Empresas estrangeiras detêm 68,9% dos parques eólicos da região Nordeste. Outros 30% são de capital misto, com investimentos nacional e internacional. A França lidera como país que mais possui parques eólicos na região, com 156; seguida pela China, com 117, e a Itália, com 94 dos empreendimentos no Nordeste brasileiro.
A região tem hoje o maior número de outorgas liberadas pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) para a implementação de complexos eólicos, e é responsável pela geração de mais de 90% da energia originada do vento no país.
Os dados fazem parte do levantamento realizado pela pesquisadora Monalisa Lustosa, doutoranda em geografia na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). Os números integrarão a tese da pesquisadora que serão disponibilizados junto com um mapa interativo que mostra os locais das usinas eólicas e as indicações do que Lustosa chama de “donos do vento”.
Em entrevista ao Conversa Bem Viver, Lustosa disse ainda que é preciso analisar, de forma crítica e sem romantizar, o conceito de desenvolvimento sustentável e a agenda da transição energética. A pesquisadora nomeia a condição da agenda global de transição energética como o mito do desenvolvimento sustentável. Ela destaca que o conceito em si é uma criação de países ocidentais e foi trazida para a América latina “de forma colonizadora”.
“[A agenda da transição energética] é desenhada lá fora por corporações transnacionais, pelo capital estrangeiro, sobretudo dos principais países que dominam essa agenda de transição energética que são os países ocidentais”, destaca a geógrafa.
Na visão da pesquisadora o debate ainda traz uma grande dicotomia, por se tratar da geração de energia retirando a emissão de carbono da cadeia produtiva, mas, ao mesmo tempo, afetando as comunidades locais por esses empreendimentos.
“Quando você olha para uma torre eólica, pensa que o Brasil está se desenvolvendo e está colocando os pés no futuro e, ao mesmo tempo, vê povos que estão sendo desterritorializados, que estão sendo ameaçados, que estão perdendo sua identidade por conta desse avanço, dessa tecnologia”, diz Lustosa.
Ela salienta que pensar em desenvolvimento sustentável não implica somente em descarbonizar as fontes de energia, mas levar em conta as violências nos territórios.
A pesquisa de Lustosa tem utilizado como fonte as experiências de pescadores, marisqueiras, quilombolas, trabalhadores rurais assentados da reforma agrária e comunidades tradicionais de fundo e fecho de pasto de diferentes localidades na região Nordeste.
Essas comunidades tradicionais relataram à pesquisadora que consideram que estão lidando com um “inimigo oculto”, por terem poucas informações sobre a construção dos parques, já que não são seguidos os protocolos de consulta e escuta ativa aos moradores locais.
Lustosa comenta que esses povos locais têm utilizado o termo territorialização dos ventos — ao qual ela incorporou à sua pesquisa — para se referir a dominação do capital estrangeiro na aquisição de outorgas de parques eólicos na região. Nesse sentido, ela acredita que o mapa interativo e a compilação de dados que sua tese vem realizado é um ponto importante para a organização dessas comunidades.
A pesquisadora aponta que a “estrangeirização” da energia, que significa a exportação da energia gerada para outros países, ainda não é uma realidade, mas que tecnologias para essa finalidade estão sendo estudadas. Do outro lado, ela ressalta que o que se tem de lucro financeiro e de desenvolvimento tecnológico é enviado para fora do território nacional “O lucro, ele não fica aqui. O desenvolvimento, ele não fica aqui. Então, vale repensar o que a gente está chamando de desenvolvimento”.
Caminhos de soluções
A pesquisadora não se debruça apenas sobre as ameaças dos megaempreendimentos de usina eólicas. Durante a entrevista ao Conversa Bem Viver, ela destacou a resistência e a organização popular regional com a formação do Movimento de Atingidos/as pelas Renováveis, o chamado MAR, que atua na defesa de territórios impactados por projetos eólicos e solares e reivindica uma transição energética justa e popular.
A pesquisadora ressalta que o movimento nasce para lutar pelos direitos das comunidades e territórios afetados por empreendimentos voltados às energias renováveis se assemelha ao Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) no entendimento do território como identidade. Ele cita ainda como outro elemento importante nessa relação o da cosmovisão, conceito proposto pelo pensador popular e quilombola Nego Bispo. que traz no seu fundamento uma ação anticolonial e que valoriza a ancestralidade e a circularidade do tempo.
Para além do movimento de luta, ela destaca que o MST tem se utilizado da tecnologia da energia renováveis em diversas experiências, os quais ela chama de “territórios de esperança”, inserindo sistemas de energia solar em agroindústrias de cooperativas de assentados, permitindo eles tenham uma maior capacidade de produção, além de uma maior economia no processo.
“Tem muitos exemplos na Paraíba, na região de Pombal, no Piauí, em vários lugares, que a gente está chamando de territórios de esperança, porque não significa que é uma utopia, difícil, ou que é impossível, mas um passinho de cada vez nessas disputas territoriais. As comunidades tradicionais estão descobrindo que elas podem também pautar o uso dessas tecnologias e devem avançar no conhecimento dessas ciências para poder não só se proteger, mas também para irem além da crítica, fazer as alternativas de um desenvolvimento que possa ser de fato sustentável.”
Conversa Bem Viver

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