O livro “A Grande Trapaça Digital: como as big techs destruíram a música, enganaram o público e sequestraram a nossa alma sonora” (Ed. Terreno Estranho), escrito pelo jornalista Luiz Cesar Pimentel, desmonta a promessa de democratização do mercado fonográfico, feita pelas Big Techs com a digitalização em massa do setor musical.
Pimentel, que estuda o impacto das plataformas digitais na indústria da música, diz que a dominação dos serviços de streaming de áudio levou ao achatamento da subjetividade: os elementos de escolhas pessoais foram substituídos por critérios externos de validação.
“Isso acontece muito claramente na música, mas eu vou dar alguns exemplos: quando um restaurante passa a ser considerado bom porque ele tem nota 4.8 de cinco, por exemplo. As plataformas não têm o interesse estético, sonoro, de qualidade da música. Elas passam a impor o gosto das pessoas por critérios de lucro, por critérios de validação financeira”, explica o autor em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato.
Para o jornalista, o processo de monopolização feito por essas plataformas em parceria com as grandes gravadoras foi perverso. “Essas gravadoras deram ao Spotify todo o acervo delas, todo o repertório delas. Então, ele sequestrou toda a música, digamos, de relevância do mundo, para dentro do território dele. E ali ele pode fazer o que ele quiser com essas canções, uma vez que ele tem todo ali no próprio domínio.”
Em relação à forma como as pessoas acessam os conteúdos dentro da plataforma, Pimentel relembra o histórico de relação com o usuário. Ele relata que, em um primeiro momento, elas deram acesso livre e ilimitado ao conteúdo. Em seguida, criaram um status de usuários que pagam pelo acesso para evitar propagandas e manter o acesso ilimitado.
“O terceiro ponto é quando ele passa a agir a favor dos acionistas e de recuperação de lucro, prejuízo perdido. Que foi o que aconteceu também com o Spotify. Ele vinha queimando dinheiro de investidores e só dava prejuízo. E aí, ele modificou tudo, ele falou: ‘Eu cobro quanto eu quiser pela música.”
Segundo o escritor, os músicos, principalmente os independentes, hoje em dia dedicam muito mais tempo a demandas de divulgação e administração do que necessariamente criando música. Para ele, é preciso uma nova relação do público com a arte.
“Precisa reconstruir o cenário a partir de iniciativas como comprar de merchan e vinil, ir aos shows, criar uma cena a partir do próprio cenário independente para que volte a ter uma saúde financeira. O músico, hoje, deve gastar 15% do tempo dele em música, porque o resto ele tem que ficar cuidando de rede social, de distribuição, de colocar nas plataformas, de verificar se ele está recebendo. Tem que ter uma retomada dessa soberania artística dentro da música”, pondera Pimentel.
Conversa Bem Viver

A sintonia da Rádio Brasil de Fato é 98,9 FM na Grande São Paulo.
Assim como os demais programas da Rádio Brasil de Fato, você pode ter acesso a esse conteúdo com antecedência para reproduzir gratuitamente na sua rádio. Acesse este formulário e faça sua inscrição.
São dezenas de rádios que fazem parte desta corrente!
