Memória de luta

‘A luta é uma teimosia para ser feliz’ diz Ripper, fotógrafo que documentou Massacre do Carajás

Fotodocumentarista relata a dor e a força da resistência que ele percebe ao registrar processos de violência no campo

O fotodocumentarista relata a dor e a força da resistência que ele percebe ao registrar processos de violência no campo
Velório das vítimas do massacre em Curionópolis (PA) | Crédito: Ripper/Imagens Humanas

No marco dos 30 anos do Massacre do Eldorado de Carajás, João Roberto Ripper, fotodocumentarista que documentou as mobilizações e os processos dos dias posteriores ao assassinato de 21 trabalhadores rurais, participou do programa Conversa Bem Viver e contou sobre o que viu naqueles dias.

Ele destacou que, ao mesmo tempo em que existia um grande sentimento de tristeza dos parentes das vítimas, havia uma forte energia de resistência e luta. Como símbolo disso, ele aponta que, em todos os lugares, se observavam bandeiras do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST) hasteadas e erguidas por essas pessoas.

Ripper também relembrou o fato de ter registrado em imagem a segunda autópsia que foi feita nos corpos das vítimas. “Quando eu cheguei lá, fiquei ainda mais impressionado. De cara foi preciso refazer a autópsia, porque ela foi tão mal feita, tão sem querer provar nada, e quando você é representante do governo e nas suas funções você não quer provar, você tá omitindo, você tá sendo conivente com o processo. Então, aquela autópsia foi absolutamente conivente”, lembrou.

Para o renomado fotógrafo, o trabalho da imprensa em crimes que atacam os direitos humanos é fundamental.

“O fotógrafo, o câmera, o repórter tem que ter a sensibilidade de ser insistente, resistir, tem que cada vez mais trazer essas histórias e poder fazer valer uma história e não deixar que jamais se mude isso. Que cada vez se possa levantar bandeiras humanitárias”, analisou Ripper.

As imagens feitas por Ripper em Eldorado dos Carajás foram digitalizadas e integram o Acervo João Roberto Ripper do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz, que visa conservar e divulgar o trabalho de fotodocumentaristas.

Leia a entrevista na íntegra.

Brasil de Fato: Ripper, uma alegria imensa falar com o senhor. Agradecemos a disponibilidade.

João Roberto Ripper: Eu acho que a gente jamais pode deixar esquecer o que aconteceu. Até porque outros massacres vieram — quando não como massacre, assassinatos.

É importante lembrar, nesse Massacre de Carajás, a posição do governo estadual, com uma postura de liberação do processo de violência, e não posso não me lembrar de que só duas pessoas são condenadas, o que é um absurdo.

O massacre foi tão brutal que, quando eu cheguei lá, foi refeita a autópsia e foi chamado Nelson Mancini, legista para fazer a nova autópsia. Já que a primeira tinha que se esquecer mesmo. A maioria das pessoas foi assassinada depois de baleada. Pessoas eram baleadas, feridas e depois vinham com aquela espingarda, com aquelas foices na ponta, machado, enfim, inúmeros tipos de arma, que feriam mais ainda e terminavam de matar as pessoas, tanto que, se você for ver, tem alguns trabalhadores que morrem com a mão, tentando se proteger.

A gente tem o dever de lembrar, cada um fazendo seu trabalho, mas chega de massacres. Sejam rurais, sejam urbanos, o massacre é sempre uma covardia brutal.

Eu me lembro que, depois que foi feita a autópsia, tinham dois caminhões e os corpos reautopsiados foram colocados nesses caminhões. Eu escolhi um deles [para subir]. Logo depois, sobe também o [Sebastião] Salgado. Eu nunca tinha fotografado um massacre, mas já tinha fotografado vários crimes contra os trabalhadores rurais. E isso é muito forte.

Transporte dos caixões dos trabalhadores assassinados de Marabá para Curionópolis

Na parte urbana, tiveram vários conflitos que terminaram em massacre, o último com mais de cem trabalhadores mortos. Agora são conflitos onde você tem a polícia fazendo papel de algoz. A polícia é para proteger, não é para fazer o que foi feito em Carajás. O governo não é para autorizar que se atue, que se massacre, e o governo de Homero Gabriel autoriza a retirada das pessoas. Quer dizer, o que a juventude vai fazer vai ser retomar a caminhada e chegar a Marabá.

Eu vi várias cenas, várias famílias; tinha até dificuldade na edição, porque às vezes tem que proteger um pouco a dor que essas famílias têm até hoje — vão ter a vida toda — pela forma brutal com que foram mortas as pessoas.

E cada massacre, cada assassinato tem sido repetitivo, se vê o Estado — que é para proteger, que é para evitar isso, que é para dar garantia às pessoas — e a polícia militar, braço armado do Estado, sendo usada para esses assassinatos, para essas mortes em massa.

E tem que ter um grito, e é função da gente mostrar sempre a dor e a alegria, sempre que se pode.

Eu documento muito populações tradicionais, e eu gosto de mostrar a deliciosa teimosia de ser feliz que as populações têm, mas a gente tem que mostrar também esses absurdos para que cada vez eles não sejam mais esquecidos, para que sejam mais lembrados e comecem a se punir de uma forma muito mais forte.

Eu queria voltar para aquele 17 de abril de 1996, exatos 30 anos. E ouvi um pouquinho do senhor, como foi aquele dia. O que te despertou essa necessidade de ir até lá acompanhar essa história?

Primeiro que eu já documentava questões rurais e já tinha documentado assassinatos, prisões, torturas de trabalhadores. Já tinha fotografado vários trabalhadores rurais presos sem confirmação de crime algum.

Quando eu soube — eu me lembro muito porque eu estava totalmente quebrado, duro e eu viajei para lá com R$ 100 e consegui uma passagem, na época, a mãe da minha companheira comprou a minha passagem, e eu fui pra lá. Então, quando eu cheguei lá, fiquei ainda mais impressionado. De cara foi preciso refazer a autópsia, porque a autópsia foi tão mal feita, tão sem querer provar nada, e quando você é representante do governo e nas suas funções você não quer provar, você tá omitindo, você tá sendo conivente com o processo. Então, aquela autópsia foi absolutamente conivente.

Se não é a nova autópsia feita pelo Nelson Mancini, o que será que ficava dessa história?

Legista identifica uma das vítimas do massacre no pátio do IML de Marabá, Pará

Essa história de refazer a autópsia foi por causa da pressão de jornalistas que chegaram? Como se deu esse processo?

Não, foi o próprio governo federal que, através dos representantes ligados aos direitos humanos, pressionou para ver a outra autópsia. E chamaram o Nelson Mancini, porque ficou óbvio que não tinha registrado nem o número de tiros direito. Me lembro de que eles perguntaram se poderia fazer a autópsia e registrar a autópsia, para ela valer legalmente.

E aí, se é para valer legalmente, você não pode vender o seu trabalho [as fotos]. Então, você pode doar as fotos. Então, eu fiz as fotos e encaminhei [para eles].

Agentes da Polícia Civil coletam depoimentos de três camponeses que sobreviveram ao massacre

Também consegui correr e ver trabalhadores que estavam feridos no hospital, trabalhadores que estavam respondendo também a perguntas sobre o que tinha acontecido; tinha policiais trabalhando ainda, era uma mistura muito grande. E a gente faz essa documentação. Depois, os caixões são colocados em dois caminhões [e levados] para a frente do Incra, onde é feita uma manifestação, já totalmente escuro.

Quando a gente sai de lá, já no anoitecer, tinha um pôr do sol, uma imagem plasticamente bonita. Os caixões são recolocados [nos caminhões], seguem para o velório e, depois, são levados no braço pelos trabalhadores até o local do enterro. As cenas eram de pessoas muito sofridas, as cenas eram muito tristes.

Familiares e militantes carregam os caixões de seus companheiros caídos em uma longa caminhada até o local do enterro em Curionópolis

O Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fiocruz está trabalhando com todo esse material histórico de 30 anos, recuperando, restaurando, para que essa memória consiga permanecer no lugar que ela precisa, que é muito viva na mente de todo mundo. Mas queria ouvir o senhor sobre o fato de que chama muita atenção que todas as fotos do senhor têm bandeiras do MST.

A cada ano, faz 30 anos que tem a marcha. E a gente tem que denunciar, porque infelizmente ainda existem muitas pessoas que defendem o massacre. Existe um corpo de pessoas de extrema maldade e de desamor, porque, se você pensar — e vamos pensar só na área rural —, se você for lembrar os trabalhadores mortos, não só no massacre, mas vários trabalhadores que são assassinados. E isso eu já tinha fotografado. Se você lembrar da irmã de Adelaide Molinari, se lembrar do Pedro Henrique, advogado e militante, e uma pessoa que parecia que fluía do avesso de tão boa que era. E os trabalhadores também, que no dia a dia só o que faziam era trabalhar e defender as suas causas.

Então, quando o MST traz essa bandeira cada vez mais forte, e as pessoas, apesar da dor, apesar do choro, levavam as suas bandeiras e levavam a sua garra para dizer: “Vamos continuar”.

É brilhante isso, e quando vejo populações tradicionais, como as colhedoras de flores, e eu falo da deliciosa teimosia de ser feliz, porque é isso mesmo, a luta é uma teimosia para ser feliz.

E a opção por denunciar é porque faz parte de uma opção onde você está do lado do massacrado. Onde você está do lado do oprimido, daquele que foi esfolado, né, que foi ferido, que foi assassinado. E esse é o lado em que a gente tem que estar. 

A imparcialidade jornalística é uma hipocrisia. Você tem que fotografar e apurar o que você ouve, o que é a verdade e, como repórter, sentiu e viu, e, como fotógrafo, você fotografou e teve a sua sensibilidade para tentar mostrar como as pessoas foram sofridas, foram injustiçadas e foram mortas. E, apesar de tudo isso, esses parentes, os militantes do MST e vários outros constantes do Brasil afora, seguem com essa bandeira e defendem que chega de massacre.

O cara que massacra é o cara que tem o poder. É muito difícil você ver algum massacre contra o poder. A convivência do poder é muito grande. Como a convivência com o número mínimo de pessoas condenadas. E isso se repete várias e várias vezes.

E você vai ver sempre, no Massacre de Carajás, as pessoas sofrendo, chorando, mas tendo a certeza de guardar, através da sua bandeira, através do seu grito, do seu choro, a memória viva desse povo que luta tanto.

Familiares e militantes carregam a bandeira do MST e guirlandas de flores em uma longa caminhada até o local do enterro, em Curionópolis

Eu queria encerrar a entrevista com o senhor falando sobre como vê o seu legado sendo passado adiante para essas novas gerações, especialmente fotógrafos e fotógrafos paraenses.

Você pega várias fotógrafas e fotógrafos paraenses, estão o tempo todo lutando para denunciar como é que, por exemplo, em áreas próximas, tem o do fazenda, fechando o rio, botando grade e cadeado, para que as pessoas não cheguem perto do rio quando ele está próximo a encontrar o mar, para que não possam pescar. 

Quando você vê massacres, você vê cemitérios sendo destruídos. O fotógrafo, o câmera, o repórter tem que ter a sensibilidade de ser insistente, resistir, tem, cada vez mais, que trazer essas histórias e poder fazer valer uma história e não deixar que jamais se mude isso. Que cada vez se possa levantar bandeiras humanitárias.

O fotógrafo tem que ter alegria de ir documentar. Me lembro que, a cada ano em que saía uma exposição, vinha um advogado do grupo da direita fazer ameaças, dizer que tinha que ter um massacre mesmo, e diziam até que tinha que ser morto por mostrar aquilo.

A gente tem que entender que a gente vai continuar aí, e, enquanto a gente continuar, tem que mostrar os massacres, as violências e mostrar que é esse mesmo povo que vai ter sempre a deliciosa teimosia de querer a felicidade como justiça.

*Imagens ao longo do texto são Fotografia de Ripper/Imagens Humanas.

Conversa Bem Viver

Em diferentes horários, de segunda a sexta-feira, o programa é transmitido na Rádio Super de Sorocaba (SP); Rádio Palermo (SP); Rádio Cantareira (SP); Rádio Interativa, de Senador Alexandre Costa (MA); Rádio Comunitária Malhada do Jatobá, de São João do Piauí (PI); Rádio Terra Livre (MST), de Abelardo Luz (SC); Rádio Timbira, de São Luís (MA); Rádio Terra Livre de Hulha Negra (RN), Rádio Camponesa, em Itapeva (SP), Rádio Onda FM, de Novo Cruzeiro (MG), Rádio Pife, de Brasília (DF), Rádio Cidade, de João Pessoa (PB), Rádio Palermo (SP), Rádio Torres Cidade (RS); Rádio Cantareira (SP); Rádio Keraz; Web Rádio Studio F; Rádio Seguros MA; Rádio Iguaçu FM; Rádio Unidade Digital ; Rádio Cidade Classic HIts; Playlisten; Rádio Cidade; Web Rádio Apocalipse; Rádio; Alternativa Sul FM; Alberto dos Anjos; Rádio Voz da Cidade; Rádio Nativa FM; Rádio News 77; Web Rádio Líder Baixio; Rádio Super Nova; Rádio Ribeirinha Libertadora; Uruguaiana FM; Serra Azul FM; Folha 390; Rádio Chapada FM; Rbn; Web Rádio Mombassom; Fogão 24 Horas; Web Rádio Brisa; Rádio Palermo; Rádio Web Estação Mirim; Rádio Líder; Nova Geração; Ana Terra FM; Rádio Metropolitana de Piracicaba; Rádio Alternativa FM; Rádio Web Torres Cidade; Objetiva Cast; DMnews Web Rádio; Criativa Web Rádio; Rádio Notícias; Topmix Digital MS; Rádio Oriental Sul; Mogiana Web; Rádio Atalaia FM Rio; Rádio Vila Mix; Web Rádio Palmeira; Web Rádio Travessia; Rádio Millennium; Rádio EsportesNet; Rádio Altura FM; Web Rádio Cidade; Rádio Viva a Vida; Rádio Regional Vale FM; Rádio Gerasom; Coruja Web; Vale do Tempo; Servo do Rei; Rádio Best Sound; Rádio Lagoa Azul; Rádio Show Livre; Web Rádio Sintonizando os Corações; Rádio Campos Belos; Rádio Mundial; Clic Rádio Porto Alegre; Web Rádio Rosana; Rádio Cidade Light; União FM; Rádio Araras FM; Rádios Educadora e Transamérica; Rádio Jerônimo; Web Rádio Imaculado Coração; Rede Líder Web; Rádio Club; Rede dos Trabalhadores; Angelu’Song; Web Rádio Nacional; Rádio SINTSEPANSA; Luz News; Montanha Rádio; Rede Vida Brasil; Rádio Broto FM; Rádio Campestre; Rádio Profética Gospel; Chip i7 FM; Rádio Breganejo; Rádio Web Live; Ldnews; Rádio Clube Campos Novos; Rádio Terra Viva; Rádio interativa; Cristofm.net; Rádio Master Net; Rádio Barreto Web; Radio RockChat; Rádio Happiness; Mex FM; Voadeira Rádio Web; Lully FM; Web Rádionin; Rádio Interação; Web Rádio Engeforest; Web Rádio Pentecoste; Web Rádio Liverock; Web Rádio Fatos; Rádio Augusto Barbosa Online; Super FM; Rádio Interação Arcoverde; Rádio; Independência Recife; Rádio Cidadania FM; Web Rádio 102; Web Rádio Fonte da Vida; Rádio Web Studio P; São José Web Rádio – Prados (MG); Webrádio Cultura de Santa Maria; Web Rádio Universo Livre; Rádio Villa; Rádio Farol FM; Viva FM; Rádio Interativa de Jequitinhonha; Estilo – WebRádio; Rede Nova Sat FM; Rádio Comunitária Impacto 87,9FM; Web Rádio DNA Brasil; Nova onda FM; Cabn; Leal FM; Rádio Itapetininga; Rádio Vidas; Primeflashits; Rádio Deus Vivo; Rádio Cuieiras FM; Rádio Comunitária Tupancy; Sete News; Moreno Rádio Web; Rádio Web Esperança; Vila Boa FM; Novataweb; Rural FM Web; Bela Vista Web; Rádio Senzala; Rádio Pagu; Rádio Santidade; M’ysa; Criativa FM de Capitólio; Rádio Nordeste da Bahia; Rádio Central; Rádio VHV; Cultura1 Web Rádio; Rádio da Rua; Web Music; Piedade FM; Rádio 94 FM Itararé; Rádio Luna Rio; Mar Azul FM; Rádio Web Piauí; Savic; Web Rádio Link; EG Link; Web Rádio Brasil Sertaneja; Web Rádio Sindviarios/CUT.

O programa de rádio Conversa Bem Viver vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 8h, na Rádio Brasil de Fato. A sintonia é 98,9 FM na Grande São Paulo. A versão em vídeo é semanal e vai ao ar aos sábados a partir das 13h30 no YouTube do Brasil de Fato e TVs retransmissoras.

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Editado por: Rafaella Coury

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