Até o próximo domingo, 22 de março, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), na zona central de São Paulo, recebe, de forma inédita a mostra “O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror”.
Sarah, que nasceu na França sendo filha de guadalupense, estudou cinema na União Soviética com orientação de Mark Donskoi, começou sua carreira realizando um cinema de militância e falando das lutas de independência. Mais tarde, passou para um cinema mais poético, com documentários sobre poetas e pintores, como contou Henda do Cado, economista, socióloga e filha da cineasta Sarah Maldoror ao Conversa bem Viver.
Henda esteve no Brasil no processo de abertura da Mostra representando sua mãe, que faleceu por decorrência da Covid-19 em 2020.
Durante a entrevista, Henda lembrou que Sarah sempre dizia que fazer cinema é tomar uma posição, ao falar que a cineasta entendia o cinema como ato político. “Ela adotou ideais de querer lutar pela emancipação cultural dos povos e foi fiel até o fim a esses ideais”,disse a filha de Sarah.
Para alcançar esse objetivo, Henda aponta que Sarah fez uma opção muito nítida de contar uma história com uma controle da narrativa, de como contar essa história e que por vezes, ela era muito criticada por apresentar uma África sem a perspectiva da violência ou da guerra.’Sobre os filmes dela, a crítica sempre colocava uma parte positiva, dizendo: “Muito obrigado, estamos a conhecer uma outra realidade”, mas havia sempre um mas, que era: “Por que tanta beleza? Por que que se fala de uma guerra, mas não se vê batalhas, não se vê não se vê guerra’. “
Serviço
Mostra O Cinema Anticolonial de Sarah Maldoror
São Paulo: CCBB São Paulo (Rua Álvares Penteado, 112 – Centro)
Período: até 22 de março
Programação gratuita (ingressos retirados no site ou uma hora antes das sessões)
Confira a entrevista
Brasil de Fato: Como está sendo a sensação de estar no Brasil, sendo a representante da tua mãe, Sarah Maldoror. E também qual é a importância desta Mostra aqui no Brasil?
Henda do Cado: Nós, eu e a minha irmã, recebemos esse convite com muita alegria e com muito entusiasmo. Sabemos que em 1979, a nossa mãe foi convidada no festival, acho que foi em São Paulo, ou no Rio de Janeiro. E isso não pode ser concretizado, ela tinha muito interesse em conhecer o Brasil.
A Lucia Monteiro já tinha trabalhado com a minha irmã em 2016. E é muito positivo, porque temos uma história em comum, de um processo de descolonização. Eu sinto que o público brasileiro tem uma sede de conhecimento sobre o continente africano, a história, a questão da militância, a questão da resiliência e a obra da Sarah Maldoror ilustra um pouco tudo isso.
Consideramos Sarah uma cineasta revolucionária, mas vai ser muito bonito ouvir nas suas palavras a descrição de quem é essa cineasta e quem é essa mãe.
Vou começar pela cineasta, depois vou falar da mãe. A cineasta, desde muito tempo, fez uma opção muito clara de querer contar uma história e de querer ser um controle da narrativa. Ela sendo um produto de um casal misto, que infelizmente ambos os pais morreram muito cedo, ela não teve uma estrutura familiar.
Teve a primeira vivência, infância, adolescência com algumas precariedades e ela constrói o seu caráter, constrói a sua identidade através da literatura e da poesia.
Ela adotou ideais de querer lutar pela emancipação cultural dos povos e foi fiel até o fim a esses ideais. Toda sua obra, embora uma a obra é bastante iconoclasta. Ela começa com um cinema de militância falando das lutas de independência e vai evoluindo com um cinema mais poético, com documentários sobre poetas e pintores. E essa trajetória é uma ilustração das dificuldades que ela teve de encontrar financiamento na França, onde ela vivia, por ser mulher, por ser negra, também não saber gerir a sua carreira porque ela é formada como artista. Ela não foi formada como gestora
Ela não tinha uma equipe dedicada, com um produtor, advogados e tudo isso fez com que ela fosse à procura de oportunidade ou às vezes criou oportunidade, mas às vezes não conseguia abrir portas. E nós vimos uma cineasta que fez 45 filmes e que escreveu 50 projetos que não foram financiados.
Ela é uma boa ilustração de uma mulher resiliente, porque não é por isso que ela parou de pensar ou de escrever.
E a quanto mãe, ela foi uma mãe extraordinária. Muito jovial, sempre com muito otimismo, nunca transmitiu insegurança e havia muita insegurança a transmitir. O nosso pai era clandestino, era vigiado pela polícia portuguesa ou até e a independência, ele jogava com vários passaportes para poder entrar e sair da França para estar conosco.
Tinham longos período de ausência, sem comunicação porque estávamos nos anos 1970, não havia fax nem internet, às vezes ele enviava cartas com codificações, telegrama, às vezes as mensagens vinham por intermediários. A Sarah mãe, nesse meio todo, sempre transmitiu amor, sempre transmitiu um acompanhamento, sempre sentimentos afetivos e principalmente positividade. Era uma pessoa extremamente otimista.
Ela mudou de nome, ela escolheu o próprio nome, foi um gesto muito contra colonial. Como que foi isso?
Quando eu era criança e também adolescente, sempre questionei ela. Queria sempre saber mais sobre a sua infância. E ela nunca nos contou nada da infância.
Ela sempre dizia: “A minha vida começou com meus 20 anos, quando eu cheguei em Paris”. E o primeiro ato político, a primeira coisa que ela fez quando ela chegou em Paris foi mudar de nome. De um lado para se afirmar como uma pessoa independente. Ela não falava de nacionalidade, falava do universo. Ela dizia: “Eu sou descendente de escravos. O meu pai de Guadeloupe, eu vejo uma mulher negra”. Não é que ela não olhava cores, só que ela não se encaixava em nacionalidade ou numa geografia a não dizer: “Sou das Antilhas, eu sou francesa”. Ela só dizia: “Eu sou uma mulher negra”. E como tal, ela escolhe o seu nome para dizer: “O meu nome não pode ser imposto”.
De um lado ela tinha uma admiração do movimento surrealista e ela escolheu o nome do poeta Conde de Lautréamont e de uma personagem do Conde de Lautréamont, que é Maldoror, que por acaso era um personagem diabólico.
E assim surge esse nome, aos seus 20 anos, que podemos, com certeza dizer, que foi o seu primeiro ato político.
A Sarah teve uma formação dentro do cinema, principalmente, mas eu imagino que política, na União Soviética, é isso Henda?
Exato. Ela começou a sua carreira no teatro onde ela fundou a primeira tropa negra de teatro com quatro amigos em Paris, em 1956. Importante dizer que ela era amiga e frequentou o Abdias de Nascimento. Então já havia um relacionamento com o Brasil naquela altura.
A razão por ela ter optado em fundar essa tropa de teatro negra, primeiro porque ela dizia: “Não há papéis para negros e nós queremos escolher os nossos papéis e queremos escolher os nossos autores”. E ela dizia: “Eu não posso sempre receber papéis de empregados. Eu também quero ser uma heroína”. E fazendo o teatro, ela percebeu que a África não estava preparada para o teatro. Ela viajou para a África. A tropa fez algumas apresentações e ela percebeu que havia dificuldade para o público africano ter a atenção sobre as peças.
E daí que ela pensou que o cinema poderia ser usado como uma ferramenta visual, que ia levar as mensagens e a narrativa mais longe e de uma forma consciente. Ela consegue a Bolsa, vai para a União Soviética e já escolhe com que realizar ela queria trabalhar. Que é o Mark Donskoi, que tinha um cinema clássico, porque ela sabia que ela nunca ia ter a possibilidade de fazer grandes produções como a Batalha do Potemkin, com muita gente que necessita de muito dinheiro.
E quando se olha pela obra dela e pela estética do trabalho dela, que é realmente muito específico, vê-se a influência do cinema de Mark Donskoi, do cinema soviético, que é uma mistura de planos a alargados e de planos mais restrito, muita atenção às emoções, muita atenção aos olhares, às mãos, tudo isso para transmitir, mais uma vez, emoções.
E eu queria colocar na nossa conversa a situação de Burkina Faso, que faz bastante tempo, vive um processo revolucionário por conta do Sankara e hoje especialmente por conta do Traoré, que é o atual presidente, vem tocando o legado do Sankara nesse processo de independência, anti-colonização. Burkina Faso tem um festival de cinema, o festival Pan-africano de cinema e televisão, o Fespaco ou que é conhecido mundialmente, é extremamente celebrado, inclusive o Brasil participou recentemente e a gente ouviu por parte dos organizadores uma manifestação muito bonita quando questionado sobre por que deveria se fazer um festival em um país que vive um processo de guerra, guerra civil, muito conturbado, com muitas ameaças e por que fazer um festival de cinema em meio a esse caos. E os ministros responsáveis falaram que se não existe cinema, se não existe arte, o povo não consegue se imaginar, não consegue se ver, não consegue imaginar um outro mundo possível. Então quero te ouvir sobre qual é a importância desse processo revolucionário em Burkina Faso, qual que é a importância do festival, mas principalmente, qual que é a importância do cinema para alimentar um processo de autodeterminação dos povos?
Tudo que tu acabaste de dizer, tem eco no posicionamento dela. A Sarah sempre dizia: “Fazer cinema é tomar uma posição”.
A questão aqui, mais uma vez, sobre o controle da narrativa, de mostrar que a África pode ser vista, pode ser filmada com estética, que não há necessidade de mostrar violência, como não há necessidade de mostrar miséria. Ela sempre foi criticada por causa disto.
Sobre os filmes dela, a crítica sempre colocava uma parte positiva, dizendo: “Muito obrigado, estamos a conhecer uma outra realidade”, mas havia sempre um mas, que era: “Por que tanta beleza? Por que se fala de uma guerra, mas não se vê batalhas, não se vê guerra”. E ela dizia: “Eu pensei ter feito um filme político porque eu estou a filmar o cotidiano das pessoas. Também as reuniões clandestinas, a solidariedade entre as mulheres”, e tudo isso foi bastante criticado.
Todo mundo admira o festival, mas é preciso dizer que ele nunca, realmente, admirou a Sarah. E temos o problema patriarcal misturado com o problema da nacionalidade, que as pessoas diziam: “Ah, mas não é africana. Ah, mas é francesa”. Ela é a primeira mulher a fazer um filme em 1969. Além da Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, não houve filme feito no espaço lusófono, pelo menos, que ficcionou a luta contra o poder colonial. E o festival, organizado por homens, não teve essa visão de dizer, vamos acolher a Sarah como uma entre nós. E agora, muito mais tarde, ela é tida como a matriarca do cinema africano.
E agora para se encaminhar para o final, você viu O Agente Secreto, o filme aqui brasileiro que tá concorrendo ao Oscar?
Eu ainda não vi, eu estou com muita expectativa para ver. Sei que há um angolano que está no elenco, mas não vi. Eu admiro o cinema brasileiro, admiro toda essa caminhada também de resiliência da população e admiro a energia que eu vejo aqui e eu sinto também que há muito futuro aqui. O Brasil ainda tem muito para dar. Eu gostaria de voltar aqui. Gostaria que a nossa associação pudesse fazer outros festivais no interior, porque ainda não fomos ao interior. Só fomos para o Rio, São Paulo, agora vamos para Salvador. Gostaria de ir pelo sul também e eu gostaria também que o cinema da Sarah pudesse ser estudado nos currículos brasileiros.
Conversa Bem Viver

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