essa transição para que os ‘Leonardos’ do Brasil possam virar a chave. Ele está mudando por ela, mas também por ele. É importante que esse casal termine junto para que possamos letrar o Brasil, mostrando que é possível sair da zona de ignorância. Isso traz esperança para tantas ‘Vivianes’ e permite que muitos ‘Leonardos’ desenvolvam empatia”, explica. 

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato –  Sabemos que, quando um autor escreve uma novela, há uma expectativa de como cada personagem vai se desenvolver, mas, à medida que o público reage, o arco narrativo pode mudar. Sua personagem cresceu ao longo desses últimos episódios. Como você vem encarando este momento?

Gabriela Loran –  Essa personagem está não só me comovendo, mas comovendo um Brasil inteiro que torce pela Viviane. Quando as pessoas me perguntam, eu digo que já esperava [que isso fosse acontecer], de verdade, desde quando recebi a personagem lá atrás, e também por toda a escuta que estou tendo dos autores e da direção — os “três Silvas” (Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé da Silva) e o nosso diretor, Luiz Henrique Rios. 

Estou tendo a oportunidade de colaborar com o texto e levar um pouco da minha vivência para ele. Isso, sem dúvida, é uma possibilidade de escuta que reverbera em como o público absorve a personagem. Está sendo um sonho. A Viviane já veio do tamanho e exatamente como eu sempre sonhei em termos de nuances, complexidades e relevância dentro da trama. 

Estou muito emocionada de viver este momento, porque foi algo que sempre esperei. O mais gostoso é ter sido escolhida para vivê-la e ter esse feedback positivo. Isso não fala apenas do meu trabalho como atriz, mas sobre a história que estamos reescrevendo.

Quando fiz Malhação, entre 2017 e 2018, as pessoas me paravam na rua e falavam: “ah, você é aquela trans? Você é trans mesmo?”. Hoje, as pessoas me param e dizem: “Viviane! Você é a Viviane, a Gabriela Loran. Viviane, vai abrir a farmácia! Viviane, mata o Ferette! Não deixa o Leonardo ir embora!”. 

Você entende a complexidade da humanização de uma personagem que está reverberando até em mim? As pessoas me chamam hoje de “atriz”. A minha condição de vida e a da Viviane existem, mas isso não é uma questão nem para ela, nem para o Brasil que está torcendo, pela primeira vez, por uma personagem como ela. 

Não estamos apenas fazendo história. Estamos reescrevendo-a. Isso não tem preço. Parece que estou vivendo um sonho e que vou acordar a qualquer momento, porque é real. É novela, mas é real graças à mobilização da população trans e LGBTQIA+ no nosso país.

Viviane não é só  a violência que ela sofre, tem também momentos lindos e de leveza, mas a violência protagonizada pelo Murilo Benício aparece na trama. Isso também precisa estar lá?

A novela é a representação ficcional do que vivemos realmente. Não existe um Brasil onde as pessoas trans não sofram. O Brasil ainda é o país que mais mata pessoas trans no mundo. É importante que isso apareça. Um pedido meu para a construção da Viviane foi: a transfobia vai surgir, mas não será resolvida por ela. 

Ela não é professora para ficar letrando ninguém. O constrangimento vai surgir, mas ele vai voltar para quem o cometeu. A Viviane não fica sofrendo pela transfobia em si. Ela sofre porque ama o Leonardo e ele age daquela forma. Ela sofre porque não quer perder a história que está vivendo. A Viviane é muito convicta de quem ela é. 

É interessante surgir a transfobia na boca de pessoas como o Ferette ou, em determinado momento, do Leonardo, que é um personagem passando por uma transição psíquica e social. O Leonardo representa o suprassumo do privilégio e, ao ser colocado ao lado de uma mulher como a Viviane — que carrega signos de mulheres negras, LGBTs, periféricas e farmacêuticas graduadas —, temos transformação social. 

As pessoas me perguntam se estou torcendo, dizem que o Leonardo é babaca e não a merece. Realmente, ele não merece em alguns aspectos, mas é importante ter essa transição para que os “Leonardos” do Brasil e do mundo — já que a novela estreia em Portugal e outros lugares — possam virar a chave. 

Ele está mudando por ela, mas também por ele. Essa mudança só é genuína se ele atravessar isso. É importante que esse casal termine junto para que possamos letrar este Brasil, mostrando que é possível sair da zona de ignorância. Isso traz esperança para tantas “Vivianes” e permite que muitos “Leonardos” desenvolvam empatia.

Você está contracenando com atores de uma geração em que era normalizado tratar personagens trans de maneira violenta e desrespeitosa. Como é a troca com esses grandes nomes da teledramaturgia?

A pessoa que mais me fala isso é o Marcos Palmeira. Gravamos muito e o Marquinhos diz: “Caraca, você está incrível! Que cena foda, que texto incrível! Que bom que você está conseguindo colocar coisas suas”. Escuto isso constantemente dele, uma pessoa que cresci assistindo. Na minha cabeça, faz um rebuliço. 

Com a Grazi também temos trocas incríveis. A Dira Paes é um amor e está sempre me ouvindo. Com a Sophie Charlotte, conseguimos desenhar uma amizade muito legal entre a Viviane e a Gerluce. Até com o Pedro Novaes, que é da geração atual, existe a compreensão da responsabilidade da nossa história juntos. Ele segura a minha mão.

Ontem gravamos uma sequência de cenas que eu tenho certeza de que o Brasil vai parar de novo. O “Viléo” já passou por muitas nuances e agora enfrentará o desafio de ele saber ou não que o pai é do esquema. A carga emocional é profunda. Vai ser pico de audiência. 

Tudo isso é graças à sinergia do elenco. Nos bastidores, um fortalece o outro. Quando assistimos à novela cada um em sua casa, mandamos parabéns no grupo. Essa energia por trás das câmeras reverbera no ar.

Há algumas semanas conversamos com a Alanis Guillen, que também é uma das vítimas do Ferette. Como profissionais, vocês separam as coisas, mas não dá vontade de olhar para o Murilo Benício e dizer: “cara, para de ser tão mau”?

Não tem como! O Murilo é uma pessoa tão incrível e deixa o set tão leve. As trocas antes das cenas são tão gostosas que, quando começa, às vezes nem o reconhecemos, porque ele é o oposto do Ferette. Ele é um ator muito pensante, cogita e empresta coisas para a cena. 

Meu medo sobre quem faria o Léo era se a pessoa estaria aberta a trocar com a vivência de uma mulher com essa condição. Se não houvesse abertura, não veríamos o que estamos vendo agora. O Pedro é incrível e nossa conexão — física, biológica e matemática — é muito real. O mesmo vale para o Murilo e os demais. O Belo, então, é o suprassumo da gentileza e generosidade. Ele ouve nossas dicas e está aberto a trocar o tempo inteiro.

Antigamente, se houvesse um personagem trans ou com deficiência, quem os interpretava não era uma pessoa trans ou com deficiência. Avançamos na representatividade como um todo. Mas quando [você acha que] atingiremos o nível de ter uma atriz ou ator trans protagonizando um personagem cujo arco narrativo não dialogue necessariamente com a questão de gênero? 

Tive a oportunidade de viver a Luana em Cara e Coragem. Ela não tinha essa questão. As pessoas me perguntavam se ela era trans, e a autora Cláudia Souto dizia que a Luana era apenas a Luana. Não teve a visibilidade da Viviane, mas foi uma pincelada. Quando me perguntam qual meu próximo sonho, eu digo: quero ser protagonista sem esses paradigmas. 

Quero que o conflito seja comum, como o da Gerluce: alguém que trabalha, cuida da família, uma mãe. A capacidade eu já estou mostrando que tenho. Estamos caminhando para esse lugar, longe de estereótipos. A Viviane é uma pessoa trans, mas isso não a define. 

Ela é amiga, farmacêutica, namorada, nora, cuida dos amigos. O diferencial é justamente ser uma personagem humana, que sangra, se emociona, sente raiva, dá um beijo caloroso no Leonardo e chora ao ver a amiga mal. É por isso que o feedback é de “Viviane farmacêutica, farmadiva”. 

Em Salvador, uma criança me reconheceu e perguntou o que eu estava fazendo na praia. No Rio, um menino mostrou para a mãe dele que queria falar comigo. Estamos atingindo todas as faixas etárias, classes sociais e gêneros. É algo inimaginável que se tornou real.

A quem devemos atribuir essa conquista? Às mobilizações populares e ao movimento LGBT+, ou à classe artística?

Não existe uma pessoa específica. É uma comoção popular. O Aguinaldo se sensibilizou e quis trazer essa personagem, assim como trouxe a da Alanis. Se temos a oportunidade de, em uma novela das nove, abordar o tema de forma humana e com escuta, é uma vitória. 

Eles me acolhem e me permitem compor o texto. Devo agradecer a todos nós que estamos lutando e resistindo, aos políticos que se movimentam por medidas públicas e às pessoas dentro da Globo que usam seus privilégios para abrir portas para pessoas como eu. Agradeço aos diretores por terem me escolhido e por fazerem história juntos. Haverá um “antes e depois” da Viviane na teledramaturgia.

Após Três Graças, já temos algum outro trabalho engatilhado? 

Temos a sexta temporada de Arcanjo Renegado. O José Junior já me mandou alguns spoilers. A Giovana vem como deputada, então o clima na ALERJ vai esquentar. Ela virá com um repertório bem interessante dentro da política e modificando cabeças. Por enquanto, o mais certo é a Giovana abalando corações em Arcanjo Renegado.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

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Editado por: Nathallia Fonseca

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