Herança Ancestral, novo disco da pernambucana Negadeza, celebra a tradição da cultura popular, em especial no Coco. O trabalho recém lançado reúne quatro gerações de sua família. Negadeza, neta de Selma do Coco e filha de Aurinha do Coco, conta com produção musical do álbum de seu filho com o luthier de rabeca, Fritz Ribeiro, Zuri Ribeiro.
“Foi um disco que a gente recebeu de presente mesmo, dessas mãos espirituais. Tive um sonho com uma das músicas, que é o carro chefe do disco, a Herança Ancestral, um agradecimento a minha avó Selma do Coco e a seguida vem Mestra Querida em homenagem à minha mãe, uma música de Lucas Fortunato, um amigo meu, que fez essa música assim que minha mãe faleceu., explica Negadeza sobre a realização do álbum.
Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, Negadeza fala de como Zuri já se apresenta como um perpetuador desse legado de cultura e tradição. “‘”E eu trago Zuri como continuidade, desse legado de Selma, de Aurinha [do Coco]. E Zuri produziu esse disco, assinou a produção aos 14 anos de idade. Desde muito novo, ele é músico, bisneto, neto, filho [de músicos], afilhado de Hermeto Pascoal. Então, desde muito cedo, ele lida com todos os instrumentos e nesse disco ele assina a produção e bota trompete, guitarra, contrabaixo, rabeca, percussão, compõe, canta e faz coro junto comigo, diz ela.
Leia a entrevista
Brasil de Fato: São quatro gerações diretamente envolvidas neste trabalho, o álbum Herança Ancestral. É um trabalho que atravessa quatro gerações, é isso mesmo?
Negadeza: Exatamente. Sou filha e neta de duas maravilhosas representantes da cultura pernambucana. Estou aqui por causa da minha avó, de Selma do Coco, fazendo cultura popular, porque elas chegaram antes, elas varreram esse terreiro e limparam um pouco dos espinhos para a gente não pisar tão forte. Então é esse respeito, esse cuidado a quem veio antes de nós.
E eu trago Zuri [Ribeiro é filho da cantora Negadeza] como continuidade, desse legado de Selma, de Aurinha [do Coco]. E Zuri produziu esse disco, assinou a produção aos 14 anos de idade. Desde muito novo, ele é músico, bisneto, neto, filho [de músicos], afilhado de Hermeto Pascoal. Então, desde muito cedo, ele lida com todos os instrumentos e nesse disco ele assina a produção e bota trompete, guitarra, contrabaixo, rabeca, percussão, compõe, canta e faz coro junto comigo. Foi um disco que foi feito em dois dias. Um dia a gente gravou e no outro dia a gente alinhavou tudo.
Foi um disco que a gente recebeu de presente mesmo, dessas mãos espirituais. Tive um sonho com uma das músicas, que é o carro chefe do disco, a Herança Ancestral, um agradecimento a minha avó Selma do Coco e a seguida vem Mestra Querida em homenagem à minha mãe, uma música de Lucas Fortunato, um amigo meu, que fez essa música assim que minha mãe faleceu.
Zuri, por ser bisneto, neto e filho, ele fala que é difícil é muito sério tudo isso, mas que ele vai ele consegue chegar com muito respeito, muito cuidado e atenção, não só pelas mais velhas, sobretudo pelas mulheres. Então, é um disco que traz muita coisa de dentro de casa.
O meu primeiro disco foi assinado por Marco Suzano e sai um pouco porque eu sou filha, eu sou neta, mas eu sou eu. Eu queria deixar esse disco registrado, mostrando que eu posso sim fazer coco onde eu tiver e da maneira que eu quiser e que o coco vai estar ali sim, assim como tá na alma, como tá na pele. E esse disco de agora é em agradecimento a tudo que sou, aonde eu cheguei. Muito importante tudo isso.
Teve algum momento que você pensou em não perpetuar esse legado ou sempre foi algo muito natural seguir esse caminho?
Sempre foi muito natural porque eu nasci, e cresci no terreiro de coco da minha avó. Selma do Coco é minha madrinha e avó. Cheguei lá com os 2 meses para companhia do filho dela, que é meu pai zezinho que me criou. E eu conheço a cultura popular. Eu venho com a minha mãe, Aurinha do Coco, que vem da música erudita.
Eu não teria como deixar de fazer o que eu faço até hoje, porque eu não conseguiria, sempre foi a minha faculdade, sempre foi o meu alicerce. Eu não saberia fazer outra coisa a não ser música, mas eu queria sim, eu sempre pensei muito além de tudo. E para entender sobre muitas outras coisas, eu queria entender sobre direitos autorais e eu fui estudar. Eu sou graduada, né, direito, sou formada em direito. E eu queria entender sobre direitos autorais em prol das minhas mestras, dos meus mestres para tentar organizar e fui migrando para o [direito] trabalhista e cível, que é uma área que eu gosto muito, então a gente pode tudo. É o que eu digo para a Zuri. E a gente pode tudo, além da cultura. A música, ela me alimenta, alimenta a minha alma e alimenta literalmente a minha vida. Ela é que paga minhas contas, é dela que eu vivo, que eu respiro. É porque toda ação gera um uma reação, se eu faço o que eu amo, eu recebo por isso e resolvo a minha vida. Então, eu não saberia fazer outra coisa, mas saberia sim. É só querer. Mas tudo sempre foi muito agregado à cultura popular. Nunca consegui sair disso, fazer apenas direito, por exemplo, não conseguiria de jeito nenhum.
Uma pergunta que fiz para mestre Nico, conterrâneo seu, e faço a você também: você teme que um dia a cultura popular deixe de ser perpetuada?
Pois é, é muito complicado. Eu sempre faço questão de estar em todas as comunidades, na rua, em todas as escolas, fazendo esse repasse da cultura. Porque se a gente não faz, isso se acaba, essa história se perde. A gente precisa repassar isso e fazendo essas pessoas entenderem o respeito, mostrando como foi árduo para uma mestra, para o mestre chegar até aqui, gravar um disco, que são essas músicas que a gente canta e na maioria das vezes a gente nem cita [ o nome deles], eu debato muito sobre isso.
Cantou uma música da mestra, do mestre cite! Eu presenciei várias delas e deles tentando botar um disco no mundo, um registro no mundo, com suas cantigas, com sua vida. Porque a música da mestre do mestre de cultura popular é o que ela vivência no dia a dia
Então eu faço esse repasse sempre falando na valorização e sempre mantendo o respeito às pessoas que são exatamente daquele terreiro. Cada terreiro tem sua história, cada mestre tem sua história.
Então, a gente acoplar tudo num livro, não vai dar certo isso, isso aí eu sempre digo: “Vão vivenciar, vão beber na fonte, vão fomentar”, porque não é só chegar e dizer: “Mestre, me conta sua história”, não. É sobre cuidado, eu sempre falo muito sobre isso.
Quantos netos, bisnetos eu vejo dizendo: “não quero isso para minha vida não, eu já vi o que a minha mais velha passou, eu não quero passar por isso”. Mas é sobre é exatamente sobre isso, é sobre tentar mudar essa realidade tão árdua, que o sistema em si não cuida, não tem respeito, a mestra vai definhando. Foi o que aconteceu exatamente comigo.Eu presenciei muito minha mãe sem trabalho, minha avó sem um show para fazer e quando faz, recebe [o pagamento] um ano depois quase.
Foi o que minha avó me disse antes de falecer: “Repasse tudo que eu lhe ensinei para as crianças ainda no bucho das mães”. E eu fiquei com aquela mensagem. Mas repassar como? Porque Tudo tem sua inovação. Meu filho pode fazer as coisas da maneira dele, eu já fiz uma outra coisa também, mas e o cuidado? Então eu passo ao pé da letra, como foi que eu aprendi com as minhas mais velhas, com meus mais velhos. E sempre citando esse cuidado e esse respeito a quem veio antes.
E sobre a internet, em relação a tudo isso, queria te ouvir um pouquinho mais, porque me parece que é aquele famoso caso da faca de dois gumes.
Está tudo muito rápido e a gente precisa precisa acompanhar também essa rapidez, porque senão a gente fica ali atrás. O que precisa é de alguém prestando atenção. Tem que ter muito cuidado com isso. Hoje em dia tu está fazendo música até em chat GPT, está estudando e ele te dando um texto, só copiar e colar na escola,
Na mesma proporção, que é muito importante, é legal, a gente pesquisa, a gente tem também que ter cuidado com cada pesquisa que a gente faz, e eu ainda digo mais, eu sou velha, eu ainda digo beber na fonte, procure quem sabe, vai procurar uma mestra, conversar, entender, vai lá, fomenta, procura saber, beba ali naquela fonte, procura saber de cada passagem de cada uma, de cada um deles por aqui.
E outra coisa, antigamente a gente pegava os discos, agora está tudo nas plataformas. Mas quem foi que gravou aquilo ali, e a ficha técnica daquelas coisas
Eu estava conversando com Suzano agora a pouco. Cadê o tanto de disco que Suzano produziu, gravou e hoje em dia tá tudo nas plataformas digitais. E quem foi que assinou aquele pandeiro ali, aquela percussão ali, aquela voz ali?
Então precisa dessas políticas, principalmente nessas questões de plataformas digitais que tem que ter [a menção], é obrigatório ter toda a ficha técnica daquele trabalho ali.
É uma pesquisa que eu estou fazendo agora, porque a gente precisa se juntar em prol disso, não podemos deixar isso acabar. Eu tenho todos os dias que eu gravei aqui, mas isso acaba com o tempo. Se a gente tem que acompanhar a tecnologia, por que nas plataformas digitais não estão constando a ficha técnica de cada disco ali?
Queria que você falasse mais sobre Zuri, seu filho, um fenômeno que já está entre nós e que é a garantia de que o legado de Hermeto Pascoal vai seguir adiante, não é mesmo?
Zuri cresceu com um pai, que é um grande mestre, luthier de rabeca, Fritz Ribeiro, constrói e toca rabecas. Então, Zuri foi inserido no meio de mestres, além da avó, da bisavó, do padrinho, do mestre Luiz Paixão. A gente levava ele para todas as sambadas de cavalo marinho de Maracatu Rural e ele foi crescendo e vendo cada movimento. Estudou todos os baianos de cavalo marinho, todas as toadas, todos os brinquedos de Zuri sempre foram instrumentos. E aos 7 anos de idade, ele ganhou uma bolsa no conservatório.
Com 8 anos, ele precisou de um violino e vendeu slime [ uma massa viscosa e pegajosa, popularmente conhecida como “geleca”] foi um sucesso e comprou o violino. Aos 10 anos disse “mamãe preciso do meu violão” eu digo “resolva”. Ele fez uma live, comprou violão, fez de tudo.
Porque não é fácil, nunca foi, eu não vou dar um instrumento para a criança estar acabando, quebrando com tudo. Então desde criança, desde cedo ele tem que entender como é a responsabilidade de lutar para ter aquele o que aquilo que ele quer.
Ele foi estudar trompete na Orquestra Voadora, daqui a pouco violão e rabeca e contrabaixo, ganhou um contrabaixo, aí conseguiu comprar uma guitarra. Então, ele está sempre estudando. Chega da escola, faz as tarefas e vai estudar música.
Queria que você fizesse um relato de como que está vida de uma pernambucana em terras cariocas.
A gente foi [para Pernambuco] em dezembro, voltou em fevereiro para cá e quase não volto. Mas eu estou em Pernambuco sempre, inclusive agora dia primeiro de maio fazendo um evento em homenagem a minha mãe e a Jaine, grande cantora, compositora. Estou agora na turnê nova do disco de Lenine, O Eita, e a gente vai percorrer o país também.
A maré vai levando e vai deixando e vai trazendo, e a gente está fluindo junto com o mar.
Conversa Bem Viver

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