Ao completar 40 anos de existência, o afoxé Alafin Oyó reafirma seu lugar como uma das expressões mais potentes do afoxé no Brasil, articulando cultura, política, educação e espiritualidade muito além dos dias de Carnaval. Fundado em Olinda, em Pernambuco, o grupo construiu uma trajetória marcada pela luta antirracista, pela valorização das heranças africanas e pela formação afrocentrada de gerações inteiras de pessoas negras.
Mais do que um grupo cultural, o Alafin Oyó se entende como território vivo. Em entrevista ao Conversa Bem Viver, Fabiano Santos, integrante e liderança do coletivo, explica que o afoxé é uma forma de conhecimento que atravessa corpo, mente e alma. “É uma ligação direta com o continente africano, mas ressignificada a partir do nosso território, da nossa nova África, que é o Brasil”, afirma. Essa relação se expressa tanto na religiosidade quanto nas transformações tecnológicas e culturais, sem romper com os fundamentos ancestrais que sustentam a tradição.
Segundo Fabiano, o diálogo constante com países africanos como Angola e Gabão evidencia que, apesar das diferenças nas formas de cantar, tocar e celebrar, há um eixo comum que conecta essas práticas: a fé e a relação espiritual com o mundo. “O que nos liga é essa relação com a religiosidade, mas também o enfrentamento ao capitalismo, que desde o período colonial opera como ferramenta de exploração”, destaca.
Confira a entrevista completa
Brasil de Fato: Para começar, vamos dar um passo atrás no tempo. Como o afoxé se constrói nessa relação viva entre o continente africano e o Brasil, especialmente diante de um mundo contemporâneo marcado pelo capitalismo?
Fabiano Santos: O afoxé é essa ligação direta com o continente africano, mas a partir de uma ressignificação tecnológica, espiritual e territorial no Brasil, nossa nova África. Temos parcerias com países como Angola e Gabão e, ao trocar saberes, percebemos que falamos das mesmas coisas, ainda que de formas diferentes. A fé e a saudação permanecem, tanto aqui quanto no continente africano. O que nos une é a religiosidade, mas também o enfrentamento ao capitalismo, que desde o período colonial opera como ferramenta de exploração e ainda hoje impacta nossas relações com o território, com o dinheiro e com a própria humanidade.
Ao completar 40 anos, quais caminhos, lutas e conquistas marcam a trajetória do Alafin Oyó em Olinda, Pernambuco?
O Alafin Oyó nasce já com um compromisso profundo no combate ao racismo e na atuação política. Participamos de debates importantes, como o processo de construção da Constituição de 1988, e atuamos fortemente durante o período da ditadura, denunciando violações por meio do boletim Negração. Também construímos alternativas de sustentabilidade econômica para famílias negras, como a criação da bebida Axé de Fala, que circula até hoje em vários estados. Nosso trabalho sempre foi pensar cultura, política e economia juntas, valorizando a memória, a música, o patrimônio material e imaterial e a participação da população negra na construção da história.
Pensando na dimensão social e educativa, quais impactos o Alafin Oyó tem nas comunidades e na formação de juventudes negras?
Fabiano: Desde o início, o Alafin Oyó fez dos ensaios de domingo espaços de formação afrocentrada. As pessoas iam para dançar, cantar, confraternizar, e acabavam sendo formadas politicamente. Hoje isso se amplia com oficinas de dança, percussão e canto, além do acompanhamento pedagógico de crianças e jovens nas escolas. Também acompanhamos a inserção de adolescentes e adultos no serviço público. Em 2025, conseguimos aprovar cinco pessoas em concursos da Prefeitura de Olinda, além de outras aprovações no Governo do Estado e em municípios da região. Nosso papel é estimular a progressão humana a partir da cultura.
Olhando para o futuro, o que significa manter viva a tradição do afoxé para as próximas gerações?
A perspectiva é que essa tradição seja cada vez mais potente, mais incisiva e mais eficaz. Vivemos um momento de retrocessos, inclusive dentro de campos que deveriam avançar. Levamos 16 anos para sermos reconhecidos como Patrimônio Vivo de Pernambuco, e ainda somos o único afoxé com esse título. Mas não queremos exclusividade. Queremos que todos sejam reconhecidos. É preciso ampliar a presença dos patrimônios vivos nas escolas, nos territórios, criando trocas e novas tecnologias culturais. Patrimônio vivo não pode ser só um título ou uma bolsa, precisa reverberar uma nova civilidade.
A “Noite do Cabelo Pichain” é uma das ações mais simbólicas do Alafin Oyó. Como surgiu essa iniciativa e qual é sua importância hoje?
A Noite do Cabelo Pichain surge na década de 1980 como um gesto político de afirmação da estética negra. Naquele período, o cabelo crespo era visto como algo negativo. Persistir em usar o cabelo natural e ocupar espaços universitários e culturais foi um ato de resistência. Hoje, essa expressão cresceu, inspirou outros grupos e ajudou a construir uma nova relação com a beleza negra. Mas também existe um risco: tudo que a população negra cria passa a ser explorado economicamente. A estética vira produto, mas o retorno financeiro nem sempre chega para quem criou.
Ao longo desses 40 anos, a luta contra o racismo esteve sempre presente. Quais são hoje os principais desafios nesse enfrentamento?
Temos problemas graves no cumprimento de leis como a 10.639 e a 11.645, falhas na execução do Plano Nacional de Cultura e no próprio cumprimento da Constituição de 1988. A violência policial segue vitimando a população negra, o abuso de autoridade não é punido e há exploração econômica constante do trabalho e da cultura negra. O Carnaval, por exemplo, arrecada bilhões em impostos, mas esse dinheiro não retorna para os grupos populares que sustentam a festa. Isso é racismo estrutural e econômico.
Para encerrar, que mensagem você gostaria de deixar e qual música do Alafin Oyó representa essa trajetória?
A mensagem é de persistência. Precisamos continuar lutando por formas mais solidárias, sustentáveis e justas de viver, onde as culturas populares negras não fiquem presas às marcas da escravidão. A música que representa isso é A Luta. Como diz a canção, “a luta não para”. O racismo sobreviveu à abolição e segue se reorganizando, e é por isso que seguimos cantando, tocando e resistindo.

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.
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