Ascensão do fascismo

‘A Paixão pela mentira’: psicanalista investiga porque votamos em quem faz mal a nós mesmos

Paulo Schiller, que estará na programação da 24ª edição da Flip, conecta relações familiares com o apoio ao fascismo

Paulo Schiller, escritor, tradutor e psicanalista
Paulo Schiller, escritor, tradutor e psicanalista | Crédito: Renato Parada

O livro “A Paixão pela mentira: a família e as tiranias” (Editora Todavia) surgiu a partir de uma inquietude: como a psicanálise pode ajudar a entender os motivos para tantas pessoas apoiarem regimes autoritários? Na obra, o escritor, tradutor e psicanalista Paulo Schiller desenvolve um ensaio, a partir da sua atuação no consultório clínico de análise, que relaciona a construção familiar e o fascismo.

Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato, Schiller relata os fundamentos para o debate do livro: “Eu parti de duas frases, uma delas do [Sigmund] Freud, que vai dizer que a mentalidade de massa e o instinto grupal têm o seu alicerce fundamental na família. E existe um livro póstumo do Contardo Calligaris, em que ele estuda também a inclinação, a tendência de pessoas comuns se encantarem por regimes que, no limite, acabam nos prejudicando.”

Schiller afirma que não são raros episódios em que uma mulher vota em uma pessoa misógina, uma pessoa negra vota em um político racista, ou uma pessoa LGBT vota em alguém homofóbico, por exemplo.

“Isso tem a ver com algo que a gente faz, todos nós, numa certa medida, nas nossas vidas particulares. E essa é uma das finalidades fundamentais de um processo de análise: o objetivo é que eu pare de fazer reiteradamente aquilo que me faz mal e que me prejudica. No caso, pode ser a escolha de um líder autoritário”, detalha o autor.

Schiller destaca como regimes de natureza autoritária se debruçam geralmente em pautas “de costumes”, com discurso de proteção da entidade familiar. “Nessa pauta de costumes está incluída discursivamente, pelo menos, uma proteção das gerações anteriores. Isso é tema de praticamente todo o trabalho psicanalítico. A gente repete, no dia a dia, que a gente jamais faria algo que está presente na história familiar, e a gente acaba repetindo, consciente ou inconscientemente. Às vezes a gente repete dizendo que não está fazendo a mesma coisa, no sentido de proteger algo da história familiar passada.”

Aprofundando ainda mais a questão, o psicanalista diz que a história apresenta exemplos desse apego ao passado e de seu vínculo com os contextos familiares.

“Regimes fascistas, na grande maioria das vezes, falam de um passado idealizado, de um passado ao qual se deseja voltar, que é falso, que nunca existiu. O ‘Make America Great Again’ é uma mistificação de um passado que, na verdade, é falso. Pessoas que têm uma nostalgia do regime militar ou então da Alemanha de Hitler podem ter uma relação com a tentativa de proteger uma história familiar sem manchas. Se você for pensar no Grande Inquisidor lá do Dostoiévski, dos Irmãos Karamazov, ele vai dizer que as pessoas abandonam a liberdade com extrema facilidade”, discorre o escritor.

No próximo sábado, dia 25 de julho, acontece, dentro da programação da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty, a mesa de debate “Se o delírio te eleva à potência do abismo”, em que Paulo Schiller, juntamente com o crítico literário João Cezar de Castro Rocha, discute a ascensão do autoritarismo no mundo nos últimos tempos.

A conversa entre os autores será transmitida pelo canal do YouTube do evento.

Conversa Bem Viver

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Editado por: Gia Matheus Almeida

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