No livro“A Teimosa”, a jornalista Cha Dafol, nômade e atualmente correspondente do Brasil de Fato no Haiti, conta as histórias da viagem que fez pelo Nordeste do Brasil em cima da sua bicicleta de bambu, a Teimosa, que dá nome à publicação.
Fazer o trajeto de muitos quilômetros em uma bicicleta de bambu não foi exatamente uma escolha, mas uma alternativa viável, conta Dafol. “Comprar uma bicicleta meio que não era nem opção, porque eu estava bem sem dinheiro. Mas eu não ia viajar com uma bike de bambu, a minha ideia era viajar com a bike que eu tinha, que era de alumínio, que aliás não é recomendado para viagem.”
Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, a jornalista relatou que durante a cicloviagem foi acolhida por assentamentos, acampamentos e até mesmo quilombos, espaços de luta por direito à terra por todo país. Isso, diz ela, foi o que tirou de melhor do trajeto: o encontro com pessoas e experiências coletivas de organização na resistência no campo.
Nascida na França, a jornalista veio ao Brasil com 20 anos e decidiu que o país seria a sua casa. Morou por muitos anos na capital gaúcha e, depois da viagem de bicicleta, se mudou para o Recife. Agora realiza um trabalho na brigada do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra no Haiti. Antes disso, ela passou uma temporada em Caracas, capital da Venezuela – onde, conta ela, a realidade é impressionantemente diferente do que conta a imprensa comercia.
Durante a entrevista, Dafol explicou como percebe o contexto da América Latina: “O que eu admiro muito na América Latina é essa história de luta de tantos povos e essa convivência entre tantos universos, num continente só, e essa resistência contra o imperialismo que tem aqui. É muito linda. Para mim é um orgulho agora estar como parte disso”, disse ela.
O livro ‘A Teimosa’, é uma publicação da editora Libretos e está disponível no site da editora ou no perfil pessoal da jornalista @chadafol
Confira a entrevista
Uma das coisas que mais me chamou a atenção no livro foi o seu humor discreto, que é uma espécie de alívio em situações tensas. A quantidade de vezes que você disse que foi perguntada se a bike era mesmo de bambu, por exemplo. Essa pergunta te irritava mesmo?
Sim, não dá para esconder que é muito legal ter uma bike de bambu, porque isso permite fazer um contato com as pessoas. As pessoas se interessam muito por ela, então é meio que um cartão de visita também, é muito massa. Mas é óbvio que ela é de bambu [risos]. Pela quantidade de vezes [que a pergunta é feita] fica realmente um pouco irritante.
Às vezes você está numa outra situação, querendo resolver uma coisa mais grave e a pessoa fica só olhando para bike, só perguntando da bicicleta de bambu. Dá um desespero, mas ao mesmo tempo, acho que é isso que traz um humor em diversas situações.
Essa coisa de ter humor no geral, eu acho que é muito uma experiência minha, porque essa foi a primeira viagem de bike que eu fiz, mas eu sou viajante há muito tempo. Acho que viajando sozinha, você acaba aprendendo que sempre tem solução. Claro, se não acontecer violência, pode ter um perrengue, mas em algum momento você vai estar em casa contando essa história e dando risada. Isso é uma consciência que é permanente na viagem. Isso permite também tirar onda de algumas situações, de relaxar, de pensar em solução, de ter uma certa distância com as coisas. Isso é uma coisa que eu trago de outras viagens.
Você conhece essa expressão: enquanto tem bambu tem flecha?
Não, não conhecia essa expressão. É bem por aí mesmo.
Por que você resolveu ir com uma bicicleta de bambu em vez de comprar uma bicicleta na loja e viajar?
Comprar uma bicicleta meio que não era nem opção, porque eu estava bem sem dinheiro. Mas eu não ia viajar com uma bike de bambu. A minha ideia era viajar com a bike que eu tinha, que era uma bike de alumínio, e que não é recomendada para viagem.
Mas tem a ver com a coisa de querer muito viajar. Ainda era final de pandemia. Eu sempre viajei de carona ou de ônibus, e não era uma coisa legal ainda naquele momento. Já tinha as vacinas. Mas ainda estava todo mundo com receio.
Um amigo meu, que é artesão, trabalha com bambu e já tinha feito uma bicicleta na vida dele, que era a dele. Ele falou “Então já que tu vai viajar, eu vou fazer uma bicicleta para ti”.
A gente fez um acordo assim: eu comprei os bambus e pegamos peças usadas, inclusive da minha da bicicleta. A ideia foi dele, e foi ótima. Porque a bike de bambu para viajar é muito legal. Ela é mais leve e ao mesmo tempo muito resistente. Só tem que ter um certo cuidado com o sol, mas é muito boa para viajar. Porque se não, seria comprar uma super bike, de fibra de carbono, um investimento gigante. Eu realmente não tinha essa grana quando eu saí.
Olhando para trás, dá para apontar uma coisa que mudou em você quando terminou a viagem?
Eu acho que o livro traz muito isso. Uma relação com o tempo, uma relação com a competição, muito forte. ’Quantos quilômetros você fez de viagem?’ querendo ou não, é outra pergunta é meio irritante. Eu estava com esse pensamento quando eu comecei a viagem, não por gostar disso, mas porque rola uma pressão nesse sentido de ‘eu preciso estar pedalando, preciso chegar mais longe, preciso ir mais rápido’.
E por que isso? De onde vem essa pressão?
Vem do capitalismo, meu bem. Vem do mundo, a gente se cria. Eu acho que a minha família sempre foi muito competitiva. Acho que o mundo, a sociedade onde a gente vive, nos leva para isso.
E afinal, a viagem foi uma oportunidade de sair um pouco disso e de relaxar em relação a essa mentalidade. E eu acho que no final da viagem eu estava muito mais de boa em relação a parar quando eu queria parar, ficar uma semana num lugar sem ficar me cobrando. Se eu fizesse outra [viagem dessa] agora, seria bem diferente inclusive. Isso foi uma coisa que mudou bastante em mim. Não sei se consegui manter isso de volta para vida na cidade,mas pelo menos eu tentei, eu acho que é uma coisa que mexeu muito comigo.
Você diria que foi essa a maior mudança que ocorreu em você ou outra coisa, alguma coisa que você tenha descoberto, você tenha visto, alguma experiência, uma vivência do meio do caminho?
As grandes transformações que a gente vive não são imediatas. Tudo é um processo, tem processo que eu tinha começado antes. Esse livro fala bastante de gênero. Eu sou uma pessoa não binária. Sim, a viagem também ajudou esse processo que já tinha começado, que continuou depois. O livro é escrito em linguagem não binária, isso foi uma coisa bem desafiadora para mim.
E bom, a principal transformação que houve depois dessa viagem, é que eu fui morar no Nordeste. Então isso foi uma mudança radical de vida, assim como entrar no MST também. Como a viagem me fez passar por muitos assentamentos, conhecer muitos militantes e a realidade rural do Nordeste, eu pensei: Vou morar no Nordeste, vou entrar no MST. Então realmente houve uma mudança radical de vida.
Você já foi para vários assentamentos, acampamentos, quilombos. Você já conhecia essa rede de militantes do MST antes. Explica como é que foi a sua trajetória. Quando veio para o Brasil você tinha 20 anos de idade. Por que você veio?
Eu vim conhecer o Brasil. Fui fazer um intercâmbio, na época, e eu escolhi, entre as possibilidades o Brasil, porque eu tocava violão e meu professor tinha me ensinado umas músicas brasileiras que eu gostava muito, mas eu não falava nada de português.
Eu vim passar um ano e acabei ficando. Na minha vida, eu sempre tive muito envolvimento com lutas sociais, lutas por moradia, principalmente. Morei em ocupação urbana durante muitos anos. Também movimentos de rua, como manifestações. Me lembro dos atos contra o golpe da Dilma, por exemplo. E acabei me aproximando em vários momentos do MST.. Eu nasci, me criei na cidade, nunca pensei em morar no campo, ‘não é uma coisa para mim’. Só que, nos últimos anos, o MST tem desenvolvido um trabalho urbano. Então, rolou esse encontro. Eu comecei a trabalhar em Porto Alegre, em feiras ecológicas, e quando eu fui viajar para o Nordeste, eu não tinha essa ideia de passar por esses lugares. Minha ideia era viajar sozinha na praia. E quando eu comecei a viagem, eu escrevi mensagens para alguns amigos assentados no Sul, e começou a se desenrolar essa rede, não só do MST, mas tem vários movimentos como CPT, MPA, movimentos inclusive locais. E em diversos momentos da viagem, acabei parando em assentamentos, acampamentos e quilombo inclusive. E acho que isso foi muito determinante, se não tivesse isso, não teria livro. Acho que a parte mais importante para mim foi essa.
Te surpreendeu essa acolhida? O quanto você foi acolhida, o quanto de gente surgiu no teu caminho?
Sim, embora nas viagens sempre aconteça isso, das pessoas te ajudarem no caminho. Mas esse era um contexto de final do ano 2021, num contexto de receio com a pandemia e de receber alguém desconhecido em casa. Teve casas onde eu dormia na rede, do lado de fora, por exemplo. Mas para mim era tranquilo. Eram coisas que a gente combinava.
É uma generosidade dos militantes muito louca. E uma coisa engraçada: sempre que eu ia embora as pessoas perguntavam “mas por que tu tá indo?”. Tinha uma coisa assim de me integrar muito na rotina do assentamento. Participava dos mutirões, das atividades. Tem um dos assentamentos onde eu fiquei que todo dia eu almoçava na casa de uma pessoa diferente, todos queriam receber a visita.
Mas falando em surpresa, o que realmente eu não esperava, é mesmo a realidade da luta pela terra lá. A realidade da desigualdade absurda que tem ainda, o tamanho das fazendas.
Você vai pedalando por horas, e é só cana de açúcar do lado, que são todas do mesmo dono, e que aquela é só uma das 50 fazendas que ele tem. Isso foi muito surreal.
E também de onde vêm essas pessoas assentadas, que hoje têm uma vida digna, que mas que continuam lutando. E que elas não tinham nada e tiveram que se juntar para conquistar isso. São histórias de luta muito potentes. Não esperava também encontrar pessoas da minha idade, com uns 40 e poucos anos, que tinha trabalhado criança na cana de açúcar sem ser remunerado, por exemplo. Eu conheci várias pessoas assim. Isso é uma história que a gente pensa: “Meu Deus, não é possível que isso está acontecendo”. Mas aconteceu mesmo.
E como é que foi escrever o livro? Você começou a escrever quando? E quanto tempo levou para você começar e também terminar?
Ele foi escrito depois da viagem. Durante a viagem, eu até anotei algumas coisas, mas eu não estava nem pensando em escrever um livro. Foi depois que rolou esse sentimento de querer compartilhar as coisas para além de numa mesa de bar com amigos, de levar mais adiante.
Quase um ano depois, fui morar no Recife, e lá comecei o processo da escrita. Demorou bastante porque eu precisava viver, militar e trabalhar. Foram uns dois, três anos, eu acho. E ele ficou pronto justo quando eu entrei numa brigada internacionalista do MST, em que me enviaram para a Venezuela e depois para o Haiti. Então já estava fora do Brasil.
No livro tem toda uma parte gráfica com fotos, intervenções, desenhos. No último ano eu fui trabalhar nisso, porque eu já sabia que não poderia publicar tão cedo. Tinha que esperar voltar para o Brasil.
O processo de escrita foi de uns três anos, e depois teve mais um ano de meio de espera, finalização, releitura. Mandei para alguns amigos revisarem. Teve também o trabalho com a editora, então no final demorou mais.
E falando de editora, como é que foi esse processo para você negociar, vender o livro, conseguir que uma editora se interessasse e publicasse o teu livro? Foi complicado?
Na verdade não, porque esse é meu segundo [livro], então chamei a mesma editora do primeiro, que tinha gostado do primeiro. Uma editora independente de Porto Alegre, que eu conheço pessoalmente, editora Libretos.
Se você fosse eleger a pior coisa que aconteceu com você durante a viagem e a melhor coisa, daria para fazer essa eleição?
A melhor coisa é isso: tudo que a gente falou até agora, esses encontros incríveis, ter conhecido pessoas tão incríveis e muitas delas eu continuei em contato depois, se tornaram amigos. Toda a viagem foi uma coisa muito legal.
A pior coisa: cansei muito, tive umas questões de saúde, no final que eu estava com a imunidade muito baixa. Quando eu voltei, fiquei 2 meses deitada. A coisa ruim foi isso, não ter conseguido cuidar bem da minha saúde. Não foi nada grave, mas foi algo que acabou me preocupando, que acabou complicando um pouco o final da viagem.
É importante ter esse cuidado consigo mesmo, principalmente quando não se tem mais 20 anos e começa uma viagem dessas.
Depois dessa viagem, você encarou ser correspondente em Caracas, na Venezuela. Como é que foi essa experiência? O que te atrai tanto na América Latina?
Olha, a luta. Tem aquela música de Calle 13, Latino-América, que toda vez que eu escuto, choro. O que eu admiro muito na América Latina é essa história de luta de tantos povos, e essa convivência entre tantos universos, né, num continente só, e essa resistência contra o imperialismo que tem aqui, é muito linda. Para mim é um orgulho agora estar como parte disso, participar disso.
E sobre Caracas. Na época [2024] eu ia para o Haiti e fui enviada para fazer uma estadia na Telesur, que tem uma das suas sedes em Caracas. Porque eu seria correspondente da Telesur no Haiti. No início de novembro, talvez de 2024, tiveram vários episódios de violência no Haiti, e acabaram fechando o aeroporto, então não deu para ir para lá naquele momento. Eu acabei trabalhando com eles em casa em Caracas durante 8 meses. E que foi muito bom ter essa experiência da Venezuela. De ver a Venezuela a anos luz do que se diz na grande mídia. Mudou radicalmente assim a minha minha visão, não só daquele país – eu já não confiava muito nos meios de comunicação tradicionais, mas foi bem radical nesse sentido.
Eu conheci você lá no Haiti, quando você estava chegando. Como é que foi esse semestre vivendo lá? Muito diferente da vida fora do Haiti?
Sim, é, uma mudança radical de estilo de vida. A gente está em uma pequena cidade rural no norte do Haiti. A gente está com luz, com água, com internet, então, conseguimos viver mais ou menos segundo os padrões. Mas a população ao redor, a maioria não tem luz em casa, não tem água em casa, tem que pegar água no poço, as estradas são de chão, então, tudo é mais demorado.
Voltando a essa questão do tempo, justamente, uma outra relação com o tempo. Muda muito o ritmo. As relações também. Ali é um pequeno povoado, muito orgulho estar lá numa brigada do MST, uma brigada que está lá a mais de 15 anos. Estou apenas fazendo parte desse momento, mas que começou antes e que vai continuar depois, é muito massa ser um elo disso. È uma baita experiência.
Você se sente segura lá? Eu pergunto porque as pessoas do Brasil tendem a achar que é um lugar muito inseguro.
Sim, onde eu estou sim. Tem que estar sempre se informando, a realidade é diferente de um lugar para o outro. É uma ilha pequena, mas mesmo assim, sei que na capital o Porto Príncipe tem que ter muito cuidado, não dá para ir em qualquer bairro.
Eu sou uma pessoa branca, dá para ver na cara que eu não sou de lá, que eu sou estrangeira, então, sou mais facilmente alvo de sequestro, por exemplo. Mas na região onde eu estou não tem gangue, é tranquilo, tem um espírito de auto-organização, de solidariedade. Então já somos parte daquela comunidade, todo mundo se protege, todo mundo se ajuda o tempo todo, já não tem mais essa relação de “os estrangeiros e os haitianos”.
Sempre se fala de um plano para acabar com a violência, acabar com as gangues. Pacificar o Haiti é uma coisa que se repete na boca de estrangeiros. O que você acha disso?
Infelizmente, no contexto atual é difícil ter otimismo no Haiti, justamente por isso, por causa dessa onda imperialista.
Lá tem uma população muito incrível, uma população muito engajada, muito consciente da sua própria história. Tem muitos recursos na ilha. A gente não pode esquecer que na época colonial, era a colônia mais próspera de todas as colônias francesas. Mas é um país completamente assolado pelo imperialismo norte-americano, canadense, estadunidense e também europeu, francês, e que na prática não tem soberania. Essa coisa de enviar mercenários: a guerra civil nunca foi uma solução para violência, não vai resolver.
A Minustah [Missão das Nações Unidas para o Apoio à Justiça no Haiti] foi uma missão que durou 14 anos no Haiti, não resolveu absolutamente nada e fez muito mal, muitos massacres.
Eu tenho pouca esperança que de agora, que eles estão mandando, além dos mercenários, contratados pelo governo, vai ter mais uma força da ONU [Organização das Nações Unidas] com mais direitos, com força de repressão das gangues, que vai poder prender pessoas. E não é legal isso. Passando por cima do Estado Haitiano, não é uma coisa que pode ser uma coisa boa. É impossível isso sem que a população tenha sido consultada.
Continuamos sem eleição no país, tudo isso está sendo decidido por pessoas completamente de fora, que nem moram no Haiti. É muito difícil achar que isso é uma solução, Mas teria como dar certo, não é um país condenado a dar tudo errado.
Se fosse um país que tivesse sua própria soberania garantida, se pudesse se desenvolver como a população, poderia dar muito certo.
Conversa Bem Viver

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