O que acontece quando decidimos abrir um “parêntese na vida” e mergulhar em um mar de possibilidades, guiados apenas pela sinceridade com o universo?
Para Cha Dafol, cineasta e viajante, a resposta veio montada em uma bicicleta de bambu, batizada apropriadamente de “Teimosa”. Em seu livro-viagem, A Teimosa, Cha narra uma jornada de quase dois mil quilômetros que começou no Nordeste brasileiro e desafiou não apenas os limites físicos do corpo, mas também as fronteiras rígidas da linguagem e da identidade. Mais do que um relato de cicloturismo, Teimosa é um manifesto de desobediência.
Cha, que não se identifica com os gêneros feminino nem masculino, utiliza a escrita para “desencaixar-se” das expectativas sociais, convidando o leitor a enxergá-le, antes de tudo, apenas como “alguém”. Essa busca por liberdade reflete-se na própria gramática da obra. Com uma licença prosaica, Cha rompe com o rigor da linguagem clássica para dar lugar à espontaneidade e à inclusão, utilizando terminações de gênero neutro para descrever sua vivência singular como um “ser andante, vivo e singular”.
Ao longo das páginas, acompanhamos o batismo da “Teimosa” nas águas salgadas do Recife, os encontros profundos em assentamentos do MST, a doçura de figuras como Damiana e a militância inspiradora de Padre Isaías. A jornada de Cha nos revela um Brasil de contrastes, onde a “universidade da vida” ensina que a realidade muda o tempo todo, tal qual as águas do Rio São Francisco.
Com orelha de mariam pessah e edição da Libretos Editora, o diário dessa cicloaventura será lançado em Porto Alegre em 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans.
Nesta entrevista, conversamos com Cha sobre como a teimosia de uma bicicleta feita de bambu e peças usadas tornou-se o veículo para uma busca fundamental: a de ser fiel a si mesme, mesmo quando o vento sopra contra.

Identidade e a “Desobediência” Linguística
Brasil de Fato: A “desajustada” gramática: No livro, você pede desculpas pelo “descaso” com o rigor da gramática clássica para ser mais fiel a si mesme. Como foi o processo de “desencaixar” a sua escrita dos moldes tradicionais para que o leitor pudesse te enxergar, em primeiro lugar, apenas como “alguém”?
Cha Dafol: Eu acho que isso foi uma decisão… não muito fácil, porém importante. Não muito fácil porque não quero desrespeitar a gramática e a língua portuguesa. E, ao mesmo tempo, para situar, eu sou uma pessoa que tem uma trajetória bastante incomum. O português não é a minha língua materna. É uma língua que aprendi bem tarde na vida, na verdade, e apesar de ser hoje o meu principal idioma, nunca tive aula de português formal, de gramática e tal. Então, escrevo como eu falo! E, ao mesmo tempo, eu gosto de literatura, gosto de poesia, gosto de explorar também os diferentes recursos da língua portuguesa e eu acho que aprendi muito também escrevendo esse livro.
Sobre esse tema do leitor me enxergar apenas como “alguém”, é uma questão super importante no pensamento não binário, no geral, de não ser precedido por teu gênero, né? De ser quem tu és e não “uma mulher” ou “um homem”. E nesse caso, porque o próprio estilo da escrita já diz muito de mim, ele já me revela como quem eu sou, para além do conteúdo. Então acho que foi uma decisão importantíssima também nesse sentido.
O gênero como bagagem: Você menciona que vive tentando se desvencilhar das expectativas de gênero. Durante a jornada, a bicicleta “Teimosa” funcionou como um escudo ou como um ímã para essas expectativas sociais que você buscava deixar para trás?
Então, a Teimosa é um cartão de visita, né? Você chega em qualquer lugar com uma bike de bambu, mais ainda com todas as tralhas que eu levava em cima, as pessoas já vêm conversar contigo! Então é um ímã nesse sentido de chamar atenção, mas um escudo também porque eu acho que pautas que temos enquanto corpos dissidentes, digamos assim, ou gêneros não cis, é o sonho de passar despercebido, às vezes, né! É ótimo que as pessoas não fiquem o tempo todo te olhando torto ou comentando teu jeito. Às vezes só ser anônimo, assim, existindo como qualquer um(a). Eu acho que isso é bem, bem importante, e a Teimosa ajudava muito nisso, tanto é que quando eu andava na rua sem ela, eu já sentia os olhares bem diferentes.
A “Teimosa” e a Estrada
O batismo material: tua bicicleta é feita de bambu e peças usadas. Por que batizá-la de “Teimosa” e em que momento da viagem você sentiu que a teimosia dela e a sua se tornaram uma coisa só?
A bike foi feita ainda no final da pandemia por um amigo artesão – na verdade acho que foi a segunda bike que ele fez na vida, sendo que a primeira foi a dele! Então, foi também um pouco essa coisa experimental e a gente estava muito sem grana. Então, é, e eu lembro que paguei pelos bambus, mas que o resto todo foi feito com peças já usadas. A gente montou ela no espaço da antiga Ocupação Pandorga, que hoje é a Associação Cabo Rocha, um espaço bem consolidado e que tem uma oficina de bicicleta. Foi lá dentro que aprendi a mexer um pouco na mecânica. E foi lá que nasceu a Teimosa, depois de muitos imprevistos e atrasos, quase não conseguimos! Porque eu já tinha passagem comprada para Recife e, no fim, ela ficou pronta apenas 2 dias antes da viagem!
Chegando em Recife, o nosso primeiro pedal, passamos por um bairro muito simbólico de resistência popular na cidade, o bairro de Brasília Teimosa. Tem uma linda história de construção de resistência. Lembro que pegamos sol, maresia, onda de mar, tudo. E quando eu terminei o pedal, eu pensei: “É um bom nome para ela: Teimosa”. E eu gosto dessa ideia dela tem um caráter também. Porque afinal, uma viagem solitária de bicicleta é muita convivência com a bicicleta, né?! E teve em vários momentos de certa discussão, dela querer uma coisa e eu não querer, e vice-versa. Às vezes ela não queria pegar uma estrada assim, travava tudo, a corrente se prendia não sei onde e já era! Aí precisava negociar com ela! Então acabou se tornando um jogo de personificá-la um pouco e de me tornar um pouco teimosa também como ela. Afinal somos bem parecidas! Mas eu confio muito nela.
O olhar de cineasta: Sendo cineasta de profissão, você diz que “ninguém do mundo de lá teria a mínima noção do lugar onde eu me encontrava”. Como o seu olhar para direção influenciou a escolha dos caminhos e o que essa “lente” captou que um mapa de GPS jamais conseguiria registrar?
Eu acho que o que dá origem a um livro como esse é justamente o sentimento de estar vendo muita coisa e de não poder compartilhar. De ser uma ponte imaginária entre dois mundos. Eu tiro foto e tirei algumas no caminho, mas não tanto quanto eu gostaria. Até por questão de segurança, eu não gosto de puxar a máquina em qualquer lugar. Mas sobretudo tinha esse sentimento de estar vivendo coisas incríveis e de querer muito compartilhar. Não com registro cinematográfico, porque são muitos encontros, muitos personagens, muitas cenas, momentos únicos, que não seria o caso de reconstituir, eu acho. A palavra escrita me pareceu ser mais fiel. Descrever, deixar as pessoas também reimaginarem com seus próprios elementos, essa linguagem me interessou mais.
Os Encontros e a Realidade Social
A Universidade da Vida: Em um dos trechos, é dito que a “universidade da vida” é melhor porque o Rio (São Francisco) muda o tempo todo e a realidade não cabe no papel. Qual foi a lição mais “fora do roteiro” que os acampamentos do MST e as cozinhas solidárias da Paraíba te ensinaram sobre a sobrevivência no Brasil atual?
Bom, eu acho que todo o livro é “fora do roteiro”! Praticamente toda a viagem saiu do roteiro inicial. Mas essa frase, no caso, da Universidade da Vida, era de uma mulher quilombola que me recebeu e foi uma experiência muito forte, em uma comunidade bem preservada, digamos, dos vícios da sociedade atual. Eu acho que esse roteiro improvisado do livro leva a buscar uma alternativa à sociedade em que a gente vive. Não é renunciar a tudo, mas entender que não tá tudo bem, né? Essa viagem aconteceu no final da pandemia, no momento em que a gente tinha tido tempo para se dar conta de que não estava tudo bem na nossa sociedade. Então, tanto os acampamentos do MST, com sua forma organizativa, quanto as cozinhas solidárias, pelo espírito de generosidade que elas carregam, nos mostram outras vias.
Mas eu acho que a grande lição é essa, que o mundo no qual a gente vive, as cidades, o modo de vida que se tem num sistema capitalista, não são a única opção possível. O sistema econômico, político atual nos leva muito a pensar que não tem outra opção. Mas tem. Tem muitas outras opções. E pior: o sistema atual oculta muito sofrimento também. Ele esconde muito bem todos os danos que lhe faz a natureza e ao próprio ser humano. Acho que o livro traz bastante isso também. Um olhar sobre as injustiças desse sistema, o sofrimento que tem causado, desde a colonização até hoje
A invisibilidade e o brilho: Você relata ter se sentido “estrangeire” e “alienígena” em ambientes urbanos e luxuosos de capitais como Aracaju e Salvador. Em contrapartida, por que o convívio com pessoas como a Damiana ou o Padre Isaías pareceu oferecer um senso de “casa” mais real do que o seu próprio ponto de partida?
Bom, eu acho que se sentir estrangeiro ou “alienígena” em quase todos os momentos de uma viagem é algo bastante rotineiro! Inclusive, eu não estava, a princípio, buscando uma casa nem pretendendo ficar no Nordeste. Eu estava realizando uma viagem que na minha cabeça ia ter um início e um fim e depois voltar para o que eu considero a minha casa e que é Porto Alegre. Mas senti acolhimento enorme em certos lugares e por certas pessoas, muitas pessoas que são personagens desse livro. Então, em muitos lugares, dava vontade de ficar mesmo!
Eu acho que é algo muito forte quando você está num lugar completamente diferente de onde você já viveu, com pessoas que têm uma trajetória de vida completamente diferente da sua, e se sente muito parecido com essas pessoas, sente que o seu pensamento é parecido, que existe uma irmandade muito forte, que vai além de um simples encontro, de um simples respeito, sabe? Então, a gente vai criando relações muito fortes. Eu acho que existe sim uma certa consciência, um certo espírito de luta, uma certa indignação frente às injustiças que são sentimentos universais que a gente encontra em pessoas em qualquer lugar do mundo. E isso te faz sentir… não sei se em casa, mas pelo menos amparado numa viagem como essa. Te faz te sentir bem.
E vice-versa, realmente chegando em ambientes como Maceió, a primeira capital onde eu cheguei após umas semanas em ambientes mais rurais, foi um choque gigantesco! Isso te fez desnaturalizar o que sempre achou normal, sabe? Porque a gente vive aqui em ambientes urbanos que não são saudáveis. Na boa, não são! E convive com muitos absurdos também. Então quando você se afasta um tempo o suficiente, tem experiências como a de uma cicloviagem, e depois volta, consegue olhar com esse olhar de fora, e pensa: “mas o que essas pessoas estão fazendo aqui, amontoadas nesses lugares tão estranhos?”
O Tempo e a Partida
O silêncio do fim: Na rodoviária de Porto Alegre, você descreve um momento de serenidade ao montar a bicicleta pela última vez. Depois de quase 2.000 km, o que pesa mais na volta: as histórias que você trouxe na bagagem ou o silêncio de perceber que a liberdade só se sustenta na teimosia?
Sabe, acho que eu me sentia muito leve na volta, na verdade. Os últimos pedais, eu lembro que foram como se não tivesse nem carga na bicicleta. Porque a gente vai perdendo o medo também, relaxando, esquecendo as expectativas. Mas falando em medo, eu acho que uma coisa que pesou foi um pouco esse medo de não poder compartilhar com as pessoas. Tipo, que eu não ia saber contar, ou que as pessoas não iam entender ou sequer se interessar. Era muita coisa… Mas afinal, acho que escrever esse livro foi uma saída ótima. E o longo tempo da escrita também, para deixar o próprio filtro da memória fazer o seu trabalho. Acho que ficou ali o que precisava mesmo ser contado. Espero que as pessoas leiam e gostem.
A pergunta que não foi feita: Você menciona que todos perguntam “quantos quilômetros você faz por dia”, mas ninguém pergunta sobre o lugar onde dormiu ou sobre os encontros imprevistos. Se você pudesse editar a memória dessa viagem, qual cena seria o seu “plano-sequência” favorito, aquele que resume a essência da Teimosa?
Aiai… a pergunta que não foi feita! De fato, é engraçado (ou triste?) mas as pessoas fazem sempre as mesmas perguntas na viagem. Eu acho que elas não sabem o que perguntar, por onde começar, então perguntam “quantos quilômetros você faz por dia?” ou coisa assim, e eu ficava indignada, nem sabia o que responder. Porque a viagem não se limita aos quilômetros que você faz por dia, né? Apesar de que sei que tem cicloviajantes que pedalam muito, muito, muito que todo dia postam: hoje eu fiz 200 km, aquela coisa e tal. Mas não era o espírito da minha viagem.
As pessoas também perguntavam muito porque viajar sozinha, se não tinha medo. Acho que as respostas estão nas entrelinhas do livro.
Mas essa do plano-sequência é uma pergunta difícil! Já não foi fácil resumir essa história toda em 300 páginas! Imagina se eu tivesse que escolher uma cena só! Deixa eu pensar… Eu acho que o que eu vi de mais bonito e menos esperado nessa viagem foi o Rio São Francisco. Eu não sei qual seria a cena, mas o cenário seria com ele no fundo, com certeza. Inclusive, eu estava descendo pelo litoral e achei tão bonito, tão poderoso, tão forte quando cruzei o rio, que acabei desviando da minha rota e subir por dentro das terras, até o Sertão de Sergipe! Só para ficar mais tempo perto do rio e desses povoados tão autênticos, tão bonitos. São lugares que carregam séculos de história e, ao mesmo tempo, parecem um pouco abandonados, esquecidos dentro do próprio Brasil.
E todas essas barragens, toda essa exploração utilitarista do rio, tudo isso contrasta demais com a vida e a espiritualidade das águas… logo eu falando como pessoa ateia! Mas foi uma experiência muito forte, mesmo. Um dos lugares mais, mais incríveis que eu conheci.
Pertencimento
Por que lançar o livro em Porto Alegre? Quais as expectativas e planos para depois daqui?
Lancei esse livro em Porto Alegre porque mesmo não estando morando aqui neste momento, é a cidade que eu considero minha e onde vim construindo a boa parte da minha vida, os meus projetos, a minha carreira artística, seja na literatura, no cinema ou na música. Fiz questão também de publicar esse livro com a mesma editora do primeiro, ‘Como no romance’, lançado em 2020. Por ser uma editora bem parceira, amiga, e por gostar do trabalho que fizemos no primeiro. Então, para mim era importante que fosse lançado com essa editora e em Porto Alegre.
Enquanto aos planos depois daqui, bom, é uma longa história… mas depois daquela viagem eu fui morar no Nordeste, para escrever o livro, e me tornei militante do MST, que foi também algo que aconteceu em decorrência dessas aventuras.
Mas agora, estou na Brigada Internacionalista do MST, no Haiti, numa tarefa de 2 anos. Então depois daqui, eu vou ainda dar um pulinho no Nordeste para fazer um lançamento lá em Recife e depois voltar para o Haiti para mais um ano lá, junto com a brigada do MST. E depois de lá, sinceramente, não sei, mas com certeza virão outros livros, outros filmes e, espero, muita música.
Serviço
O Lançamento de A Teimosa acontece nesta quinta-feira (29), Dia Nacional da Visibilidade Trans, na Biblioteca do Cirandar, às 19h, com atrações musicais, leituras e sessão de autógrafos.
Data: quinta-feira (29).
Horário: 19h.
Local: Biblioteca do Cirandar (Rua Duque de Caxias, 1297, Centro Histórico – Porto Alegre).
Para adquirir o livro: @chadafol
