Apocalipse

‘Baby do Brasil ainda não é compreendida, nem a sua importância na história da MPB’, afirma documentarista que filme sua biografia

Para diretor da obra, Rafael Saar, ao reconhecer os horrores da ditadura a artista fica na contramão dos evangélicos de extrema direita 

Baby do brasil em Ponte de Piatã em 2011
Baby do brasil em Ponte de Piatã em 2011 | Crédito: Divulgação

O filme Apocalipse segundo Baby, que conta a trajetória da artista Baby do Brasil tem sessões de exibição entre hoje, dia 13 e amanhã, dia 14 nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo dentro da programação da 31ª do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade.

Ao programa Conversa Bem Viver, o diretor e montador da obra, Rafael Saar, falou sobre a importância da artista para a Música Popular Brasileira e que um dos pontos que motivou a realização do filme foi o preconceito vivido por ela.

‘Me incomodava muito essa visão meio limitante de não entender a importância dela. Eu acho que ela ainda não é compreendida, nem a importância dela na história da música popular brasileira. E então isso era sim um dos motivos de eu querer fazer o filme. Fica uma imagem muito fácil colocar ela apenas com uma louca, e isso que me incomodava ali, e ela é muito mais que isso.’ disse Rafael.

A obra levou cerca de 18 anos para ser finalizada, Saar explica que este processo não foi uma escolha, mas uma condição imposta pelos desafios, principalmente ligados ao financiamento para concluir o trabalho, mas que ao mesmo tempo, isso permitiu um amadurecimento de todo o processo, que foi feito com colaboração de Baby. ‘Ela já tinha mudado muito e ela queria uma imagem bem recente dela no filme, atualizar essa imagem dela.’, ele completou.

Para saber os locais e horários de exibição do documentário, acesse a programação do festival.

Leia a entrevista:

Brasil de Fato: O documentário faz um um grande mergulho na vida da Baby, é isso mesmo Rafael?

Rafael Saar: Ela foge de casa no dia do seu aniversário para 17 anos, ela foge de casa em Niterói e vai para Salvador. E lá ela conhece, já no mesmo dia, Caetano [Veloso], [Gilberto] Gil e os amigos com quem ela formaria os novos baianos, o Moraes [Moreira], o [Luiz] Galvão, o Paulinho [Boca de Cantor], o Pepeu [Gomes].

E desde os 17 anos, ela começa a carreira na música e tem a vida registrada, indo até os dias de hoje. É muito incrível essa trajetória dela e ter ela toda registrada em áudio, vídeo, em filmes e a gente recuperou muita coisa pra esse filme.

Até a última semana de montagem, chegava material novo, todo tempo a gente foi aberto para isso tudo que ia acontecendo. [Ela] ajudou bastante assim nas pistas, ela tem uma memória incrível. A gente ainda cuida mal da nossa memória, então foi difícil encontrar muitas coisas, muitas coisas se perderam, a gente não conseguiu encontrar, mas eu acho que ali no filme a gente tem muitas imagens raras e inéditas, fora o material que a gente filmou, de 2008 para cá. O que a gente filmou lá em 2009, quando começamos a filmar, quase vira arquivo, porque tudo mudou, ela mudou, o Brasil mudou. 

O que te despertou a conduzir esse documentário? Quando você percebeu que ele ia se tornar um documentário de fôlego?

Na verdade, quando eu estava terminando o curso de cinema, em Niterói, da onde ela veio,  eu tinha feito um curta com Ney Matogrosso, ainda como estudante, e fiquei buscando, pesquisando outros artistas que me inspirassem. O Ney me inspira muita liberdade, de experimentação estética, musical, visual e  aí eu pensei na Baby. Eu tinha uma memória muito forte dela na infância. Nasci nos anos 80, e ela tinha um apelo infantil também muito forte, tinha os cabelos coloridos, o repertório, a Emília, também com o Balão Mágico, isso tudo povoava o meu imaginário como criança. Então, eu procurei ela em 2008 e a gente começou o filme.

Não foi uma escolha que a gente fizesse o filme por tanto tempo. Na verdade, foram as dificuldades, os desafios que a gente tinha, principalmente em conseguir um financiamento. A demora veio mais daí do que por uma escolha, mas acabou que isso também trouxe um amadurecimento muito grande para lidar com essa história. E eu acho que a gente conseguiu entregar algo bonito, que honra a história dela.

Há um reconhecimento artístico da Baby como pioneira em vários aspectos, mas, ao mesmo tempo, se enfatiza muito o fato dela ter se convertido  ao mundo evangélico. Isso foi um ponto que te trouxe uma vontade, uma curiosidade, uma necessidade de fazer esse documentário?

Totalmente, sim. Ela sempre ligou a espiritualidade dela à criação musical. Então isso era um dos caminhos fundamentais que o filme iria buscar, entender ou explorar, como ela ligava essas duas coisas, espiritualidade e música. Quando eu a conheci, ela estava afastada da música já desde a conversão. E ela voltou depois a cantar, com um projeto com o filho, Pedro Baby.

E me incomodava muito essa visão meio limitante de não entender a importância dela. Eu acho que ela ainda não é compreendida, nem a importância dela na história da música popular brasileira. E então isso era sim um dos motivos de eu querer fazer o filme. Fica uma imagem muito fácil colocar ela apenas com uma louca, e isso que me incomodava ali, e ela é muito mais isso. E qualquer controvérsia, que as pessoas identifiquem, que eu acho que todos temos, as contradições, nada disso apaga a importância que ela tem.

Eu acredito, que o grande público não conhece a Baby, sabe? Não é nem que desconsidera, porque não conhece. A nossa memória é ainda muito curta.

Ela começou nos Novos Baianos com 17 anos, muito jovem. O Acabou Chorare que é um dos maiores discos da música brasileira, ela tinha 20 anos. Era a única mulher ali nos Novos Baianos, dentro desse movimento. 

Quando eu comecei a fazer o filme, eu me lembro que tinham poucos documentários sobre músicas mulheres, musicistas mulheres. Muito tempo se passou e a gente tem um repertório enorme de documentários, mas ainda há uma questão de gênero importante, sim. E acho que isso que ela representa, enquanto mulher, e valorizar as mulheres que vieram antes dela, é fundamental

O Caetano fala disso, de como a Baby foi a primeira artista a valorizar a Elza Soares, como uma grande influência para ela. Isso nos anos 70, 80, até 90 não era um consenso. Então, a Baby fez esse movimento, como o Caetano depois fez também, de resgatar a importância da Elza e honrar essas mulheres, um movimento muito bonito. 

Qual foi a opinião da Baby quanto ao documentário?

Foi tudo muito feito em colaboração, dela entendendo o que a gente estava fazendo, o que a gente queria fazer. E quando a gente conseguiu reunir as coisas, tinha um prazo para entregar o filme, então eu fiz uma proposta, mostrei para ela já um corte bem próximo desse que foi finalizado no ano passado, e ela gostou muito. Eu me surpreendi, achei que ela fosse querer trazer mais contribuições, sugerir mudanças e tal. E não, ela gostou muito, e pediu para que a gente fizesse uma cena nova, uma cena final. 

Ela já tinha mudado muito e ela queria uma imagem bem recente dela no filme, atualizar essa imagem dela. E trazer a história lá do Apocalipse com a Ivete [Sangalo] no Carnaval, porque não estava no filme. A gente conseguiu colocar isso no filme, citar essa história de uma forma que tem tudo a ver. 

Esse nome, o Apocalipse, muita gente acha que veio depois do meme com a Ivete, mas não, já era o nome do filme desde o início. 

Como foi a reação da baby em relação a este episódio? Porque tentaram vincular essa fala dela, sobre a chegada do apocalipse nos próximos anos, como uma fala de extrema direita

As pessoas ignoraram o fato da [Ivete] estar fazendo uma homenagem a Baby, A Baby é a primeira cantora de trio elétrico. E a Baby amou a situação inteira. E eu entendi depois, conversando com ela, de como ela teve coragem de se expor ali e falar o que ela pensa, o que ela sente e me parece que ela entende isso como o propósito de vida dela, maior do que a música.

Ela tem uma fala, durante a ditadura militar, em que ela diz, ‘A ditadura brasileira foi avassaladora, mas a ginga brasileira venceu.’ Você diria que ela segue convicta nesse sentido até hoje? 

Diria. É uma frase que ela falou agora pra gente, é esse reconhecimento que ela tem do horror da ditadura civil-militar Brasil, é uma transgressão dentro de um meio cristão que ainda se alia a um discurso de extrema direita e pró ditadura, e que ela vai na contramão de reconhecer o horror da ditadura porque ela viveu. 

E isso está já no no nome da banda Novos Baianos, os velhos Baianos foram expulsos do país, o nome da banda já é um um nome político. 

E fala um pouco mais do fato dela ter sido a única mulher dentro dos Novos Baianos.

Exatamente, não uma mulher, uma menina, no meio de muitos homens. Eles apostam nessa vida comunitária, em comunidade, e ela passou por muitas coisas, ela ouvia que era a mulher dos nove baianos, mas enfrentou isso de uma forma muito corajosa. De seguir esse legado, eu cito a Gal[Costa] , ela tem claramente uma influência muito forte da Gal.

A gente traz no filme, um momento, quando ela conhece o Caetano, o Gil, ela vai no último show deles no Brasil. Ela diz que entrou invisível no teatro, ela não tinha dinheiro para pagar a entrada e ela senta atrás da Gal Costa. E ali ela conhece a Gal, conhece o Pepeu [Gomes] que estava tocando no show. E no filme a gente traz cenas do filme Os Doces Bárbaros, e acho muito bonito a forma como o Cláudio, o outro montador, também fez essa associação entre os Doces Bárbaros e  esse momento. O Caetano fala ali que os Doces Bárbaros, eram uma imitação dos Novos Baianos e a Baby fala que não sabia que eles iam chegar tanto. 

O que fez a Baby voltar a cantar e fez ela entender que não poderia se afastar da música?

Quando ela se converteu, houve um discurso muito forte da mídia de querer associar a conversão dela a um esquema comercial, de buscar o mercado gospel, Ela gravou um disco já perto da conversão, ‘Exclusivo para Deus’, e ela nem quis trabalhar então comercialmente esse disco. E ela fala: ‘Se estão achando isso de mim, que eu entrei nesse lance por uma jogada comercial, então agora não vou gravar nada”. E se afasta.

Ela continuava fazendo alguns shows, a gente filmou ela num show com a Elza Soares e a Ademilde Fonseca em 2010. Isso foi feito pensando nas duas grandes influências dela e a gente filmou os três dias de shows delas.

E carreira ela retomou a convite do filho, que estava tocando com a Gal, e voltou com tudo, com a produção da Paula Lavigne, e foi tudo muito grandioso.

 Há previsão de quando o filme chegará ao grande público? 

A gente tem uma coprodução com o Canal Brasil, então, o filme vai entrar na programação do Canal Brasil em algum momento, não sei ainda quando, e também nos streamings.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

O programa de rádio Conversa Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 8h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é semanal e vai ao ar aos sábados a partir das 13h30 no YouTube do Brasil de Fato e TVs retransmissoras.

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Editado por: Luís Indriunas

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